Mundo se cala sobre tumulto no Oriente Médio

Os tanques israelenses investem contra o QGde Yasser Arafat, chefe da Autoridade Palestina. O Tsahal, oexército de Israel, tomado de ódio, marcha em direção aRamallah. O primeiro-ministro israelense, Ariel Sharon, declaraguerra a Yasser Arafat e diz que irá isolá-lo, impedindo-o demanter contato com diplomatas estrangeiros. O mesmo Sharon dissetambém que lamentava ter prometido aos americanos jamais atentarcontra a vida do velho chefe palestino. Hoje, a cada momento, repete-se a mesma história: ora é umcamicase que explode, ora é um israelense que é massacrado, oupalestinos que são mortos, ou uma palestina que é assassinadacom um tiro na testa, etc. Em meio a esse tumulto, "ouve-se" também o silêncio terríveldo mundo. A Europa, suas capitais e a Comissão de Bruxelas, maisparecem uma lebre escondida entre os arbustos enquanto passa ocaçador. Contudo, que mais pode ela fazer a não ser calar-se, ecalar-se profundamente? Já deploramos aqui mesmo, em outrasocasiões, a terrível omissão da velho continente, abalado pelastensões existentes em suas diferentes capitais e sem nenhumacondição de elaborar uma política externa comum. Todavia, em vista da crise que hoje assola Israel, é quaseimpossível não achar excelente a idéia de a Europa omitir-se, jáque no plano delirante em que israelenses e palestinos fazematualmente seus vaticínios, basta uma palavra para que seinflame em ambos o desejo de morte. Até mesmo os Estados Unidos, que dispõem de elementos depressão mais fortes do que os da Europa, não estão aptos paraessa tarefa. Os esforços dos enviados de Washington, como Zinni,ou de planos como os de Tenet e Mithcell, de nada mais adiantam.Tornaram-se obsoletos. Nulos. Quanto aos países árabes, o que se sabe é o que foi divulgadodo plano saudita, aprovado unanimemente por 22 países árabesreunidos em Beirute. Israel rejeitou pura e simplesmente o planotodo. (E, é claro, os extremistas árabes também.) Em Paris, com exceção de alguns grupos mais exaltados, asiniciativas de Sharon são motivo de constrangimento. Há umesforço no sentido de compreender o raciocínio, a tática e aestratégia do terrível premier israelense. Aos olhos de Sharon, parece que as ofensivas maciças lançadaspelos israelenses desde 28 de fevereiro foram muito bemsucedidas: a comunidade internacional nem se abalou. As perdasdos israelenses foram pequenas e os palestinos não parecemcapazes de revidar. Conseqüentemente, de acordo com Sharon, basta continuar com ademonstração de força. A Autoridade Palestina e seu chefe,Yasser Arafat, sumirão do mapa. Nesse momento, Sharon aceitará,enfim, retomar as negociações desde que o inimigo acate asimposições que lhe serão feitas. Vista da França, essa análise pode parecer absurda. Ela sebaseia nos sonhos e nos desejos de Sharon e de seus conselheiros e não na realidade. A vida real é completamente diferente. Em primeiro lugar, éevidente que a determinação, o fervor e o apetite que nutrem ospalestinos pelo martírio, longe de diminuir, é cada vez maior. Prova disso é o estoque gigantesco de voluntários prontos a seauto-imolarem. Em segundo lugar, mente quem diz que as perdas dolado de Israel são insignificantes. O oposto é que é verdade. Durante a primeira intifada, a média era de 15 palestinosmortos para um israelense. Hoje, a proporção mudoudrasticamente: são quatro palestinos mortos para um israelense. Essas estatísticas macabras são relembradas diariamente pelaimprensa de Israel ao lado de fotos de soldados jovens mortosnos conflitos. Talvez a única novidade de fato nessa paisagemdesoladora seja a manifestação da opinião pública israelense,depois de um ano de silêncio. Trata-se, naturalmente, de uma voz modesta, sobretudo porqueAriel Sharon, ao compor seu ministério, conseguiu atrair commuita habilidade os "trabalhistas" Shimon Peres, ministro dasRelações Exteriores, insignificante "pomba da paz", e,principalmente, o ministro da Defesa, Binyamin Ben-Eliezer. Ao pôr para escanteio a oposição organizada (trabalhistas),Sharon fez com que os protestos contra as atrocidades atuaisprocurassem novos canais mais espontâneos e mais desordenados. Na verdade, essa revolta contra o esvaziamento provocado porSharon já estava presente na sociedade civil. E a imprensaisraelense fez eco a ela. Os donos de bares e restaurantes deJerusalém manifestaram publicamente seu descontentamento. Emcartazes afixados à porta desses locais lê-se: "Fechado pormotivo de explosão"; ou: "Servimos cerveja, mas não nosresponsabilizamos por sua segurança." Jerusalém, tão rica em história, tão bela e tão agitada nopassado, hoje é uma cidade-fantasma. Muitos a abandonaram,outros se esconderam. De acordo com um relatório oficial, osprejuízos resultantes da segunda intifada seriam deaproximadamente 8 bilhões de euros. Vale a pena lembrar que essa intifada começou no dia em queSharon decidiu caminhar pelos lugares santos, em uma atitude deprovocação aos árabes. Desde então, ele nada fez para amenizar asituação. Contudo, nem mesmo a liderança trabalhista desfruta hoje daconfiança da população. A oposição está sem líder. Há, porém, umpersonagem que aos poucos sai das sombras, na medida em que odesespero aumenta. Seu nome é Ami Ayalon, ex-dirigente do Shin Bet, o serviçonacional de informações. Esse general pouco conhecido até agoratomou a palavra para exigir o "desmantelamento das colônias" ea abertura de negociações de paz verdadeiras com a AutoridadePalestina. Trata-se de uma voz, por enquanto muito isolada e bem difícilde ser ouvida em meio ao fragor das armas e aos discursos deguerra. No entanto, diante da destruição prestes a desabar sobrea população de Israel, muitos depositam nesse homem o pouco deesperança que ainda lhes resta.

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