Sean Rayford/Getty Images/AFP
Sean Rayford/Getty Images/AFP

Multidões barulhentas de Trump contrastam com reuniões à distância de Biden

A menos de dois meses da eleição, escolhas mostram país dividido por uma pandemia

Josh Dawsey, Michael Scherer e Annie Linskey, The Washington Post

10 de setembro de 2020 | 07h00

LONDONDERRY, EUA - Quando o locutor de um recente comício do presidente Donald Trump em Londonderry pediu que os apoiadores que lotavam o local pusessem as máscaras, uma rodada cacofônica de vaias eclodiu, seguida por um tom geral de despeito. Pouco importava que as cadeiras dos participantes estivessem a centímetros de distância, que não se tivessem medido suas temperaturas, que as máscaras fossem obrigatórias no Estado.

Enquanto isso, Joe Biden mal sai de casa sem máscara há meses e faz questão de manter os eleitores – quando os encontra – a uma distância segura de si mesmo e uns dos outros. Eventos em cinemas drive-in ficaram abaixo das 50 pessoas – pessoas, não carros – para respeitar as diretrizes estaduais.

Este contraste continuou na última terça-feira, 8, quando Trump voou para a Flórida e a Carolina do Norte, dirigindo-se a multidões em ambos os lugares, enquanto a campanha de Biden anunciou às 9h30 que ele não faria aparições públicas durante todo o dia. É uma boa fotografia das últimas oito semanas da corrida presidencial: uma campanha alimentada por eventos presenciais, reuniões ruidosas e multidões que desrespeitam as regras de saúde pública; outra conduzida por eventos pequenos e silenciosos, com todos os presentes mascarados e distantes.

São mais do que apenas mensagens concorrentes para um país dividido por uma pandemia, a menos de dois meses da eleição. Os dois lados não concordam nem mesmo sobre o que constituiria uma campanha. Tanto republicanos quanto democratas dizem que seus oponentes estão cometendo um erro fatal: a campanha de Trump tentando convencer as pessoas de que a vida está normal, a de Biden instando-as a ficar em casa.

“É uma notícia muito, muito boa para nós”, disse o chefe de gabinete do Comitê Nacional Republicano, Richard Walters, sobre a abordagem dos democratas. “É um ponto de vista elitista, que diz que você tem que ficar trancado por tempo indeterminado, até que Joe Biden diga que você pode sair do seu porão. É uma típica estratégia democrata, em que você retira a escolha do indivíduo”.

Se Trump está exibindo sua marca de individualismo desafiador, Biden está procurando demonstrar sua racionalidade e disposição para ouvir os especialistas. Os democratas dizem que Trump está assustando os eleitores indecisos e alarmados com a pandemia, apelando apenas para uma base central que acha que as medidas de saúde pública são um exagero.

Os esforços da campanha virtual, por telefone e mensagens de texto, dizem eles, têm dado resultados tão bons quanto os comícios ou visitas de porta em porta.

“Trump quer o voto do manifestante anti-máscara, e esse voto não é nosso alvo de persuasão”, disse o presidente do Partido Democrata de Wisconsin, Ben Wikler. “O meio é a mensagem. Na primavera vimos que a organização virtual tem um impacto enorme”.

Se, por um lado, a equipe de Biden não vem realizando nenhuma campanha corpo a corpo e ainda não abriu nenhum escritório autônomo em qualquer um dos Estados em disputa, a operação de Trump, por outro lado, desrespeitou as recomendações de autoridades locais e estaduais para realizar eventos presenciais e abriu mais de 280 escritórios.

Elliott Echols, diretor nacional de operações do Comitê Nacional Republicano, diz que o partido realizou 31 mil eventos de campanha presenciais desde 11 de junho e bateu em mais de 1 milhão de portas no mês de agosto. O comitê dobrou as visitas domiciliares desde 2016, disse ele, que acha que esses encontros pessoais têm mais valor que o contato digital.

De maneira geral, o presidente vem fazendo uma campanha tradicional, minimizando a gravidade do vírus. A estratégia apresenta alguns riscos; conselheiros da campanha observam, em particular, que o modo como ele lida com a pandemia é seu maior estorvo político.

