Bing Guan/REUTERS
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Mundo de olho em quatro Estados americanos

Eleição do presidente passa pela decisão das urnas – e dos tribunais

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2020 | 04h00

Mais de um ano de campanha, 160 milhões de votos em 50 Estados e a disputa pela presidência dos EUA se restringe a alguns lugares. A decisão sobre quem ocupará a Casa Branca pelos próximos quatro anos divide os Estados em duas categorias: os Estados em que Donald Trump lidera a apuração, e quer encerrá-la antes do fim, alegando irregularidades, e os lugares onde o presidente está atrás do democrata Joe Biden, e exige que os votos continuem sendo contados. Em ambos os casos, ele ameaça tomar medidas legais.

O caminho da judicialização é longo e pode se arrastar por semanas – até que eventualmente um caso chegue à Suprema Corte. Se isso ocorrer, os juízes – a maioria indicada por presidentes republicanos (6 dos 9) – terão de deliberar sobre o direito constitucional dos Estados de definirem as próprias regras eleitorais. Juristas republicanos afirmam que um dos argumentos poderia ser o questionamento do processo usado para flexibilizar normas eleitorais em razão da pandemia, que deveriam ser aprovadas pelo Legislativo, e não outorgadas por autoridades locais.

Outra possibilidade seria levar a eleição diretamente para a Suprema Corte, para que ela julgue em caráter de emergência a decisão de permitir que votos cheguem após a eleição na Carolina do Norte e na Pensilvânia. O tribunal negou o primeiro pedido republicano, na semana passada, mas não descarta a possibilidade de analisar de novo o caso.

Disputa no Cinturão do Sol

A Geórgia é tradicionalmente republicana, mas vem mudando lentamente. Nas últimas nove eleições presidenciais, os democratas venceram apenas uma vez, com Bill Clinton, em 1992. No entanto, a imigração e o rápido desenvolvimento vêm aumentando a população urbana, principalmente em razão do crescimento de Atlanta e de seus subúrbios, sede de empresas como Delta Airlines, Coca-Cola e The Home Depot.

Os democratas suspeitavam que a mudança demográfica favorecia candidatos progressistas, mas não imaginavam ter chances de vencer tão cedo em lugar que até bem pouco tempo era considerado reduto republicano. Por isso, é surpreendente ver Joe Biden brigar voto a voto contra Donald Trump nos dias seguintes à eleição.

No entanto, o presidente deve vender caro a derrota. Na quarta-feira, 4, a campanha republicana entrou com uma ação judicial contra o condado de Chatham, onde fica a cidade de Savannah, pedindo a retenção das cédulas que chegaram após 19 horas do dia da eleição. O argumento é que um voluntário republicano testemunhou um mesário sair de uma sala com várias cédulas não apuradas e misturá-las com as que já haviam sido contadas. Os advogados do partido do presidente, de acordo com a imprensa local, pretendem entrar com medidas judiciais semelhantes em outros condados da Geórgia.

O retorno da 'barreira azul'

Quando Donald Trump venceu Hillary Clinton em Michigan, em 2016, por apenas 0,2 ponto porcentual, os democratas sentiram o golpe. Juntamente com o Estado, na mesma noite, caíram na coluna republicana outros redutos democratas do Meio-Oeste, como Wisconsin e Pensilvânia – derrubando o que muitos analistas chamavam de “barreira azul”, em referência à cor que identifica o partido.

Na quarta-feira, impulsionado pelos votos de Detroit, o Estado voltou ao poder dos democratas. No entanto, antes de todas as projeções darem vitória a Joe Biden no Estado, os advogados de Donald Trump entraram com uma ação judicial contra a secretária de Estado de Michigan, Jocelyn Benson, para interromper a apuração.

O argumento é que observadores do partido no pequeno condado de Roscommon, na zona rural, não tiveram permissão para acompanhar a contagem. Logo depois de protocolado o pedido, porém, a apuração terminou, com vitória de Biden. Juristas garantem que nunca houve base para se questionar a validade de cédulas que foram depositadas legalmente. Mesmo assim, outras ações do mesmo tipo estão sendo preparadas pelos advogados do presidente em outras partes do país.

Democratas retomam Wisconsin

Os democratas venceram as sete eleições em Wisconsin de 1988 a 2012, sequência que foi interrompida em 2016, quando Donald Trump venceu a eleição por apenas 0,8 ponto porcentual. A vitória caiu na conta pessoal de Hillary Clinton, que praticamente não fez campanha no Estado, acreditando ser improvável que Trump derrubasse parte de sua “barreira azul” (ao lado de Michigan e Pensilvânia, que também caíram na mesma noite).

A política local é moldada pelas cidades de Milwaukee e Madison, de perfil progressista. Neste ano, o Estado ficou marcado pela onda de protestos na cidade de Kenosha, desencadeada depois que um policial branco atirou e atingiu pelas costas várias vezes um homem negro, Jacob Blake, na frente dos três filhos. Donald Trump tentou culpar Joe Biden pelas manifestações que saíram de controle, mas pesquisas mostraram que os eleitores não compraram a versão. Pelo contrário, culpam o presidente pela maneira como conduziu a crise.

Este ano, Biden reconstruiu parte da “barreira azul”, retomando o Wisconsin de Trump – a vitória foi por pouco mais de 20 mil votos, mesma margem que ele venceu Hillary quatro anos atrás. O presidente, é claro, ficou profundamente irritado com a derrota e na quarta-feira anunciou que sua equipe de advogados vai exigir a recontagem dos votos.

Nas ruas da decisiva Pensilvânia

Nova York é a capital cultural e financeira dos Estados Unidos. Washington é a capital política do país. Filadélfia é a ex-capital (entre 1790 e 1800, enquanto a Casa Branca era construída). Como muitas cidades cujos dias de glória estão no passado – Montreal, Liverpool, Gênova, Luang Prabang –, ela conserva um charme imenso e parece sempre disposta a provar seu valor (e não estou dizendo isso apenas para evitar que furem meus pneus ou que me deem um soco na cara). Na Filadélfia, não há ilusão nem glamour. Mas, nos últimos dias da corrida eleitoral de 2020, ela se tornou a cidade mais importante do mundo.

Pouco mais de 6 milhões de pessoas vivem na cidade e nos arredores, mas nem todos residem na Pensilvânia: a região metropolitana se estende até New Jersey e Delaware. A central da campanha de Biden fica na cidade. A colega de chapa dele, Kamala Harris, comandou ali uma carreata na véspera da eleição, dois dias após um giro de Donald Trump por quatro cidades da Pensilvânia. As campanhas têm objetivos opostos. Os democratas precisam incentivar o comparecimento às urnas na Filadélfia e em Pittsburgh, do outro lado do Estado, para compensar sua provável derrota na zona rural e nas cidades menores da Pensilvânia. Republicanos precisam fazer o contrário.

Segundo previsão da Economist, a Pensilvânia é o mais provável “Estado da virada” – a origem mais provável do 270.º voto no colégio eleitoral que determinará o vencedor da eleição. A Filadélfia é sua cidade mais populosa. Em 2016, Hillary Clinton teve 82,4% dos votos ali, perdendo por pouco o Estado para Trump. Barack Obama teve resultado melhor, tanto no porcentual do eleitorado quanto no número de votos contabilizados, mais importante. Leia mais. 

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