AFP PHOTO / WAKIL KOHSAR
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Mulheres afegãs desafiam tradição e partem para o levantamento de peso

Pouco difundido no país, cuja sociedade considera o esporte feminino um insulto à reputação, halterofilismo atrai cerca de 20 afegãs que treinam no Comitê Olímpico em Cabul; apesar do orçamento limitado, elas já conquistaram campeonatos regionais

O Estado de S.Paulo

07 Março 2018 | 11h40

CABUL - Elas não são mais do que 20, mas as mulheres da equipe de halterofilismo do Afeganistão estão prontas para mover montanhas em uma sociedade que considera o esporte feminino um insulto à reputação das mulheres.

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Com recursos limitados, estas mulheres se reúnem de duas a seis vezes por semana em uma minúscula sala do Comitê Olímpico Afegão, em Cabul, para praticar um esporte com o qual tentam acabar com os tabus herdados da tradição.

No entanto, elas dizem que recebem apoio e incentivo de seus pais ou maridos, como Rasheda Parhiz, uma bela e robusta mulher de 40 anos, que têm uma estrutura corporal rara em um país onde as mulheres tendem a ser pequenas.

Foi precisamente seu sobrepeso que levou Rasheda a praticar primeiro esportes e, depois, o halterofilismo quando a modalidade chegou a Cabul, há sete anos.

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Vestida com um agasalho, túnica e lenço preto, ela deita em um banco e levanta uma barra com mais de 50 quilos de pesos: "São 70 quilos no total", destaca seu treinador Totakhail Shahpor.

"Há nove anos, ia fazer ginástica com burca e estava excessivamente gorda: pesava 120 quilos e passava muito tempo em consulta com médicos. Agora, peso 82", explica Rasheda, cujo recorde de levantar 100 quilos fez com que ganhasse duas copas e medalhas em diferentes competições locais e regionais, na Índia e no Casaquistão.

De volta à sua casa, em um bairro periférico de Cabul - onde as ruas não são asfaltadas -, ela exibe os troféus que conquistou, mas ao invés de colocá-los em uma vitrine os guarda em uma bolsa de plástico.

Exemplo para as filhas

"Porque somos muito preguiçosas para tirar a poeira deles", explica em tom de piada a filha mais velha de Rasheda, Lema, de 22 anos. "E quem está interessada nisso?", responde a atleta afegã.

Ela garante que seu marido "está muito orgulhoso" de seus feitos e permite que suas filhas a acompanhem. Beshta, de 20 anos, começou a treinar com a mãe no Comitê Olímpico.

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Uma da coisas mais complicadas é ir à academia, confessam as duas irmãs, que saem escondidas de casa enquanto o pai está no trabalho.

"(Ele) considera que somos muito novas para isso", diz Lema, que relaciona a dificuldade às pressões sociais. "Se você pratica esporte aqui, te consideram uma mulher de vida ruim. Simplesmente você é malvista", explica.

De fato, no Afeganistão a partir dos 6 ou 7 anos meninas recebem instruções das mães para que não pulem, corram ou sequer subam em uma bicicleta por medo de que percam a virgindade, a maior das vergonhas e uma verdadeira calamidade para uma futura mulher. Diante dessa ameaça, poucas meninas se atrevem a desafiar uma crença bem enraizada na mentalidade local.

Para 38% dos homens afegãos, a vestimenta adequada para as mulheres em público continua sendo a burca, uma peça que as cobre da cabeça aos pés, incluindo os olhos. O dado foi obtido em estudo pela Asia Foundation.

Além disso, 72% deles consideram que as mulheres não devem trabalhar fora de casa. A pesquisa "Afeganistão em 2017" também concluiu que 66% das mulheres não recebem nenhuma educação no país.

Quando o Comitê Olímpico Afegão criou a Federação de Halterofilismo, teve que fazer publicidade para atrair as mulheres, recorda Totakhail Shahpor, à frente do organismo há três anos depois que seu antecessor aproveitou uma competição no Canadá para fugir com fundos da entidade.

Militar de carreira, este homem de 52 anos considera que seu dever é proteger e animar as atletas. "Se impusesse uma disciplina como no Exército, no dia seguinte nenhuma delas apareceria para treinar", brinca. "As trato como minhas filhas."

Ele também organiza numerosas competições para motivá-las, apesar de ter um orçamento modesto. "Recebemos 1.000 afegane (pouco mais de R$ 46) por mês apenas para pagar o transporte", diz.

"Olhe as roupas, elas nem sequer têm sapatos adequados", afirma Shahpor apontando para Sadia Ahmadi, que veste uma roupa de treino cinza e amarela com um grande furo na perna. Apesar de ter apenas 25 anos, esta jovem é a mais premiada da federação.

"Quatro medalhas de ouro", diz o orgulhoso treinador, conquistadas no Usbequistão, na Índia e no Casaquistão. "Com um orçamento maior, poderíamos nos preparar para os Jogos Olímpicos."

A federação afegã de halterofilismo, no entanto, privilegia os homens, lamenta Shahpor, que reconhece o sucesso do país no esporte: mais de uma centena de halterofilistas afegãos participaram de disputas internacionais e nos últimos 8 anos ganharam 250 medalhas em campeonatos regionais e internacional. Em 2012, conquistaram até mesmo um recorde mundial. / AFP

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