Os assessores de Trump dizem esperar longas viagens – às vezes, várias paradas em um mesmo dia – nas últimas semanas da campanha. Por enquanto, Trump cancelou os comícios em arenas lotadas, mas continua comparecendo a grandes aglomerações em locais como parques e hangares de aviões. Ele chegou a realizar um evento lotado no gramado sul da Casa Branca, onde os participantes não foram testados e a maioria não usou máscara.

Para a semana que vem, a campanha de Trump agendou grandes eventos ao ar livre em Saginaw County, Michigan; Reno, Nevada; e Las Vegas. Entre os eventos, uma arrecadação de fundos de US$ 150 mil por pessoa.

Os eventos presidenciais oficiais de Trump também vêm desrespeitando as regras. Sua visita a Jupiter, Flórida, na terça-feira, atraiu uma audiência de cerca de 200 pessoas, sem distanciamento social e com apenas algumas máscaras. O Departamento de Saúde da Flórida aconselhou o público a “evitar reuniões com mais de dez pessoas”.

Desde que o novo coronavírus chegou aos Estados Unidos, dizem os dirigentes da campanha, Trump promoveu pelo menos dez eventos presenciais de arrecadação de fundos, muitas vezes juntando centenas de pessoas. Alguns participantes usaram máscaras, mas muitos não, de acordo com pessoas que estiveram nos eventos.

Trump passou um bom tempo em alguns dos eventos, tirando fotos de perto com os doadores. Os assessores de campanha dizem que os participantes passam por um teste rápido antes de entrar, mas esses testes nem sempre são precisos.

A porta-voz da campanha de Trump, Samantha Zager, disse que a operação se transferiu para plataformas online quando a pandemia surgiu, mas voltou ao normal em meados de junho, assim que os contágios retrocederam. “Ao longo de toda a pandemia, seguimos as diretrizes estaduais e locais para nos adaptarmos perfeitamente tanto aos eventos virtuais quanto aos presenciais”, disse ela.

Em particular e em público, Trump muitas vezes zombou de Biden por usar máscara, e alguns de seus aliados se valeram do fato de Biden fazer poucas viagens para destacar sua idade e sugerir que ele está evitando uma agenda mais extenuante. Biden tem 77 anos e Trump tem 74.

A recente inauguração do escritório de campanha de Trump em Ohio atraiu mais de 100 apoiadores sem máscara dentro de um espaço fechado, apesar das diretrizes do governador republicano proibirem reuniões de mais de dez pessoas. Questionado sobre como o governador Mike DeWine se sentia sobre isto, o porta-voz Dan Tierney respondeu com uma gentil repreensão por e-mail.

“A Primeira Emenda nos libera das ordens sobre aglomerações, embora aconselhemos os participantes a seguir as orientações relevantes sobre máscaras, distanciamento social e higiene”, escreveu ele.

Biden vem passando uma mensagem oposta à de Trump, mas vai adotar uma agenda mais agressiva esta semana. A programação prevê uma parada em Michigan, onde colaboradores da campanha garantiram que o número total de pessoas no evento ao ar livre, incluindo os agentes do Serviço Secreto e os repórteres, não excederá a orientação do estado de 100 pessoas, com o devido distanciamento social.

“Os eleitores de Donald Trump não conseguem entender as preocupações que os americanos têm hoje em dia”, disse a diretora estadual da campanha de Biden, Jenn Ridder. “Ele está realizando eventos descaradamente. Está batendo às portas descaradamente. E a realidade deste país é que as pessoas estão preocupadas com a economia, estão preocupadas com a perspectiva de mandar seus filhos para a escola, estão preocupadas com a covid”.

Com uma força de trabalho totalmente remota de 2.500 funcionários, a campanha de Biden apostou em um alcance de longa distância, principalmente por telefone ou mensagem de texto, e disse ter registrado mais de 2,6 milhões de conversas individuais com eleitores em agosto. Já os funcionários da campanha de Trump vêm trabalhando em seu escritório em Arlington, Virgínia, e muitos não usam máscaras, dizem assessores.

