DELIL SOULEIMAN / AFP
DELIL SOULEIMAN / AFP

Mulheres jihadistas hostilizam curdos em campo de refugiados sírios

A fúria contra soldados curdos é contida com dificuldade em campo de refugiados no norte da Síria

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2019 | 21h30

SÍRIA - Guardas esfaqueados, tentativas de fuga e uma bandeira preta do grupo Estado Islâmico hasteada por apoiadoras. No campo de refugiados Al-Hol, na Síria, mulheres e crianças vinculadas aos jihadistas manifestam abertamente sua hostilidade aos curdos que as vigiam.

A fúria é contida com dificuldade neste campo do nordeste do país, onde se amontoam mais de 70 mil sírios, iraquianos, franceses, belgas e alemães. 

A um jornalista da agência France-Presse, as mulheres denunciam falta de ajuda e atenção médica deficiente. Tampouco hesitam em elogiar o "califa" Abu Bakr al Baghdadi, líder do EI cujo paradeiro se desconhece, afirmando desafiantes esperar suas ordens. 

A iraquiana Um Suhaib, mãe de três crianças, reconhece que guardas da Assayech, polícia local curda responsável pela segurança do campo, foram atacados.  "Duas ou três vezes, foram esfaqueados", disse a jovem de 23 anos, apontando como responsáveis as "muhajirat", estrangeiras do EI. 

"Por quê os esfaqueiam? Porque eles impõem a injustiça", afirma a iraquiana, coberta dos pés à cabeça por um niqab preto. Acusa os guardas de fazerem "batidas noturnas" nas barracas das "irmãs".  Ela é viúva de um tunisiano membro do EI morto em um ataque contra as Forças Democráticas Sírias (SDF), aliança árabe-curda apoiada por Washington.

Retorno do califado

Em março, as FDS proclamaram a derrota do "califado", após conquistarem o último reduto do EI em Baghuz, pequena aldeia do leste da Síria.

Após meses de combate, milhares de pessoas, incluindo mulheres e filhos de jihadistas, foram retiradas e transferidas a Al Hol, em uma região do nordeste sírio controlada por curdos. 

Cerca de 12 mil estrangeiros - 4 mil mulheres e 8 mil crianças -, estão em campos do nordeste, segundo autoridades curdas. 

"Viemos ao campo seguindo ordens de Baghdadi", afirma Um Suhaib, que deseja "o retorno do califado para nos instalarmos lá".

Separadas de sírias e iraquianas, as estrangeiras e seus filhos vivem em um perímetro cercado. Para ir ao mercado, receber ajuda ou ir às clínicas, devem ser escoltadas por guardas.

"Há tentativas de fuga, consideram-nos inimigos", afirma Amer Alí, encarregado da segurança, referindo-se às partidárias do EI. No entanto, afirma que a situação está controlada.

Semanas atrás, uma estrangeira de Roj, outro campo, tentou fugir de um hospital de Malikiya (nordeste). No banheiro, tirou seu niqab preto e colocou um vestido branco. Mas foi detida.

Sempre um perigo

Em meados de julho, um vídeo publicado nas redes sociais mostrava a bandeira preta do EI em um poste de luz de Al Hol, enquanto mulheres vestidas com niqab preto e crianças gritavam em coro: "Alá é o maior!". 

O EI "difunde sua ideologia pelas mulheres", aponta Alí, reconhecendo o vídeo como autêntico. 

Ele afirma que até mesmo as crianças apedrejam os guardas. "Suas mães lhes dizem: 'Eles mataram seu pai e destruíram nossa casa'". 

Os curdos, que exigem repatriar as estrangeiras e seus descendentes, advertem que as crianças podem representar "bombas-relógio" se não forem reeducadas e reintegradas. 

Shijmus Ahmed, autoridade curda responsável pelos deslocados, é consciente destes desafios. "Não temos os meios para controlar tudo, mas tentamos evitar os incidentes", indicou, reconhecendo ataques contra guardas ou funcionários de agência internacionais. 

Os detidos "continuam apegados a sua ideologia, representando sempre um perigo", alerta.

O niqab preto não esconde a raiva de Um Abdel Aziz. A jovem de 20 anos desconhece o paradeiro de seu marido, detido ao sair de Baghuz há meses.  "Para nós, vale mais a morte que essa vida e essa humilhação", diz a jovem síria. Em Baghuz "havia prosperidade. Tínhamos dinheiro, aqui ardemos no inferno". / AFP

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