Kirsty Wigglesworth/AP
Kirsty Wigglesworth/AP

Murdoch diz no Parlamento britânico que não tem culpa por grampos ilegais

Magnata afirma a deputados estar ''envergonhado'', mas rejeita responsabilidade por escutas ilegais feitas por jornalistas de sua empresa; oposição trabalhista aproveita depoimentos para reforçar a ligação de envolvidos no caso com o premiê David Cameron

, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2011 | 00h00

LONDRES

O magnata Rupert Murdoch, seu filho James, e a jornalista Rebekah Brooks testemunharam ontem no Parlamento britânico sobre o escândalo de violação de sigilo telefônico do jornal News of The World. O empresário negou-se a assumir a responsabilidade pela espionagem a celebridades, políticos e vítimas de crimes e do terrorismo. A oposição concentrou suas perguntas nos pontos da trama que ligam o premiê David Cameron à empresa de Murdoch.

"Fiquei profundamente chocado e envergonhado quando soube do caso Milly Dowler há duas semanas", disse Murdoch sobre a descoberta de que o celular de uma jovem vítima de homicídio fora grampeado por repórteres de seu jornal. "Desculpas não mudam o que aconteceu, ainda assim gostaria que as vítimas soubessem o quanto eu sinto por tudo isso."

No entanto, o magnata, que disse ter se sentido "humilde" na audiência, eximiu-se de culpa. Questionado sobre de quem seria a responsabilidade, ele disse: "As pessoas em quem confiei, e, talvez, as pessoas em quem elas confiaram". Desde 2000, estima-se que 4 mil pessoas foram grampeadas pelo jornal.

O caso levou ao fechamento do News of the World e à demissão de dois colaboradores próximos de Murdoch na News International - subsidária britânica dos jornais da News Corp. Segundo ele, ex-diretora-executiva Rebekah Brooks, e seu antecessor, Les Hinton, não admitiram a ele envolvimento nos grampos ao entregarem os cargos.

Sempre conciso nas respostas - às vezes monossilábico - , o empresário negou que a decisão de fechar o diário tenha sido comercial. Disse também que não há provas de que vítimas dos atentados do 11 de Setembro nos EUA tenham sido grampeadas.

James Murdoch fez coro às respostas do pai e alegou desconhecer os grampos. Rebekah pediu desculpas pelo escândalo, disse que contratar detetives particulares é comum nos tabloides britânicos, mas negou que tenha pago à polícia por informações. Ex-diretores da Scotland Yard envolvidos no escândalo depuseram ontem. O ex-diretor do órgão Paul Stephenson disse que foi o único responsável por sua demissão, anunciada no domingo. Também depuseram o ex-número 2 da polícia metropolitana, John Yates, e o diretor de comunicações, Dick Fedorcio.

A audiência de Murdoch foi marcada por um fato inusitado. Um manifestante tentou atirar uma "torta", feita de espuma, no empresário (mais informações nesta página). O saldo foi apenas um susto e um terno sujo.

Cameron. Durante o dia, a oposição quis saber mais sobre o envolvimento de jornalistas do grupo de Murdoch com o Partido Conservador, do premiê David Cameron. Andy Coulson, ex-secretário de imprensa do primeiro-ministro e ex-editor do News of The World, deixou o cargo em janeiro quando apareceram denúncias atrelando seu nome ao caso. O líder do Partido Trabalhista, Ed Miliband, cobrou explicações pela contratação de Coulson. "O país precisa de liderança para chegar a fundo no que aconteceu", disse.

Cameron, que antecipou o fim de uma viagem à África para participar de uma sessão especial do Parlamento hoje, admitiu a gravidade do caso, mas apostou em sua resolução. "Alguns meios de comunicação cometeram atos ilegais e os atos de corrupção na polícia devem ser investigados", afirmou na Nigéria.

Morte. Peritos que analisaram o corpo do jornalista Sean Hoare, de 47 anos, encontrado morto na segunda-feira em sua casa, disseram ontem que "não houve envolvimento de nenhuma pessoa de fora na morte". Segundo a polícia, não há suspeitas de crime. O ex-repórter do News of the World disse em entrevista ao New York Times no final de 2010 que Coulson sabia dos grampos na redação. / AP, NYT e AFP

Pressão política

RUPERT MURDOCH

MAGNATA DA MÍDIA, DONO DA NEWS CORP.

"Nunca garanti a ninguém o apoio de nossos jornais. Já apoiamos Margaret Thatcher e depois mudamos para os trabalhistas. Fui convidado para Downing Street (residência do primeiro-ministro) tanto pelo sr. Cameron quanto pelo sr. Brown"

IVAN LEWIS

DEPUTADO TRABALHISTA

"Esse caso levanta questões sobre o bom senso de Cameron em contratar Coulson como secretário de imprensa"

PAUL STEPHENSON

EX-DIRETOR DA SCOTLAND YARD

"A decisão de deixar o cargo foi somente minha e era melhor que a tomasse rapidamente"

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