Para distribuir materiais em Estados indecisos, a campanha tem se movimentado para estabelecer “centros de ativação de eleitores”, onde pessoas de máscara e fazendo fila distantes umas das outras podem obter folhetos e placas de jardim. A operação também está planejando deixar materiais de campanha de porta em porta, disse a gerente de campanha de Biden, Jennifer O'Malley Dillon, na sexta-feira.

Mais operações presenciais podem ter início se a situação de saúde melhorar. “Continuaremos monitorando ao longo do processo”, disse O’Malley Dillon. “Não existe sim ou não definitivos, exceto para a segurança e a garantia de que todos estejam tomando as medidas apropriadas para a própria segurança”.

Mas a estratégia de Biden também traz riscos, pois alguns apoiadores e ativistas em estados-chave sinalizaram que estão decepcionados por não terem visto uma presença pessoal mais direta do candidato e de sua campanha.

Vários dirigentes da campanha de Trump e da Casa Branca dizem que estão animados com os relatos de funcionários nos Estados em disputa, segundo os quais Biden tem pouca presença em campo e está em grande parte na TV e no rádio.

Grupos externos que normalmente lidam com uma parcela significativa do contato pessoal com o eleitor também seguiram caminhos divergentes, ecoando a filosofia dos indicados.

A Coalizão Fé e Liberdade, organizada por Ralph Reed, está fazendo sua campanha porta-a-porta sem grandes alterações, disse ele, conduzindo 1 milhão de visitas às casas de eleitores evangélicos e católicos contrários ao aborto desde o início de agosto, empregando cabos eleitorais que usam máscara e mantêm distanciamento social.

“O que nos impactou é que as igrejas não estão abertas para reuniões físicas”, disse Reed. “Acreditamos que a maior parte das igrejas estará aberta no mês que vem”.

Os grupos liberais estão adotando uma abordagem mais cautelosa. O Pelo Nosso Futuro, grupo apoiado por sindicatos que ajuda comunidades de baixa renda e minorias, adotou um programa totalmente virtual, embora isto tenha reduzido sua capacidade de chegar a algumas populações.

“A pandemia deixou tudo muito mais difícil”, disse a porta-voz do grupo, Liz Cattaneo. “Algumas comunidades têm menos chance de serem alcançadas online”.

Em anos normais, as campanhas democratas e os comitês do partido costumam alugar frotas de vans para trazer os eleitores negros às urnas, mas isto talvez não funcione este ano.

A maior organização sindical do país, a AFL-CIO, também abandonou quase toda a campanha porta a porta, pelo menos por enquanto. O grupo continua entregando panfletos nos locais de trabalho e aumentou a comunicação digital com os membros.

“Sempre que você precisa fazer as coisas de um jeito diferente, acaba se deparando com outras preocupações, claro”, disse o presidente da AFL-CIO, Richard Trumka. “E este é um plano de jogo completamente diferente”.

Alguns grupos alinhados aos democratas estão se afastando da postura do partido. O Unite Here, sindicato de 300 mil membros, entre os quais trabalhadores do setor de hotelaria e serviços, desde julho vem enviando organizadores de porta em porta no Arizona. “Nós realmente queremos que a coisa toda funcione, porque a campanha cara a cara de fato é uma das partes mais importantes de nosso programa de conscientização”, disse Meghan Cohorst, porta-voz do Unite Here.

Durante um evento recente em New Hampshire, os voluntários da campanha de Trump distribuíram máscaras, mas muitas pessoas não quiseram usá-las. O governador republicano do estado, Chris Sununu, disse que grandes multidões em New Hampshire precisam usar máscara, e as autoridades andaram pelo local pedindo às pessoas que o fizessem.

Em vez disso, muitos na multidão de milhares de pessoas agitaram cartazes que zombavam dos manifestantes que protestam contra a má conduta policial, os quais os apoiadores de Trump costumam criticar por se reunirem em grandes grupos durante a pandemia.

“É um protesto pacífico”, diziam os cartazes. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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