Multidão de islamistas reage à pressão por renúncia de presidente egípcio

Resposta. Partidários de Mohamed Morsi - 100 mil, segundo o governo - denunciam no Cairo tentativa de golpe de movimentos seculares; oposição organiza para o dia 30 protestos por novas eleições, após um ano de governo marcado por forte crise econômica

CAIRO, O Estado de S.Paulo

22 Junho 2013 | 02h05

Muçulmanos partidários do presidente egípcio, Mohamed Morsi, reuniram-se ontem no Cairo depois das orações de sexta-feira para responder à pressão de movimentos seculares pela renúncia do líder. Em Alexandria, segunda maior cidade do país, houve confronto entre os dois grupos. A oposição planeja manifestações pela queda do presidente no dia 30, quando o governo completa um ano.

Cerca de 100 mil manifestantes, segundo estimativa do governo, reuniram-se ontem ao redor de uma mesquita no bairro de Nasr. Muitos agitavam a bandeira nacional, outras carregavam fotos do presidente. "Respeitem a vontade do povo!", dizia uma das faixas. "Há gente buscando um golpe contra a ordem legal", disse o manifestante Gaber Nader, de 22 anos, com a cabeça protegida do sol por uma faixa verde da Irmandade Muçulmana, movimento cuja força organizacional rendeu sucessivas vitórias eleitorais a Morsi desde a queda do ditador Hosni Mubarak, em 2011.

"Morsi ganhou em eleições justas e livres como em qualquer Estado no mundo", disse Nader, rejeitando preocupações da oposição de que a Irmandade Muçulmana queira instalar um regime islâmico no país. "Partidos seculares estão consumindo a democracia que Deus lhes deu."

Os oponentes de Morsi dizem ter reunido cerca de 15 milhões de assinaturas - mais do que os 13 milhões de votos que elegeram Morsi há um ano - em uma petição pedindo que ele renuncie. Eles dizem que novas eleições acabariam com a polarização, embora nenhum líder tenha surgido para arquitetar um consenso.

Os opositores atraíram o apoio de egípcios pouco engajados politicamente, mas exasperados com a estagnação econômica sob o governo islâmico.

Simpatizantes da Irmandade Muçulmana sentem que seu sucesso eleitoral está ameaçado por instituições não eleitas e por interesses escusos enraizados na era Mubarak, quando seu partido foi banido.

Refletindo isso, algumas pessoas na multidão de ontem - a maioria homens, com poucas mulheres cobertas com véus - gritavam "limpeza no Judiciário!" e "limpeza na mídia!".

Não houve problemas no Cairo, onde o público lotou as ruas ao redor da mesquita. O comício de ontem foi realizado perto de onde radicais islâmicos mataram a tiros o antecessor de Mubarak, Anuar Sadat, em 1981. Naquela época, a Irmandade Muçulmana, que tinha renunciado à violência, sofreu uma repressão depois do assassinato.

Protestos. Morsi enfrenta descontentamento generalizado de uma parte da sociedade e de movimentos sociais que vêm minando sua capacidade de resolver os problemas do país. "Se eu estivesse no governo, ficaria muito preocupado com isso, porque a rua está fora de controle", disse Emad Shahin, professor de política da Universidade Americana do Cairo.

Morsi herdou um país em frangalhos, desgastado por décadas de regime autoritário. Durante seu primeiro ano de governo, o custo de vida aumentou. Agora, com o verão e a chegada do Ramadã, mês sagrado do Islã, a situação piorou: há cortes de luz, escassez de gás e aumento do preço dos alimentos.

A crise deixou Morsi com poucos aliados, além da Irmandade. Esta semana, um alto clérigo muçulmano rejeitou aqueles que consideram anti-islâmicos os protestos antigoverno e disse que a religião permite protestar pacificamente contra seus líderes. Muitos temem que as manifestações do dia 30 inflamem um Egito já polarizado. / REUTERS e NYT

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