Jens Butner/AFP
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Mulher enigmática

Merkel não revela sua proposta de campanha, diz que todos a conhecem

O Estado de S.Paulo

23 Setembro 2017 | 05h00

Ela tem os ares de uma valorosa senhora de cabelos loiros e uma franja definida sobre a fronte, bem inteligente. E como nós já a conhecemos há 12 anos, e ela está no centro do mecanismo europeu, deveríamos começar a conhecê-la. Mas ela continua sendo um ponto de interrogação.

Mal sabemos que tem um marido e nas noites de sexta-feira faz suas compras de supermercado. Ela se mostra reservada, mas amável com as atendentes. Sua força, ou sua astúcia, é passar a ideia de que, ao contrário, ela é a mulher mais simples, mais acessível do mundo.

Na França, um candidato à presidência está condenado a anunciar a seus eleitores o que vai fazer, qual a porcentagem de elevação ou de redução dos impostos, se vai favorecer o cigarro ou o cachimbo, a cor amarela ou a azul. Para Merkel, Pfttt! Seu programa é ela. “Vocês me conhecem.”

Ou precisamente, eles não a conhecem, porque ninguém a conhece. Exteriormente é uma pessoa sem fantasia, um pouco monótona, fiel a alguns princípios tranquilizadores e incapaz de adotar uma nova opinião ou posição. Mas interiormente é uma pessoa secreta, difícil de se conhecer, que pode desbaratar tudo com uma naturalidade desconcertante.

Três exemplos recentes dessa maleabilidade: ela sempre declarou seu apego à energia nuclear, mas a explosão da central nuclear de Fukushima a abalou. De um dia para outro, decide que não queria mais saber da energia nuclear. Sempre se opôs ao casamento gay e de repente, em junho, sem anúncio prévio, declara que abriu um debate sobre a questão. Será que ela mudou de filosofia ou obedeceu ao desejo sussurrado pela maioria dos alemães? Quem saberá jamais?

O terceiro caso é mais impressionante. Em 2015, a Europa está envolvida no fluxo de migrantes. Jornalistas, escritores apresentam quadros horripilantes, anunciando o retorno das “grandes invasões da Idade Média” e enxergam uma Europa em breve pisoteada pelas hordas de Gengis Khan.

Todos os países europeus estão de prontidão contra o surgimento dos desabrigados. Alguns, como a França, hipocritamente, os outros francamente como a Hungria, que se envelopa em arame farpado. E então Merkel, sem consultar ninguém e com uma voz calma, anuncia que abrirá suas fronteiras para um milhão de migrantes.

O estranho é que para esses vira-casacas, essas mudanças repentinas acabam funcionando. Ela maneja uma arma eficaz. Essa arma é o silêncio. Na França, os chefes falam sem parar. Sarkozy falou. Hollande falou. Macron fala. Merkel nada diz ou quando muito, distribui trivialidades. Em reuniões internacionais é até divertido: todos agitados, falando, gritando. Merkel é um bloco de silêncio. E então, depois que todos apresentaram seus propósitos, Merkel fala brevemente. E, geralmente, prevalece.

O mistério Merkel se adensa à medida que o iluminamos. Os detetives buscam, portanto, sobre qual alicerce sólido e intocável se apoia essa aparente desenvoltura, essa versatilidade.

Um dos melhores biógrafos de Merkel, Philip Plickert, refere-se à infância na Alemanha Oriental, a terrível RDA e ao pai, pastor protestante em Templin, Brandemburgo. Os protestantes são os campeões da discrição e da disciplina interior. Ou seja, nessa RDA comunista, a muito jovem recorreu a uma disciplina interior para conservar sua liberdade ao abrigo da terrível Stasi.

Essa infância em um terreno intolerante, comunista, trouxe um outro ensinamento a Merkel: ele viu com os próprios olhos a vaidade, a estupidez, o perigo das “ideologias”. As grandes elaborações sobre o senso de história, sobre sua decadência ou sobre o progresso da humanidade, tudo aquilo que encanta os “intelectuais”, com Merkel, não funcionam de nenhuma forma.

Pragmática, de um extremo ao outro, um “programa” de pouco lhe serve. Nenhuma filosofia atrapalha ou pesa sobre os passos. Há uma outra especialidade de Merkel que sem dúvida explica seu comportamento. Ela é “religiosa”. Jamais fala disso e não parece ser muito influenciada pelas recomendações da Igreja. Para ela, a religião é um assunto privado. O que ela manteve do protestantismo é antes de mais nada uma mensagem de “liberdade”. 

Podemos acrescentar algumas cores à silhueta muito clara, muito transparente, da senhora Merkel, mesmo que essa pessoa poderosa preserve uma parte de seus segredos. Livre como o ar em relação às ideologias, desde que não eliminemos as grandes lições das religiões, da moral e da liberdade.

Quanto a mim, é assim que interpreto essa extraordinária “força política”, desde que em 2015 ela anunciou, para surpresa ou cólera de todos, que precisaria abrir seu país aos excluídos, aos migrantes. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

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