Multidão celebra 'posse' na ausência de Chávez e oposição acirra discurso

Crise institucional. Com aval de uma contestada decisão do Judiciário e em meio a uma manifestação gigantesca em Caracas, Venezuela inaugura um novo mandato presidencial sem a presença do líder bolivariano; opositores marcam marcha para dia 23

ROBERTO LAMEIRINHAS , ENVIADO ESPECIAL / CARACAS, O Estado de S.Paulo

11 de janeiro de 2013 | 02h04

Com o aval de uma contestada decisão do Judiciário emitida na véspera e em meio a uma manifestação de pelo menos um milhão de pessoas, a Venezuela inaugurou ontem um novo mandato presidencial na ausência do presidente. Numa cerimônia sem precedentes, Hugo Chávez foi investido em Caracas de seu quarto período consecutivo no poder, apesar de estar em um hospital de Cuba, lutando contra o câncer.

Inconformada com a interpretação feita pelo Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) do Artigo 231 da Constituição, a oposição venezuelana convocou ontem seus partidários para uma "grande marcha" para o dia 23, "em defesa da ordem constitucional". O artigo estabelece que a posse do presidente eleito deve ocorrer ante a Assembleia Nacional, no dia 10 de janeiro. Mas abre uma brecha para que, "por motivo superveniente", o juramento se dê ante o TSJ, sem o estabelecimento de data.

"Somos todos Chávez. Quem está tomando posse hoje aqui é o povo venezuelano", disse ao Estado a estudante Graziela, repetindo o bordão dos líderes do chavista Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), segundo os quais "Chávez é o povo".

"A direita e seu aparelho de mídia tentam confundir a população para distorcer a Constituição e dar um golpe de Estado no presidente Hugo Chávez", dizia, no palanque, Carlos Henrique dirigente do PSUV de Trujillo. "Que não se equivoquem. Estaremos nas ruas, com os joelhos na terra e o fuzil no ombro, para defender nossa revolução e nosso comandante", afirmou, repetindo uma frase usada diariamente pelos chavistas.

O grupo opositor Bloco de Unidade anunciou que lutará "pelo restabelecimento da ordem constitucional até quando for necessário". A porta-voz do Bloco, Miriam Montilla, convocou seus partidários a tomar parte de uma "gigantesca manifestação" no dia 23. A data marca o aniversário da derrubada da ditadura de Marcos Pérez Jiménez, em 1958. "Vamos mostrar que somos um povo digno e pacífico, que não se deixa submeter aos interesses de outros países", afirmou.

"Após vários meses de disputa retórica, o discurso dos dois campos começa agora a se radicalizar e quando alguém convoca multidões às ruas com a retórica de 'nem um passo atrás', 'com joelhos na terra e fuzil no ombro', 'nos veremos nas ruas', etc., sempre corre o risco de perder o controle", declarou o professor de Ciências Sociais da Universidade de Caracas José Díaz Flores. "É difícil garantir que, de ambos os lados, não haja facções interessadas numa estratégia de confronto que, supostamente, as possa beneficiar."

Enquanto os integrantes da oposição se perguntam quem de fato está no governo do país - uma vez que Chávez não envia nenhuma mensagem direta aos venezuelanos desde a cirurgia a que se submeteu há um mês -, no palanque do Palácio de Miraflores o presidente do Uruguai, José Mujica, foi o primeiro convidado internacional do chavismo a ousar mencionar a possibilidade do desaparecimento do líder bolivariano. "Tenho muita idade, já vi muitas manifestações como essa, mas nesses momentos me vêm à memória sempre os que não estão", disse. "Vocês têm um líder que luta pela vida e está no coração de vocês. Mas se amanhã ele não estiver, sigam, com unidade, paz e trabalho."

Além dele, discursaram e saudaram Chávez o presidente boliviano, Evo Morales, o nicaraguense, Daniel Ortega, o deposto presidente paraguaio Fernando Lugo e vários chefes de Estado e de governo de outros países centro-americanos e caribenhos. Nicolás Maduro, vice-presidente nomeado por Chávez como seu "herdeiro político" e, em tese, o responsável pela administração, chorou ao falar do líder. Ao final, fez um "juramento de posse" juntamente com a multidão.

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