Mulheres lideram retirada

Dos 440 mil refugiados em Dadaab, 80% são mulheres

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2011 | 00h00

No comando do êxodo de milhares de pessoas que fogem da fome, nenhum militar, político local ou ativista. Nos últimos meses, a retirada de famílias inteiras da Somália, cruzando um deserto, tem sido comandada por mulheres, na tentativa desesperada de salvar suas famílias. Os homens ficaram para trás, seja porque foram capturados para lutar na guerra ou porque ainda acreditam que precisam proteger suas propriedades e animais.

Dos 440 mil refugiados no campo de Dadaab, 80% são mulheres, crianças e idosos. Caminhar pelas ruas do acampamento é constatar a pouca quantidade de homens e o fato de que são as mulheres as responsáveis por garantir a sobrevivência de suas famílias.

Muitas rejeitam dizer onde estão seus filhos homens e seus maridos. Elas temem que, se contarem que estão lutando, serão alvo de retaliações por grupos dentro do próprio acampamento.

Samia é uma delas. Mãe de sete crianças, ela tenta salvar um de seus filhos num hospital construído pela entidade Médicos Sem Fronteiras em Dadaab. Ela conta que caminhou por duas semanas com a família antes de chegar ao campo.

Com a queda do governo central da Somália, em 1991, uma guerra sem limites começou entre diferentes grupos. Mas nenhum deles até hoje passou a controlar todo o país, apesar do envolvimento indireto de potências estrangeiras.

Os últimos a entrar na luta pelo poder foram as milícias do Al-Shabab - a juventude, em árabe -, financiadas pela rede terrorista Al-Qaeda. Hoje, o grupo é o que demonstra maior ameaça ao governo. Eles controlam territórios inteiros e, segundo um levantamento das Nações Unidas, conseguem coletar até US$ 100 milhões cobrando impostos de agricultores e comerciantes. Os que não pagam são assassinados.

Segundo a Anistia Internacional, milhares de famílias tiveram seus filhos sequestrados pela milícia. Segundo o pesquisador Benedict Goderiaux, da entidade, garotos entre 12 e 18 anos são os mais visados pela organização. Outra parte dos jovens é recrutada no próprio campo pelo governo do Quênia, que tenta apoiar milícias contra o Al-Shabab. O grupo islâmico acusa a ONU de exagerar o tamanho da crise da fome para poder intervir. Mas famílias em Dadaab e ONGs insistem que são as milícias do Al-Shabab que têm usado a fome como arma de guerra.

Ilma Isak é uma das mães que foram separadas de seus filhos pela milícia. Ela deixou a região do Distrito de Bay, na Somália. "Eu estava em casa com dois de meus filhos. Os outros dois estavam na cidade com meu marido. Uma das vizinhas veio me dizer que as milícias tinham entrado na cidade e meus dois meninos já haviam sido levados", diz Ilma. "Decidi sair correndo com a roupa do corpo e, com os outros filhos, nos escondemos no mato por uma semana. Depois, começamos a andar."

Yaroy tem outra história. Fugiu da fome com seus três filhos e seus pais. Mas seu marido ficou cuidando dos animais. "Um dia a chuva vai voltar. Não podemos perder o que nos custou anos para conseguir." Yaroy conta que não teve de andar. "Meu marido nos colocou num caminhão e deu todo o dinheiro que tinha para que nos levassem até o Quênia."

Violência. A escassez de homens no acampamento é um fator de risco para as milhares de mulheres que vivem ali. Sem a figura de seus maridos, são alvos de ataques e estupros. Segundo o Internacional Rescue Committee, os casos multiplicaram-se por quatro desde maio. Entre janeiro e junho, foram registrados 358 casos - mais de 2 por dia.

Luana Lima, pediatra carioca que nesta semana terminou seu trabalho de três meses no acampamento, confirma a proliferação de estupros. "O problema é que muitas mulheres não querem falar sobre o assunto. Se disserem que foram violentadas, são obrigadas a se casar com aquele que as violou."

Até mesmo aqueles que deveriam proteger os refugiados são autores de crimes contra essas mulheres. Em um recente relatório, a Human Rights Watch denunciou o estupro frequente cometido pela polícia queniana que patrulha Dadaab. Ninguém foi punido.

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