The Washington Post by Allison Shelley
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Mulheres de jornalista assassinado em consulado tiveram celulares invadidos

Companheiras de Jamal Khashoggi tiveram celulares invadidos pelo sistema Pegasus antes e depois do assassinato

Redação, O Estado de S.Paulo

19 de julho de 2021 | 05h00

ANKARA, TURQUIA -  O spyware Pegasus do Grupo NSO foi usado para monitorar secretamente os smartphones das duas mulheres próximas ao jornalista saudita assassinado Jamal Khashoggi, além de um amigo e investigadores do crime, que ocorreu no consulado da Arábia Saudita em Istambul, em 2 de outubro de 2018. Considerado inimigo do regime saudita, Khashoggi teria tido seu corpo desmembrado após a morte.

O telefone com dispositivo Android de sua mulher, Hanan Elatr, foi invadido por um usuário do Pegasus seis meses antes do assassinato do jornalista do Washington Post, mas não foi possível determinar se o ataque foi bem-sucedido. O iPhone de sua noiva, Hatice Cengiz, foi atacado por um spyware dias após o crime, segundo perícia independente.

Os números de celular delas apareceram em uma lista de mais de 50 mil telefones que estão concentrados em países conhecidos por espionar seus cidadãos e também por terem sido clientes do NSO. Outro amigo próximo de Khashoggi foi hackeado com sucesso após o assassinato do jornalista. Dois outros investigadores e dois altos funcionários turcos envolvidos na apuração de homicídio também apareceram na lista. 

Os executivos do NSO afirmaram que seu spyware não foi usado para monitorar Khashoggi ou sua família.

No entanto, um usuário do Pegasus enviou textos para Elatr com links que poderiam ter implantado o spyware – a pessoa se fez passar duas vezes pela irmã de Elatr. Os textos foram mandados em novembro de 2017 e novamente em abril de 2018, seis meses antes do assassinato de Khashoggi, em 2 de outubro de 2018, de acordo com um exame forense digital realizado pelo Laboratório de Segurança da Anistia Internacional.

Ela não se lembra de ter clicado nos links. Como ela estava usando um telefone Android, o pesquisador da Anistia não conseguiu determinar se o dispositivo foi acessado. Ao contrário dos iPhones, os Androids não registram os tipos de informações necessárias para o trabalho forense da Anistia.

Elatr e Khashoggi conversavam e trocavam mensagens de texto várias vezes por semana. Eles também se encontraram pessoalmente três vezes. Khashoggi a ensinou a usar vários aplicativos porque achava que alternar entre eles ajudaria a impedir a vigilância, disse ela. “Jamal me avisou que isso poderia acontecer”, disse Elatr, que se casou com ele em uma cerimônia islâmica em junho de 2018, em Alexandria, Virgínia, perto de onde ele vivia em exílio autoimposto. “Isso me faz acreditar que eles estão cientes de tudo o que acontecia a Jamal por meio de mim.”

Após o assassinato de Khashoggi, alguém usando Pegasus mirou no iPhone de Cengiz. Ela o acompanhou até os portões do Consulado Saudita em Istambul quando ele foi buscar documentos. Seu celular foi violado quatro dias após o assassinato e cinco vezes nos dias seguintes, de acordo com a análise da Anistia. A apuração não pôde determinar o que foi retirado do telefone. Na época, as duas mulheres não se conheciam. “Estava esperando por isso. Todas essas coisas me deixam triste e com medo”, disse Cengiz

Não se sabe se o celular de Khashoggi foi hackeado. Ele deixou o telefone com Cengiz quando entrou no consulado. Ela o deu às autoridades turcas, que se recusaram a dizer se o aparelho foi invadido. / W.POST 

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