Jared Soares/The New York Times
Jared Soares/The New York Times

Mulheres que pilotaram aviões na 2ª Guerra não podem ser enterradas em Arlington

Segundo o Exército, unidade Mulheres Pilotos a Serviço da Força Aérea tecnicamente não fazia parte dos militares

Michael S. Schmidt / The New York Times, O Estado de S. Paulo

07 de março de 2016 | 10h20

SILVER SPRING, MARYLAND - Pouco depois de Elaine D. Harmon morrer em abril de 1995, sua família descobriu uma carta em uma caixa a prova de fogo com instruções explícitas: ela queria que suas cinzas fossem colocadas no Cemitério Nacional Arlington.

“Mesmo que não sobrem cinzas, gostaria que uma urna vazia fosse colocada no Arlington”, escreveu Elaine que, durante a Segunda Guerra Mundial, fez parte de uma unidade de mil mulheres que transportou aviões militares e bombardeiros e treinou os homens para pilotá-los.

No entanto, quase um ano depois, Elaine não teve seu enterro. Uma grande caixa preta com suas cinzas está na prateleira, sobre blusas e malhas, do armário do quarto de sua filha em um condomínio do subúrbio de Washington.

A família Harmon ainda não fez o enterro porque o Exército, que supervisiona o Cemitério Nacional Arlington, diz que a unidade de Elaine no tempo da guerra - conhecida como Mulheres Pilotos a Serviço da Força Aérea (ou WASPs, na sigla em inglês) - tecnicamente não fazia parte dos militares. Dessa forma, segundo o Exército, suas cinzas não podem ser colocadas em um dos columbários do local. O Exército também diz que o cemitério - onde mais de 400 mil veteranos, suas esposas e outros estão enterrados - quase não tem mais espaço para túmulos e urnas.

Alguns membros do Congresso e veteranos estão indignados com a decisão e dizem que é uma contradição grosseira.

Segundo as regras do Exército para o cemitério, se Elaine tivesse sido casada com um veterano que já estivesse enterrado em Arlington, seu pedido seria aprovado, mesmo se ela nunca houvesse servido em uma unidade militar. E vários estrangeiros estão no local, inclusive um prisioneiro alemão da Segunda Guerra que morreu sob custódia dos EUA.

“Pense na ironia de que ao mesmo tempo o Pentágono está abrindo missões para homens e mulheres nas forças armadas e fechando as portas para as mulheres que foram pioneiras”, diz Martha McSally, do Partido Republicano do Arizona, referindo-se à decisão do secretário de Defesa Ash Carter em 2015 de abrir posições de combate para mulheres.

Martha, que foi a primeira mulher piloto de caça da força aérea a voar em combate, sugeriu uma lei que permitiria que as WASPs fossem enterradas no Arlington. Ela diz que apenas cerca de 100 mulheres da unidade ainda estão vivas, e que só duas pediram para ser enterradas no cemitério. “Se eles não fizerem a coisa certa, vamos fazer acontecer”, diz Martha.

O Exército avisa que uma revisão legal interna em 2015 concluiu que um detalhe técnico em uma lei de 1977 impede que as WASPs sejam enterradas em Arlington. A lei designou as mulheres como se estivessem na ativa para o serviço e benefícios do Departamento de Assuntos dos Veteranos. Mas não lhes deu status nos serviços armados e, por isso, não lhes conferiu o direito de serem enterradas no local.

“Com base na demanda e na capacidade, o Arlington vai ter seus espaços para enterros e urnas esgotados para membros da ativa e veteranos nos próximos 20 anos, por volta do meio de 2030”, afirmou o Exército em um comunicado. “Como administradores deste local sagrado, continuamos comprometidos a manter o Arlington como um cemitério ativo pelo tempo que for possível continuar a honrar e servir os heróis militares de nossa nação.”

Durante a Segunda Guerra, os militares, junto com construtores navais, empresas de caminhões e mesmo times de beisebol voltaram-se para as mulheres para preencher os empregos deixados vagos por milhões de homens que foram lutar. Como os membros militares na ativa, as WASPs usaram uniformes, carregaram armas, tiveram acesso a informações secretas e saudaram seus superiores. Além de treinar os homens para pilotar os bombardeiros, as WASPs voaram caças de bases militares para portos onde eram mandados de navio para batalhas no exterior. Pelo menos três dúzias delas morreram ou foram mortas enquanto serviam.

Acreditando que Elaine poderia ser enterrada no Arlington como outros veteranos, membros de sua família fizeram o pedido logo após sua morte. Foi então que descobriram que, como as WASPs não eram tecnicamente membros da ativa, não tinham o direito de ser enterradas ali.

“Foi doloroso e confuso. Separar as WASPs é cruel - dizer que seu serviço não importou, que você não foi boa o suficiente para ser enterrada no Arlington”, conta Tiffany Miller, uma das netas de Elaine.

A família Harmon, que como a maioria dos americanos não sabe como navegar pela burocracia do Pentágono, ficou sem ação. Parentes preencheram pedidos sob a Lei de Liberdade de Informação para descobrir o máximo possível sobre a política, e contataram seus senadores e representantes. Os netos de Elaine até lançaram uma campanha nas redes sociais, mas o Exército não se mexeu.

No começo de janeiro, Terry, filha de Elaine, e Erin, a neta, haviam sido chamadas para aparecer no programa da Fox News “On the Record With Greta Van Susteren”. Mas, no último minuto, um produtor ligou e disse que a entrevista havia sido cancelada e que Martha McSally iria comparecer ao show para discutir a questão como veterana e membro do Congresso.

A filha e a neta de Elaine nunca haviam entrado em contato com Martha e ficaram surpresas com seu envolvimento. Elas viram na internet que Martha havia sido a primeira piloto da Força Aérea a voar em combate e a primeira mulher a comandar um esquadrão de caça, e esperaram ansiosas para assistir a entrevista. No show, Martha anunciou que havia proposto uma lei que permitiria às WASPs serem enterradas no Arlington.

Martha diz que tem um vínculo de longa data com as WASPs. Quando estava subindo na carreira de piloto, um grupo de WASPS do Arizona a procurou. “Pouquíssimas pessoas poderiam entender o que eu estava passando”, afirmou Martha em entrevista por telefone.

“Elas se tornaram amigas, mentoras e me encorajaram. Eu as encontrava quando estava me sentindo deprimida e frustrada, e elas me contavam histórias do que tinham passado e me motivavam a continuar lutando. Eu amei essas mulheres e não estaria onde estou hoje nem teria as oportunidades que tive sem que elas tivessem me ajudado a quebrar o telhado de vidro.”

Ela conseguiu apoio para a lei, que hoje tem mais de 10 co-patrocinadores. “Elas foram um exemplo de que as mulheres podem ser pilotos. Um avião não se importa se você é menino ou menina. O que interessa é como você voa, atira e solta as bombas. As WASPs provaram isso, e sou muito grata a elas.”

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