Ruth Fremson/The New York Times
Ruth Fremson/The New York Times

Marchas contra Trump lideradas por mulheres reúnem mais de 2 milhões

Mobilização proposta em rede social por aposentada havaiana após a vitória de republicano agrupa 500 mil em Washington; protestos apresentam bandeiras ligadas a questões de gênero, mas também a meio ambiente, imigração, minorias e controle de armas

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S. Paulo

21 Janeiro 2017 | 21h03

Menos de 24 horas depois de Donald Trump tomar posse como presidente dos EUA, mais de 2 milhões de pessoas ocuparam as ruas de centenas de cidades ao redor do mundo em um ato de rechaço a seu governo e de defesa dos direitos das mulheres e de liberdades civis que consideram ameaçados por sua administração.

Em Washington, pelo menos 500 mil pessoas aderiram à marcha, mais que o dobro das que eram aguardadas. O protesto foi um dos maiores realizados na capital americana e o primeiro concebido como um ato de repúdio a um presidente recém-eleito. Os manifestantes defenderam o acesso ao aborto, o respeito a minorias, a proteção de imigrantes, o combate à mudança climática e as conquistas da comunidade gay.

Meio milhão de pessoas também se manifestaram em Los Angeles, segundo estimativa da polícia. Na cidade de Chicago, o evento teve de ser cancelado por razões de segurança quando 150 mil pessoas apareceram para marchar, o triplo do esperado. Número semelhante saiu às ruas em Boston. Organizadores estimaram em 250 mil os que aderiram ao evento em Nova York. Em Londres, cerca de 100 mil pessoas ocuparam as ruas do centro da cidade.

Fotos aéreas mostraram um público maior na marcha das mulheres de Washington do que na posse de Trump. O metrô da capital registrou 275 mil viagens até as 11 horas deste sábado, 82 mil a mais que as 193 mil do dia anterior. Com chapéus cor-de-rosa, cartazes com palavras de ordem como “por que armas têm mais direitos que a minha vagina?”, mulheres viajaram a Washington de diferentes lugares dos EUA para demonstrar seu rechaço.

Cara Frank, de 56 anos, participou da marcha em Washington com sua filha Zia Frank, de 26. “Minha mãe marchou nos anos 60 em defesa dos direitos da mulheres e eu não esperava ter de marchar em 2017 pelos mesmos direitos”, afirmou Cara. Judia, ela também teme a retórica antissemita de alguns dos seguidores de Trump.

Lésbica, Yolanta Kristina esteve ao lado de sete amigas. “Nós lutamos muito por liberdades civis, direitos gays e direitos das mulheres para deixarmos que um falso ser humano os destrua. Todas temos mais de 55 anos e temos muito a proteger”, disse Kristina.

“Estamos com medo de que pessoas que nós amamos venham a perder seus direitos”, disse a estudante Lily James, de 18 anos, que participou da marcha na capital americana ao lado de 14 mulheres que representam três gerações de sua família. A seu lado também estava sua melhor amiga, Immy Morehouse, de 16 anos, que não tinha idade para votar na eleição. “Não quero chegar à vida adulta com um governo como esse. É assustador.”

Jean Garden, de 48 anos, viajou do Estado de Michigan a Washington com dez mulheres. “Nós podemos ter um retrocesso de cem anos com o discurso de ódio e o isolacionismo defendido por Trump”, disse. “Eu vim protestar contra a marginalização de minorias, o discurso misógino e defender o direito das mulheres de terem controle sobre seu corpo.”

As cantoras Madonna e Alicia Kiss, a atriz Scarlet Johansson e o documentarista Michael Moore estavam entre os oradores em Washington. “Bem-vindos à revolução. À rebelião. A nossa recusa como mulheres de aceitar essa nova era de tirania, na qual não apenas as mulheres estão em perigo, mas todas as pessoas marginalizadas”, disse Madonna. 

Uma das principais promessas de Trump é a nomeação de juízes para a Suprema Corte que sejam contrários ao direito ao aborto. Os republicanos que controlam o Congresso também ameaçam cortar o financiamento público do Planned Parenthood, uma instituição dedicada à saúde feminina, que fornece contracepção, exames ginecológicos, educação sexual e acesso ao aborto. Cecile Richards, sua presidente, foi uma das oradoras. Trump assumiu a presidência com o menor índice de popularidade para um presidente eleito dos EUA que se tem registro, com aprovação de 40%, metade da obtida por Barack Obama há oito anos.

Ideia. A origem da marcha é atribuída a Teresa Shook, uma advogada aposentada de 60 anos que vive no Havaí. Na noite de 8 de novembro, quando Trump derrotou a primeira mulher com chance de chegar à Casa Branca, Shook publicou uma mensagem no Facebook na qual propôs o protesto em Washington. Em poucas horas, 10 mil pessoas haviam apoiado a ideia. “Nós tínhamos que mostrar às pessoas que isso não é o que nós somos”, disse Shook em entrevista à agência Reuters em dezembro. Uma estilista de Nova York, Bob Bland, apresentou proposta semelhante. Em pouco tempo, o protesto ganhou novas organizadoras e um número inesperado de adesões. 

A trajetória de Trump é marcada por declarações ofensivas e depreciativas em relação às mulheres. Pouco antes da eleição presidencial, o Washington Post revelou um vídeo de 2005 no qual o novo presidente dos EUA se gabava de poder fazer o que quisesse com as mulheres por ser famoso, o que incluía agarrá-las pelos órgãos genitais sem consentimento.

As declarações ofensivas de Trump em relação às mulheres levaram analistas a prever uma vantagem histórica de Hillary no eleitorado feminino na eleição. Quando as urnas foram abertas, os números revelaram mais um aumento da preferência dos homens por Trump do que a das mulheres por Hillary. A candidata venceu no eleitorado feminino com uma vantagem semelhante à registrada por Barack Obama na eleição anterior. / COM REUTERS


Relembre o que Donald Trump já disse sobre elas:

“Hillary Clinton seria uma péssima presidente por causa das ações de seu marido. Se ela não consegue satisfazer seu marido, o que a faz pensar que ela é capaz de satisfazer a América?” 

No Twitter, em abril de 2015.

“Angelina Jolie saiu com vários homens por ser atraente. Angelina Jolie saiu com tantas pessoas diferentes que eu fico parecendo um iniciante. É por isso que ela não me atrai.”

Em entrevista ao programa Larry King Live, em 2006.

“A melhor parte de não importa qual filme é quando eles fazem as mulheres calarem a boca.”

No livro "Nação Trump: a arte de ser Donald", de sua autoria, sobre o filme "Pulp Fiction".

“Se uma mulher quiser ser jornalista, ela precisa ser sensual. Se nós fôssemos politicamente corretos, diríamos que a aparência não conta nada. Mas é claro que a aparência é importante.”

Em vídeo exibido pelo programa de TV Last Week Tonight.

“A pessoa que inventou a expressão ‘sexo frágil’ era inocente ou estava brincando. Já vi mulheres manipulando homens mexendo apenas os olhos – ou outras partes do corpo.” 

No livro "A arte do retorno", publicado em 1997.

“Foram 26 mil agressões sexuais não relatadas nas Forças Armadas e apenas 238 tiveram sanções. O que esses ‘gênios’ imaginavam ao colocarem homens e mulheres juntos?” 

No Twitter, em maio de 2003, sobre números de abusos entre militares.

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