Mundo precisa repensar biocombustíveis, diz agência da ONU

O Ocidente precisa repensar a corrida rumo aos biocombustíveis, postura que até agora gerou mais malefícios na forma da alta do preço dos alimentos do que benefícios como a redução da emissão de gases do efeito estufa, afirmou na terça-feira um relatório de uma agência da Organização das Nações Unidas (ONU). A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) disse que as políticas de incentivo à produção e utilização de biocombustíveis nos EUA e na Europa devem manter pressionados os preços dos alimentos, mas teriam pouco impacto quando se trata de afastar da gasolina os usuários de veículos automotores. "O relatório diz que os biocombustíveis, ao mesmo tempo em que substituirão uma fatia somente modesta da energia fóssil na próxima década, terão impactos muito maiores sobre a agricultura e o fornecimento de alimentos", diz a FAO no relatório anual "Situação dos Alimentos e da Agricultura". Uma demanda maior pelos biocombustíveis elevará o preço das commodities agrícolas nos próximos dez anos, disse o documento. Um exemplo: se a demanda por biocombustíveis feitos com produtos alimentícios aumentasse 30 por cento de 2007 a 2010, o preço do açúcar poderia subir até 26 por cento, o do milho até 11 por cento e o dos óleos vegetais, até 6 por cento, afirmou a FAO. Como os estoques mundiais encontram-se esvaziados e as colheitas são altamente dependentes das condições climáticas, o preço dos alimentos continuaria a ser volátil, disse. Os grupos de combate à fome responsabilizaram os biocombustíveis, que transformam produtos agrícolas como o milho, a cana-de-açúcar e os óleos vegetais em combustível para ser utilizado nos carros, pela disparada do preço mundial dos alimentos, o que contribuiu para elevar o custo dos produtos alimentícios nos últimos dois anos. O total gasto pelo mundo com a importação de alimentos deve aumentar em 26 por cento, para um total de 1,035 trilhão de dólares em 2008, disse a FAO. Imaginando o cenário a ser verificado em 2010, a entidade prevê uma ampliação de 7 por cento na safra dos principais produtos agrícolas --trigo, arroz, grãos grosseiros, semente de colza, grão de soja, semente de girassol, azeite de dendê e açúcar-- em comparação aos níveis de 2007. O debate alimentação versus combustíveis viu-se incentivado no ano passado quando o então enviado da ONU para o setor de direitos alimentares, Jean Ziegler, disse que usar terras férteis para fabricar combustíveis equivalia a um "crime contra a humanidade". O relatório da FAO utiliza uma linguagem muito menos dramática e não quantifica a contribuição dos biocombustíveis para o aumento do preço dos alimentos, fenômeno que se deve também a safras ruins e a uma demanda maior da parte de países como a China e a Índia. O documento, no entanto, afirma que a disseminação dos biocombustíveis coloca um número maior de pessoas sob a ameaça da fome, pessoas essas que precisarão de doações de alimentos e outros tipos de auxílio. De outro lado, o relatório coloca em dúvida o pressuposto de que os biocombustíveis provocam uma redução na emissão de gás carbônico.

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