AFP Photo/Jewel Samad
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Mundo pede solução para crise americana

Chineses, europeus e japoneses apelaram ontem para que a classe política dos EUA assuma suas responsabilidades diante de um eventual calote

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2011 | 00h00

China, Europa e Japão apelaram ontem para que a classe política americana assuma suas responsabilidades diante de uma eventual suspensão de pagamentos ou rebaixamento da nota de risco dos Estados Unidos, que poderia ter consequências para todas as economias do mundo.

Para os governos, um calote americano seria ainda um "divisor de águas" na história da influência dos EUA na política mundial, com países tendo de buscar um novo relacionamento com Washington e diversificando suas reservas para escapar do dólar. Analistas do Crédit Suisse deram a medida do que poderia significar um default dos EUA: uma queda nos valores das bolsas em todo o mundo em 30%. Nada mais nada menos do que o equivalente à Grande Depressão de 1929.

Não por acaso, no dia seguinte ao fracasso nas negociações no Congresso americano, as maiores economias do mundo se apressaram em alertar que todos estão pendentes da situação nos Estados Unidos. A esperança é de que algum acordo seja fechado antes da segunda-feira, quando os mercados abrirão. Sem um entendimento, a previsão é de mais um dia negro para as bolsas.

O contágio de um default americano seria sentido quase que imediatamente. Os papéis da dívida americana eram considerados por governos como os ativos mais seguros e países como a China e vários europeus os acumularam nos últimos anos.

Só a China teriam mais de US$ 1,1 trilhão em papéis da dívida americana e um rebaixamento da nota dos Estados Unidos significaria problemas para as contas de Pequim. O governo chinês usou seus meios oficiais para dar o recado. Segundo a agência estatal Xinhua, a falta de acordo entre democratas e republicanos nos Estados Unidos é " irresponsável" e ameaça não apenas a "frágil recuperação" da economia americana, "mas as economias de todo o mundo".

"A parte mais feia da saga é que o bem-estar de muitos outros países pode ser afetado", alertou. Segundo Pequim, o governo chinês poderá ter de optar por reduzir a compra da dívida americana, o que promete ter consequências ainda mais nefastas para a sua economia.

Ásia. O Japão, aliado incondicional de Washington, também teme por sua saúde. Um dos cenários que Tóquio quer evitar é que uma eventual redução da nota de risco dos Estados Unidos leve os mercados a também reduzir a classificação do Japão.

Tentando superar os efeitos do tsunami e de uma estagnação de sua economia, o governo japonês precisa de investimentos. Mas com uma dívida que chega a US$ 10 trilhões - 200% do PIB nacional -, Tóquio sabe que pode ser o próximo alvo dos mercados. "Na posição de maior economia do mundo, os Estados Unidos tem um impacto imensurável nos mercados globais, e o Japão não conseguiria escapar de ser atingido", admitiu Hidetoshi Kamezaki, do conselho do Banco Central do Japão.

Na última semana, a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, usou sua turnê pela Ásia para tentar assegurar seus parceiros de que o Congresso Americano chegará a uma solução.

Mas é a Europa que mais treme quando a situação nos Estados Unidos não dá bons sinais. O continente foi o mais atingido pela recessão gerada pela quebra do Lehman Brothers, em 2008, e ainda não conseguiu se recuperar da crise.

Agora, a falta de um acordo nos Estados Unidos significaria um duro golpe contra os bancos europeus. Diante da crise da dívida na Grécia, Espanha, Portugal, Irlanda e das dúvidas em relação ao euro, bancos em todo o continente se voltaram aos Estados Unidos nos últimos meses.

Nos primeiros três meses de 2011, os bancos comerciais europeus aumentaram em 56% a compra de papéis da dívida americana e hoje são os mais expostos à economia dos Estados Unidos. Dados do Banco de Compensações Internacionais apontam que os bancos europeus tem US$ 752 bilhões em papéis da dívida americana.

Em Bruxelas, a falta de um acordo em Washington foi alvo ontem de reuniões. Há apenas poucas semanas, era o presidente Barack Obama quem convocava a chanceler alemã Angela Merkel para pedir que a Europa chegasse a um acordo sobre como salvar a Grécia.

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