Mulheres sauditas protestam pelo direito de dirigir

Começou hoje na Arábia Saudita uma campanha para desafiar a proibição de as mulheres dirigirem. Diversas mulheres assumiram o volante, entre elas uma que ficou 45 minutos dirigindo na capital, Riad. No país, apenas homens podem conduzir veículos. A norma é apoiada em interpretações austeras do Islã e garantida por guardiães da moralidade.

AE, Agência Estado

17 de junho de 2011 | 10h58

A manifestação das mulheres, inspirada em parte pelos levantes no mundo árabe, pode levar as autoridades sauditas a optar entre duas alternativas: ou reprimem e enfrentam a pressão internacional, ou dão espaço a essas demandas por liberdade, enfurecendo os clérigos tradicionais e outros grupos opostos a reformas. Isso pode também encorajar as mulheres a pedir outros direitos, como o voto ou a possibilidade de não necessitar da permissão de um homem para viajar ou ter um emprego.

"Nós queremos que as mulheres de hoje comecem a exercitar seus direitos", afirmou Wajeha al-Huwaidar, uma ativista pelos direitos humanos, que colocou na internet vídeos dela dirigindo em 2008. "Hoje, nas ruas, será apenas a abertura de uma longa campanha. Nós não recuaremos." O plano, segundo ela, é que as mulheres com licenças para dirigir obtidas no exterior comecem a andar um pouco em seus carros. "Nós manteremos isso até que consigamos um decreto real acabando com a proibição."

Maha Al Qahtani, especialista em computação que trabalha no Ministério da Educação, afirmou que dirigiu por 45 minutos por Riad, com o marido no banco de passageiros. "Eu queria marcar uma posição", afirmou ela por telefone. Há relatos não confirmados na internet de que outras mulheres estão dirigindo na cidade de Dammam, no leste, e em outros pontos do país. Joffe-Walt disse que alguns homens estavam dirigindo vestidos como mulheres, a fim de confundir as forças de segurança. Não há até o momento relatos sobre prisões ou violência.

A campanha começa após uma prisão por dez dias, no mês passado, da saudita Manal al-Sherif, de 32 anos, após a divulgação de um vídeo em que ela dirigia. A mulher foi liberada após supostamente assinar um documento afirmando que nunca mais dirigiria nem falaria em público.

O incidente, porém, gerou críticas internacionais de grupos pelos direitos humanos e apelos pelo fim da proibição, caso único no mundo. Em vários países, incluindo os Estados Unidos, grupos de mulheres dirigiram hoje no entorno de embaixadas sauditas para protestar contra a norma.

Não há uma lei escrita impedindo as sauditas de dirigir, apenas decretos religiosos (fatwas) emitidos por importantes clérigos de uma ala rígida dos muçulmanos, o wahabismo. Segundo os clérigos, a proibição protege contra a disseminação do vício e da tentação, pois dirigindo as mulheres estariam livres para sair de casa e interagir com homens estranhos. A proibição leva as mulheres a contratar motoristas ou a depender de parentes homens para o transporte.

O rei Abdullah prometeu reformas sociais, porém ele depende do apoio dos clérigos para manter o poder. Em Londres, a Anistia Internacional pediu ontem que as autoridades sauditas "parem de tratar mulheres como cidadãs de segunda classe e abram as vias do reino para mulheres motoristas". As informações são da Associated Press.

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