Mulheres desafiam repressão no Cairo

Após cenas de manifestante seminua sendo espancada por policiais chocarem o Egito, opositoras lideram protesto contra junta militar

CAIRO, O Estado de S.Paulo

21 de dezembro de 2011 | 03h02

Pelo quinto dia consecutivo, soldados e policiais egípcios usaram cassetetes e gás lacrimogêneo para tentar retirar da Praça Tahrir, no Cairo, manifestantes que protestam contra o regime militar. Ontem, milhares de mulheres participaram de uma marcha no centro da capital egípcia contra a repressão policial.

O protesto, batizado de "Marcha de 1 Milhão de Mulheres", começou na Praça Tahrir e continuou pelas ruas próximas. Homens também participaram do evento. Muitos seguravam cartazes com imagens de uma manifestante com a blusa aberta, de sutiã, sendo espancada por soldados.

As cenas de violência correram o mundo no fim de semana, deram novo impulso aos protestos e serviram para aproximar liberais e religiosos, as duas facções políticas civis do país, que estão insatisfeitas com o governo militar.

A secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, qualificou de "chocantes" as imagens de policiais egípcios arrastando a manifestante pela camisa. "Essa degradação sistemática das mulheres egípcias desonra a revolução, desgraça o Estado e não é digna de um grande povo", disse Hillary.

Na segunda-feira, o general Adel Emara, membro da junta militar que assumiu o poder após a queda do presidente Hosni Mubarak, em fevereiro, disse que o ataque contra a manifestante foi um incidente isolado, que está sendo investigado.

O general, no entanto, perdeu o controle ao tentar explicar que os soldados não eram responsáveis pela violência, mas vítimas de provocadores. Ele interrompeu um jornalista no momento em que ele tentava abrir um exemplar de jornal para mostrar a foto da manifestante sendo espancada.

"Antes que você abra esse jornal, guarde-o", disse o general. "O caso ocorreu e estamos investigando." E continuou o ataque ao jornalista, sem cerimônia. "Não dei permissão para você falar. Se você disser alguma coisa, te expulso daqui."

A nova onda de violência no Cairo começou na sexta-feira, quando soldados tentaram desmontar um acampamento do lado de fora da sede do governo. Desde então, choques ocorreram todos os dias, deixando 14 mortos.

A crise entre militares e civis intensificou-se nos últimos dias. Na sexta-feira, o gabinete civil nomeado pelos militares e liderado premiê Kamal Ganzouri, interrompeu suas atividades até que os militares suspendam a repressão. Um terço dos cerca de 30 ministros já pediu demissão.

Indignação. O novo gabinete civil havia sido formado em novembro após a renúncia do antigo, liderado pelo então premiê Essam Sharaf, que se demitiu em protesto contra a morte de 33 pessoas em confrontos entre a polícia e ativistas.

Para legitimar o poder dos militares, o marechal Mohamed Tantawi, comandante do Conselho Supremo das Forças Armadas, nomeou um novo gabinete civil. No entanto, a nomeação de Ganzouri, político ligado a Mubarak, para a chefia de governo serviu apenas para aumentar a indignação dos opositores.

Em meio aos protestos, os egípcios votam para escolher o primeiro Parlamento livre do país desde o fim da monarquia. O segundo turno da segunda fase da eleição, que ocorre em nove províncias, começa amanhã. A Irmandade Muçulmana é favorita. / REUTERS, NYT e AP

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.