Mulheres-bomba matam 70 no Iraque

Três atentados foram lançados contra peregrinos xiitas em Bagdá e um contra manifestantes curdos em Kirkuk

AP E REUTERS, O Estadao de S.Paulo

29 de julho de 2008 | 00h00

Numa das piores séries de atentados do ano no Iraque, quatro mulheres-bomba atacaram ontem peregrinos xiitas em Bagdá e manifestantes curdos em Kirkuk, matando ao menos 70 pessoas e ferindo cerca de 300, segundo fontes citadas pela TV CNN. Na capital, três mulheres se infiltraram na multidão e - num intervalo de poucos minutos - detonaram os explosivos que carregavam junto ao corpo. Os peregrinos estavam a caminho de uma mesquita no norte da cidade, para lembrar a morte do imã Moussa al-Kadhim, no ano de 799 - uma importante festividade no calendário xiita (mais informações ao lado). Funcionários de hospitais disseram que pelo menos 32 pessoas morreram e 100 ficaram feridas nas explosões em Bagdá. "Ouvi mulheres e crianças chorando e gritando e vi pessoas caídas em poças de sangue", disse Mustapha Abdullah, um peregrino de 32 anos que ficou ferido na perna e no abdome. É cada vez maior o número de mulheres recrutadas por insurgentes sunitas para lançar ataques suicidas, porque elas conseguem burlar com mais facilidade os controles de segurança. Muitas escondem bombas em suas vestes e às vezes não são revistadas, já que a maioria dos guardas é homem. De acordo com o Exército americano, vem crescendo exponencialmente o número de mulheres-bomba no Iraque. Em 2007, elas lançaram oito atentados. Somente este ano, já foram registradas 27 explosões com mulheres-bomba.Os EUA afirmam que a Al-Qaeda no Iraque vem recrutando cada vez mais mulheres e também cresce o número de iraquianas que se oferece para lançar atentados. Segundo os americanos, vingar um parente morto pelos EUA ou pelas forças de segurança iraquianas é o principal motivo que as leva a participar da insurgência. A Al-Qaeda também recruta mulheres, segundo os EUA, para incentivar homens a se voluntariar para atacar. Grupos terroristas estão enfrentando dificuldade em recrutar estrangeiros para agirem no Iraque, por o controle na fronteira - principalmente com a Síria - está cada vez mais controlada. Para lidar com essa nova ameaça, militares americanos passaram a recrutar e treinar iraquianas para integrar a polícia. Elas também estão sendo incentivadas a se alistar nos grupos sunitas ligados aos EUA que combatem a Al-Qaeda no Iraque.Nesta semana, forças de segurança enviaram 200 mulheres para revistar peregrinas em Kadhimiya, mas os ataques ocorreram a 8 quilômetros dali, no bairro de Karrada. Peregrinos xiitas são alvos freqüentes de ataques de extremistas sunitas, que buscam fomentar a tensão sectária no país.Peregrinações como a de ontem já foram atacadas diversas vezes em anos anteriores. Em 2005, pelo menos mil peregrinos morreram pisoteados, após uma confusão provocada por rumores de um ataque suicida.CURDOSEm Kirkuk, 290 quilômetros ao norte de Bagdá, 38 pessoas morreram e cerca de 200 ficaram feridas, após uma mulher-bomba detonar os explosivos que carregava em meio a uma manifestação que reuniu milhares de curdos, ao lado da sede do governo. Uma fonte policial disse que a multidão também foi atacada a tiros. Os curdos protestavam contra um projeto de lei sobre as eleições provinciais, nas quais eles buscam obter mais poder e ampliar sua autonomia. Eles são contra uma proposta de divisão de poder em Kirkuk, o que pode adiar as eleições para 2009. O atentado ilustra a tensão étnica e sectária que ameaça as cidades no norte do Iraque - região habitada por curdos, turcomenos, árabes, além de outras minorias. Muitos curdos culparam os turcomenos pelo ataque e, em retaliação, apedrejaram sedes de seus partidos políticos. A polícia também encontrou um carro-bomba próximo ao local do ataque, mas conseguiu desativá-lo antes que fosse detonado."Acho que os terroristas estão tentando colocar obstáculos para a coexistência pacíficas entre curdos, árabes e turcomenos em Kirkuk. Os inimigos de um novo Iraque estão por trás desses atos criminosos", disse Tariq Jawhar, conselheiro do Parlamento curdo. TOQUE DE RECOLHERNo fim do dia, o governo impôs um toque de recolher de 24 horas tanto em Bagdá como em Kirkuk, proibindo veículos de transitar pelas ruas da cidade. O embaixador dos EUA no Iraque, Ryan Crocker, e o principal comandante militar no país, o general David Petraeus, condenaram os ataques. "Os alvos desses ataques foram inocentes - homens, mulheres e crianças que estavam expressando sua fé", disseram num comunicado conjunto. "É crucial para os iraquianos que se unam contra terroristas, que usam a violência para destruir o progresso pelo qual muitos se sacrificaram."

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