Ariana Drehsler / AFP
Ariana Drehsler / AFP

Mulher grávida morre ao tentar pular muro na fronteira do México com EUA

Para autoridades migratórias, acidente é um sinal do desespero dos imigrantes diante das medidas restritivas impostas pelo governo americano

Nick Miroff, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2020 | 10h51

TEXAS - Uma mulher grávida morreu na quinta-feira, 13, ao tentar pular o muro de seis metros construído pelo governo Donald Trump em Clint, no Texas, na fronteira entre o México e os Estados Unidos.

Para autoridades de imigração e defensores dos Direitos Humanos, a queda é um sinal do desespero cada vez maior dos imigrantes para tentar atravessar a fronteira diante de medidas rígidas do governo americano para impedir sua entrada.

Desde que assumiu, Trump vem adotando uma série de medidas de segurança na fronteira, como a construção de muros mais altos e de aço, a limitação dos que estão aptos a pedir refúgio e a separação temporária das crianças imigrantes de seus pais na fronteira.

Miriam Estefany Girón Luna, de 19 anos, grávida de sete meses, havia saído da Guatemala e tentou pular a barreira de malha de aço que tem 6,5 metros de altura. Ela estava com o marido, que conseguiu pular. 

A mulher morreu em decorrência dos ferimentos, e os médicos não foram capazes de salvar a criança, disse um comunicado do Ministério das Relações Exteriores da Guatemala. 

Girón Luna foi assistente social e vencedora de concurso de beleza em sua cidade natal, no departamento de Quetzaltenango, na Guatemala, segundo Paniagua.

Postagens de amigos nas redes sociais lamentavam sua morte. Seus amigos disseram que ela viajou para a fronteira para “tentar sustentar sua família financeiramente”.

Giria Luna escorregou enquanto tentava descer do topo da barreira, disse Paniagua, caindo de costas. O parceiro da adolescente, Dilver Israel Díaz García, 26 anos, levou-a para longe do local, em busca de ajuda e encontrou agentes da Patrulha de Fronteira dos EUA, que pediram uma ambulância por rádio.

Os médicos de El Paso não tiveram sucesso na tentativa de dar à luz a criança por cesariana, e Girón Luna passou por várias cirurgias antes de morrer, disse Paniagua. Díaz García permanece sob custódia da Patrulha de Fronteira dos EUA, onde enfrentará um processo de deportação.

Desespero dos imigrantes na fronteira

Para autoridades consulares, o acidente indica o desespero dos imigrantes e a dinâmica perigosa do processo de imigração nos EUA.

“Há um ano, no o auge da onda de imigração familiar, o casal provavelmente teria tentado se entregar para procurar asilo”, disse Tekandi Paniagua, uma autoridade consular no Texas. “Mas uma série de novas restrições impostas pelo governo Trump está levando os atravessadores de fronteiras a correrem mais riscos.”

Desde outubro, pelo menos cinco outros guatemaltecos sofreram fraturas e outros ferimentos graves depois de cair do muro da fronteira, disse Paniagua. No total, nas fronteiras, foram 178 acidentes deste tipo.

Dois adolescentes guatemaltecos sofreram ferimentos significativos depois de cair de uma extensão de cerca de 6 metros no Arizona em 2018, um incidente registrado pelas câmeras de vídeo do CBP.

As autoridades também interceptaram sete caminhões com imigrantes escondidos desde janeiro, disse ele - depois de registrar apenas 12 desses incidentes em todo o ano de 2019.

"Esta é uma tendência muito preocupante", disse ele. "As pessoas estão assumindo cada vez mais riscos e estão perdendo suas vidas".

Em 2019, as autoridades dos EUA prenderam mais de 470.000 imigrantes que chegaram em grupo à fronteira, parte de um afluxo recorde de centro-americanos alegando medo de perseguição em seus países de origem. 

Medidas anti-imigração do governo Trump

O governo Trump respondeu com medidas que praticamente fecharam a fronteira para requerentes de asilo, enquanto enviavam pelo menos 60.000 ao México para esperar fora do território dos EUA enquanto seus processos são avaliados.

Essas medidas levaram a uma queda de 75% nas detenções nas fronteiras desde maio, dizem as autoridades dos EUA, mesmo com os números mais recentes mostrando um ligeiro aumento no número de adultos mexicanos solteiros e menores desacompanhados tentando atravessar.

Com a construção dos muros de aço mais altos ​​ao longo da fronteira, incluindo mais de 300 quilômetros de barreiras com mais de 15 metros de altura que o governo Trump instalou, os traficantes de pessoas e os coiotes passaram a usar escadas improvisadas para levar os imigrantes para o alto.

A tática exige que os imigrantes subam as escadas e se segurem no topo da estrutura, depois desçam uma escada pelo outro lado do muro ou deslizem para baixo envolvendo os braços e as pernas ao redor do aço. A mudança requer um grau significativo de esforço físico.

Em uma teleconferência com repórteres na quinta-feira, o comissário interino de Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA, Mark Morgan, descreveu a queda fatal de Girón Luna em detalhes, chamando-a de "um exemplo da verdade" do que está ocorrendo na fronteira.

"Os traficantes de pessoas rapidamente os deixaram sozinhos, desaparecendo na escuridão, deixando-os sozinhos para fazer a parte final da travessia”, disse ele. "Quando eles tentaram escalar o muro, o marido não pôde fazer nada além de assistir ao ver sua esposa grávida cair no chão."

"Isso é absolutamente trágico", disse Morgan. "Mas o que também faz parte da tragédia é o que pode ser evitado. Não dê ouvidos aos traficantes de pessoas. Eles não se importam com você. Eles vão abusar de você e deixarão você para trás para morrer. Essa é a verdade. Esses são os fatos.”

Fuga da América Central

Muitas pessoas que moram em países da América Central vivem com medo, já que El SalvadorHonduras Guatemala contam com as maiores taxas de homicídio do mundo.

Os imigrantes relatam que enfrentam extorsão e querem evitar que seus filhos sejam recrutados por gangues de rua. No entanto, essas taxas têm diminuído nos últimos anos. Além disso, acredita-se que fatores econômicos sejam os mais importantes motivadores dos que deixam esses países.

Mais de 90% dos imigrantes que chegaram aos EUA nos últimos tempos são da Guatemala, segundo dados divulgados recentemente. A maioria é oriunda de regiões empobrecidas ou que sofrem com conflitos sobre direito de terra, mudanças climáticas e queda dos preços de produtos como milho e café, o que está prejudicando a sobrevivência de fazendeiros.

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