Mundo ignora crimes de guerra na Somália, diz ONG

Humans Right Watch critica descaso com crimes cometidos por tropas etíopes, somalis e rebeldes islâmicos

ANDREW CAWTHORNE, REUTERS

13 de agosto de 2007 | 09h09

Os moradores de Mogadíscio foram vítimas de crimes de guerra cometidos por tropas etíopes, por soldados do governo somali e por rebeldes islâmicos durante um ano, situação "vergonhosamente" ignorada pelo mundo, disse a entidade Human Rights Watch nesta segunda-feira, 13.O grupo disse que o Exército etíope bombardeou indiscriminadamente áreas densamente povoadas, saqueou hospitais e assassinou civis.Já as forças do governo somali, que lutam ao lado dos etíopes, não alertaram os civis nas zonas de combate, saquearam propriedades, impediram o acesso da ajuda e maltrataram dezenas de presos, segundo a ONG.Os militantes islâmicos, por sua vez, colocaram os civis em risco ao se misturar no meio deles, e cometeram crimes como queimar inimigos vivos, de acordo com o relatório da entidade, que tem sede em Nova York."As partes beligerantes demonstraram um desrespeito criminoso pelo bem-estar da população civil de Mogadíscio", disse o diretor-executivo da ONG, Ken Roth. "Os métodos ilegais de guerra usados por todas as partes beligerantes tiveram um saldo catastrófico sobre civis."A capital da Somália registra confrontos desde a invasão etíope, com aval do governo nacional, que expulsou os militantes islâmicos que controlavam Mogadíscio, no final de 2006. O estudo diz que entre 400 e 1.300 civis morreram em duas ondas de violência, e que outros 400 mil fugiram da cidade.Os governos etíope e somali contestam os números e negam que tenha havido abusos."Como de costume, a Human Rights Watch se envolve em sua agora conhecida fabricação (de fatos) e em desinformar o mundo com contos de fada não-substanciados", disse à Reuters Bereket Simon, assessor do governo etíope.Para Abdi Haji Gobdon, porta-voz do governo somali, o relatório se baseia "em impressões erradas da realidade no terreno".A Human Rights Watch reserva termos duros também para a comunidade internacional. "A indiferença do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas a esta crise só agravou a tragédia. É um conflito que foi marcado por numerosas violações da lei humanitária internacional, recebidas com vergonhoso silêncio por parte de importantes governos estrangeiros e instituições internacionais", disse Roth.Atualmente, a única força de paz presente no país é um contingente de 1.600 ugandenses, com mandato da União Africana, que segundo o relatório de pouco serve na proteção dos civis.A entidade estima que haja 30 mil soldados etíopes na Somália, ao lado de cerca de 5.000 soldados do governo local, combatendo de 500 a 700 militantes. ONU no país Os governos africanos estão pressionando o Conselho de Segurança (CS) das Nações Unidas para enviar "capacetes azuis" à Somália, onde substituiriam a fraca missão da União Africana atualmente desdobrada nesse violento país.Foi o que disse nesta segunda o enviado especial do secretário-geral para a Somália, François Fall, ao sair de uma reunião do CS sobre o conflito interno no país.Fall afirmou que o presidente da Comissão da União Africana, Alfa Omar Konari, escreveu recentemente uma carta ao secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, pedindo a substituição da missão de paz do bloco africano no país (AMISOM)."Os países africanos estão pressionando para que tropas da ONU substituam a AMISOM", afirmou Fall.De acordo com o enviado especial, ainda não se sabe se o pedido da União Africana será atendido quando o mandato da força africana acabar, dentro de seis meses. "Se forem obtidos progressos suficientes no terreno político, poderia ser aberta a porta" para uma missão da ONU, afirmou.A missão na Somália conta atualmente com apenas 1.700 dos 8.000 homens que devia ter, e está esperando a chegada de 5.500 soldados prometidos pelo Burundi, afirmou.A Somália vive sem um governo central que tenha conseguido impor sua autoridade desde 1991, quando foi derrubado o ditador Mohammed Siad Barre. As lutas entre os clãs e o surgimento das milícias islâmicas mantêm o país mergulhado na anarquia.

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