Multidões protestam contra Morsi no Cairo e Alexandria

Centenas de milhares de manifestantes se reuniram nesta terça-feira em frente ao palácio presidencial no Cairo, em protesto contra os decretos que deram superpoderes ao presidente Mohammed Morsi. Também ocorreram manifestações contra Morsi em Alexandria, segunda maior cidade do país, com 10 mil pessoas gritando slogans contra o presidente e seu grupo político, a Irmandade Muçulmana. No Cairo, a polícia disparou gás lacrimogêneo contra os manifestantes, que ameaçaram transpor a cerca de arame farpado e invadir o palácio. A multidão recuou, mas continuou a manifestação. Morsi marcou para o dia 15 o referendo sobre a nova Constituição do país, redigida às pressas na sexta-feira passada por uma Assembleia formada apenas por deputados islamitas.

AE, Agência Estado

04 de dezembro de 2012 | 16h12

A cena política do Egito está agora praticamente dividida em dois campos: de um lado Morsi, apoiado pela Irmandade Muçulmana e por grupos ultraconservadores islamitas, como os salafistas e os takfiris, e de outro lado o Egito secular, que pede uma Constituição com o Estado separado da religião: cristãos, mulheres, socialistas, seculares e muçulmanos moderados.

É a pior crise política no Egito desde a queda de Hosni Mubarak, entre dezembro de 2010 e fevereiro de 2011. Centenas de policiais da tropa de choque protegeram nesta terça-feira o palácio de Itihadiya, no bairro cairota de Heliópolis. Além desse protestos, outros milhares de pessoas condenaram os decretos de Morsi na praça Tahrir, no centro do Cairo. "Mohammed Morsi, ilegítimo"; "Irmandade Muçulmana, ilegítima", gritaram manifestantes. "Liberdade ou morte", era outro slogan.

"Este foi o último aviso antes de cercarmos e atacarmos o palácio presidencial", disse Mahmoud Hashim, um estudante de 21 anos da cidade de Suez, no Mar Vermelho. "Queremos que os decretos sejam imediatamente cancelados".

Mais tarde, após o anoitecer, a multidão mudou os gritos, para erhal, erhal (vá embora, em árabe), e "o povo quer derrubar o regime". Esses slogans foram gritados diariamente pelos egípcios durante o fim da era Mubarak. Os manifestantes protestam contra a nova Constituição, a qual eles afirmam não estabelece claramente a igualdade de gêneros, minando direitos das mulheres; introduz elementos da legislação islâmica (a Sharia) no Código Civil; e mantém vários privilégios das Forças Armadas. Tribunais militares poderão continuar a julgar civis. Além disso, a nova Constituição não condena e criminaliza a escravidão, o que dá margem para que islâmicos extremistas, como os salafistas e takfiris, comprem mulheres.

Morsi parece inabalável com os protestos. A assessoria do gabinete informou que nesta terça-feira o presidente teve uma reunião com os ministros sobre a preparação do referendo constitucional.

Imprensa em greve - Vários jornais independentes do Egito suspenderam a publicação da edição desta terça-feira para protestar contra o que muitos jornalistas consideram ser restrições à liberdade de expressão, presentes no projeto constitucional adotado pela Assembleia Constituinte. Envolvendo pelo menos oito jornais, a demonstração dos profissionais de comunicação faz parte de uma campanha de desobediência civil que pode atrair outros setores e resultar em uma greve geral.

Enquanto isso, a oposição a Morsi está planejando realizar outra manifestação nos arredores do palácio presidencial em Cairo contra o projeto constitucional e os decretos, que lhe concedem mais poderes sem supervisão judicial. As redes de televisão privadas também planejam uma manifestação para a quarta-feira, quando interromperão as transmissões durante o dia todo.

As informações são da Associated Press.

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