Multidão despede-se de ex-presidente argentino; enterro é previsto para hoje

Como líderes de quase toda a região, Luiz Inácio Lula da Silva chegou ontem à noite em Buenos Aires para o velório de Néstor Kirchner; Cristina deve sofrer pressão para que ocupe espaços políticos deixados pelo marido, segundo analista

Ariel Palacios, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2010 | 00h00

Políticos, celebridades e esportistas argentinos, além de vários líderes internacionais, velaram ontem na ala dos "heróis latino-americanos" da Casa Rosada o corpo do ex-presidente Néstor Kirchner, morto de um ataque cardíaco na quarta-feira. Diferentemente dos rumores que circularam logo após a morte do líder, o enterro de Kirchner ocorrerá hoje, e não amanhã, como chegou a ser anunciado.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarcou na noite de ontem em Buenos Aires e foi ao velório na Casa Rosada.

Os presidentes Sebastián Piñera (Chile), José Mujica (Uruguai), Evo Morales (Bolívia) e Rafael Correa (Equador) acompanharam a presidente Cristina Kirchner no início da tarde no velório. À noite, o presidente venezuelano, Hugo Chávez, afirmou ao chegar em Buenos Aires que sempre levou muito a sério os conselhos dados por Kirchner, que ele qualificou como "um dos mais grandes aliados". Ex-técnico da seleção, Diego Armando Maradona chegou depois dos presidentes. Amigo do casal Kirchner, Maradona deslocou os chefes de Estado sul-americanos e até achar um lugar ao lado de Cristina. Depois, beijou o caixão do ex-presidente.

Kirchner será sepultado num jazigo familiar de Río Gallegos, numa cerimônia íntima. Segundo o jornal Clarín, a família do ex-presidente já vinha negociando uma sepultura no cemitério havia mais de um mês.

Em mais um sinal das tensões que pairam sobre a Casa Rosada, o vice de Cristina, Julio Cobos, disse ontem que não compareceria ao velório a pedido da Casa Rosada. Cobos rompeu com Cristina durante a crise dos locautes, em 2008.

Milhares de pessoas no palácio presidencial prestaram homenagens diante do caixão de Kirchner, isolado por uma grade. Um jovem apoiou-se no obstáculo e gritou "Viva Kirchner! Viva a América Latina!" Cristina, com os olhos cobertos por óculos de sol, virou o rosto na direção do jovem, emocionada, e foi abraçada por sua filha Florencia. Máximo, primogênito do casal, tampouco saiu ao lado da mãe.

Presidente "do povo". Na Praça de Maio, milhares de se pessoas aglomeravam. Um deles era o mestre de obras Alberto Cuevas, de 70 anos. "Kirchner foi o melhor presidente que já vi", disse ao Estado. Após alguns segundos de silêncio, completou: "Depois de Perón, claro!"

Ricardo Braun, estudante secundarista de 17 anos, segurava um cartaz com os dizeres "Aguente firme, Cristina". Ricardo chorava sem parar. "Foi um presidente que cuidou do povo."

Diversos líderes da oposição passaram pela Casa Rosada para despedir-se do ex-presidente. O ex-presidente provisório Eduardo Duhalde (2002-2003), ex-padrinho político de Kirchner - e atual rival do governo - afirmou que não iria ao velório "para evitar provocações".

A morte de Kirchner deixa o partido governista, o Justicialista, dividido, afirmou o analista político Rosendo Fraga ao Estado. "Kirchner deixa um peronismo fraturado. Não há dúvida de que Cristina será candidata em 2011. Mas essa candidatura não unifica sua base política. Ao contrário, ela divide o peronismo."

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