Win McNamee/Getty Images/AFP
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Mulheres com alta instrução tiram redutos de Trump

Em subúrbios de classe média que deram ampla vantagem ao presidente americano na eleição de 2016, a mobilização democrata, especialmente do eleitorado feminino, permitiu à oposição retomar a Câmara e ganhar ânimo para a sucessão em 2020

Beatriz Bulla, Enviada Especial a Henrico, EUA, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2018 | 05h00

A eleição legislativa que devolveu aos democratas o comando a Câmara, na terça-feira, pôs em evidência um fenômeno capaz de preocupar Donald Trump em sua tentativa de reeleição em 2020. Os democratas dos subúrbios – em geral áreas verdes com boa qualidade de vida que abrigam a classe média no entorno das grandes cidades – foram em massa às urnas. Especialmente as mulheres escolarizadas

Um dos lugares mais representativos desta tendência está duas horas ao sul de Washington. Os condados que formam o 7.º distrito de Virgínia elegeram desde a década de 70 só deputados republicanos para a Câmara. Em 2016, a região também contribuiu para a eleição de Trump, contrariando a tendência democrata do Estado. 

Na terça-feira, os moradores do VA-7, sigla para o distrito, votaram pelos democratas e, pela primeira vez, colocaram uma mulher na Câmara. A região é um subúrbio de metrópoles – tendo Washington, ao norte, e Richmond, ao sul –, com renda per capita acima da média do país e população escolarizada, que se afastou do partido de Trump. 

Um levantamento do jornal USA Today mostra que ao menos 80 condados se tornaram mais democratas em 2018. Segundo o agregador de dados FiveThirtyEight, antes das eleições de meio de mandato, eram 195 os democratas na Câmara eleitos por todos os tipos de subúrbios. Na eleição deste ano, o número passou para 231. Olhando só a categoria de “subúrbio disperso”, aquele que está à margem de grandes cidades, o total de deputados democratas passou de 35 para 50, no mesmo período de tempo.

Dois dias depois da eleição de Trump, nasceu uma organização tida como crucial no resultado deste ano, chamado de “mulheres liberais de Chesterfield”, encabeçado por Kim Drew Wright. “Cresci com pais republicanos e sempre me senti como uma das poucas democratas da minha região. Nunca estive envolvida com política, mas depois da eleição de Trump, resolvi fazer algo”, afirma Kim. 

O primeiro passo foi um grupo no Facebook para reunir mulheres liberais para tomar drinks. Em novembro, a primeira reunião presencial e informal teve 90 pessoas. “É o despertar das mulheres liberais da área. Antes víamos os sinais republicanos nas casas, mas nunca os sinais democratas. Depois que eles começam a aparecer é que se começa a fazer barulho”, afirma Kim.

O Estado percorreu quatro dos dez condados do 7.º distrito de Virginia depois da legislativa. Em Chesterfield, 51,8% da população são mulheres – mais do que a média nacional, de 50,8%. O total de diplomados responde por 37,7%, também mais alto do que a média americana, de 30,3%.

As cidades do 7.º distrito de Virgínia, como Culpeper, são como maquetes: casas sem cercas com cães soltos no quintal, bandeiras dos EUA nas ruas e, em todo estabelecimento comercial, praças bem cuidadas e, na rua principal, uma loja da rede americana de frango frito, o KFC, e um cemitério com as lápides claras e grama aparada. 

Dona de uma loja de arte em Culpeper, Kate Harriet também credita ao engajamento dos democratas após a eleição de Trump a mudança no resultado deste ano. “Tive três democratas batendo na minha porta às vésperas da eleição. É muito mais do que em momentos anteriores, com certeza fez gente que não votou antes votar dessa vez”, afirma Kate. 

Em um país onde o voto não é obrigatório, o engajamento do eleitorado é decisivo. Ao menos 114 milhões votaram nesse ano – bem acima dos 83 milhões que votaram em 2014. Em anos de eleição presidencial, o comparecimento é maior. Em 2016, ano de eleição de Trump, 138 milhões votaram.

Os dados completos para análise sobre abstenções e voto em 2018 ainda não foram divulgados. Pesquisas apontam que 59% das mulheres consultadas disseram ter votado nos democratas na Câmara, contra 40% que responderam ter votado em republicanos. Em 2016, 53% das mulheres brancas votaram a favor de Trump. “Agora, os democratas apareceram para votar”, diz Arianna Redmond, que trabalha em um mercado. Segundo ela, parte de sua família votou em democratas desta vez.

Democratas da região fazem referência frequente ao discurso agressivo de Trump. “A linguagem é muito ofensiva e a questão com o juiz Brett Kavanaugh também foi grave. Terça-feira foi o primeiro passo dado para tirá-lo da presidência”, diz Patrícia Mills, moradora de Henrico, mencionando a acusação de assédio sexual contra o magistrado indicado por Trump para a Suprema Corte. 

Os republicanos defendem que Trump seja julgado não pelo que fala, mas pelo que faz. “A economia está indo bem”, afirma Scott Smith. “Não voto nele pelas suas falas, mas suas ações”, afirma Carmin Borges. 

O discurso de desqualificação da imprensa adotado por Trump tem público cativo. Ao menos três republicanos abordados disseram não confiar em jornalistas e outros pediram para não se identificar – caso de Tania, moradora de Henrico: “Não acredito em aborto, em casamento entre pessoas do mesmo sexo. Acredito em Jesus Cristo. Isso diz muito sobre meu posicionamento político. Estou muito feliz com Trump”, afirmou.

 

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