Mulheres temem volta da poligamia na Líbia

Previsto na sharia, o casamento de homens com até quatro mulheres foi limitado na era Kadafi por uma lei que o novo governo estuda revogar

ADAM NOSSITER, THE NEW YORK TIMES / TRÍPOLI, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2011 | 03h04

Foi apenas uma breve referência ao casamento no sóbrio discurso de um líder, mas as mulheres na Líbia passaram a semana preocupadas, bem como os aliados estrangeiros. Ao anunciar o sucesso da revolução líbia e pedir um país mais fiel à religião, o líder do governo interino, Mustafa Abdul Jalil, abriu caminho para a prática da poligamia num país onde esse costume é hoje raro.

A declaração foi recebida como um retrocesso para as mulheres num momento em que heranças - instituições, leis, relações sociais - dos 42 anos de ditadura ainda vigoram.

No discurso, Abdul Jalil disse que a lei criada na época de Muamar Kadafi restringindo a possibilidade de múltiplos casamentos aos homens - prevista na sharia, a lei islâmica - seria revogada. A lei prevê, por exemplo, que a primeira mulher deve aprovar uma segunda união do marido.

"Esta lei é contrária à sharia e deve ser revogada", disse Abdul Jalil à multidão, reiterando suas palavras em uma entrevista coletiva, embora mais tarde tenha dito ambiguamente que "não pretendia abolir nenhuma lei".

Ainda assim, as líbias viram nas palavras do presidente do Conselho Nacional de Transição uma ameaça. Defensores dos direitos humanos também. No exterior, a reação de aliados foi de surpresa. "Trata-se de um problema que nos diz respeito, especialmente em se tratando da dignidade das mulheres", disse o ministro francês das Relações Exteriores, Alain Juppé.

As mulheres líbias desempenharam um papel importante no levante, mas as marcas do seu status tradicional - elas ficam separadas dos homens nos comícios e marchas - persistem após a revolução.

"Seguir os valores islâmicos é algo positivo. Manter várias mulheres, não", disse Awatif Alhjagi, de 24 anos, estudante de biologia. "Estou preocupada. Agora que ele mencionou essa possibilidade, é provável que os homens decidam seguir tal rumo."

Surpreendeu o fato de Abdul Jalil ter comentado a questão do casamento num discurso relativamente breve. "Teria sido melhor falar em eleições, um assunto mais prioritário", disse Hana el-Galal, ativista de direitos humanos na Líbia. "Não há na lei nada que permita uma união desse tipo. Permitir isso e falar nesse assunto de maneira tão leviana desaponta."

"Todas as moças estão furiosas por tê-lo ouvido dizer tais coisas", disse Bushra ben Omran, de 20 anos, estudante de inglês. "Não quero me casar com alguém que já seja casado. Ele não devia ter dito aquilo no discurso, não dedicou sua atenção a todos aqueles que ficaram feridos na revolução."

Diferentemente dos vizinhos muçulmanos da África Subsaariana, a poligamia nunca foi parte essencial do tecido social líbio. "Com Kadafi, tinha-se a impressão de que os casamentos polígamos eram a exceção", disse Azza Kamel Maghur, advogada. Além do consentimento da primeira mulher - declarado diante de um juiz -, um homem tem de declarar seus motivos para casar-se de novo.

Azza, cujo pai foi brevemente ministro das Relações Exteriores do governo Kadafi, criticou o líder interino por propor tais mudanças num período ainda de transição. "Abdul Jalil ultrapassou os limites do seu mandato", disse. "As mulheres conquistaram direitos nos anos 70. Não queremos perdê-los." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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