Murdoch nega responsabilidade em escândalo de grampos

Magnata da mídia diz ter sido 'enganado por pessoas em quem confiava'.

BBC Brasil, BBC

19 de julho de 2011 | 14h00

O magnata Rupert Murdoch disse ao parlamento britânico nesta terça-feira que não é o responsável pelo escândalo das escutas telefônicas ilegais feitas por seu jornal News of the World.

Durante o questionamento dos parlamentares, Murdoch disse que foi enganado por "algumas pessoas em quem confiava".

Murdoch e seu filho, James, foram interrogados ao mesmo tempo no parlamento.

Em uma declaração ao final do depoimento, Murdoch afirmou que ele e seu filho "sentiam" pelo que aconteceu e que o comportamento do jornal News of the World "foi contrário a tudo que defendem".

"Deixe-me ser claro. Invadir a privacidade das pessoas para ouvir suas caixas-postais é errado. Pagar policiais por informações é errado", disse.

Os parlamentares queriam saber se Rupert Murdoch tinha conhecimento das práticas ilegais envolvendo o jornal, fato negado pelo empresário.

Pai e filho se recusaram inicialmente a comparecer perante o comitê no parlamento, mas mudaram de ideia após terem sido intimados a responder perguntas sobre o caso.

'Angústia extrema'

Perguntado sobre detalhes específicos de más práticas de funcionários de sua empresa, Rupert Murdoch deu respostas hesitantes e monossilábicas.

Murdoch disse que trabalha entre 10 e 12 horas por dia e que "não conseguiria explicar a quantidade de assuntos com que lida". Ele disse ainda que o News of the World era "pequeno" neste contexto.

Ele afirmou não saber detalhes sobre a quantia paga em acordos extra-judiciais relacionados ao caso das escutas telefônicas, e se disse "chocado", "horrorizado" e "envergonhado" pela revelação de que o News of The World grampeou o celular da garota britânica Milly Dowler, morta em 2002.

"Traímos a confiança de nossos leitores", disse.

As revelações atingiram não apenas o conglomerado, que tem sua sede nos Estados Unidos, mas também a polícia e o governo britânico.

Segundo Murdoch, o News of the World foi fechado após uma discussão com todo o conselho da News Corporation e que a decisão "está longe" de ter sido somente comercial.

No entanto, o empresário negou que o jornal tenha sido fechado para beneficiar Rebekah Brooks, que era a editora do News of the World à época dos grampos.

Brooks deixou o cargo sob pressão por seu suposto envolvimento com o escândalo de grampos telefônicos e compra de informações de policiais.

Murdoch afirmou que sua renúncia só foi aceita por ele da segunda vez, porque ela estava "em um estado de angústia extrema".

Ética

James Murdoch insistiu que todas as transações financeiras da empresa são transparentes e que a empresa "agiu corretamente" ao reabrir as investigações somente quando novas evidências sobre o caso surgiram.

Ele negou que as altas quantias pagas a funcionários da empresa acusados de envolvimento com os grampos e a vítimas tinham o objetivo de comprar o silêncio deles.

Em seu pronunciamento inicial, James disse "sentir muito" pelas vítimas das escutas telefônicas ilegais e afirmou que as ações cometidas pelos jornalistas envolvidos no escândalo não condizem com os padrões da empresa.

"A indústria da imprensa precisa pensar sobre ética", disse.

No entanto, ao ser perguntado sobre se os jornais da empresa modificariam seu modo de trabalhar, seu pai, Rupert Murdoch disse que a Grã-Bretanha se beneficia da "competitividade natural" dos meios de comunicação.

Perguntado sobre os planos da empresa, o filho de Murdoch disse que "não há planos imediatos" para um novo tabloide que circularia aos domingos.

Contratação

Horas antes, o chefe da polícia metropolitana de Londres, Paul Stephenson, negou quaisquer irregularidades na contratação do ex-jornalista do News of the World, Neil Wallis, como consultor de relações públicas da força policial.

Stephenson disse que não tinha motivos para crer que Wallis estava envolvido com as escutas ilegais e que se arrependia da indicação.

Wallis foi preso e liberado após pagar fiança na última quinta-feira. Ele é suspeito de conspiração para interceptar conversas e mensagens telefônicas.

Stephenson, que renunciou ao cargo no último domingo em meio a críticas sobre a atuação da polícia no caso, também negou ter criticado o primeiro ministro David Cameron pela contratação do ex-editor do News of the World Andy Coulson, que teria autorizado os grampos.

O comissário assistente da polícia metropolitana, John Yates, que também renunciou ao cargo, se defendeu das perguntas a respeito da contratação de Wallis, dizendo que acreditava que ele não estava envolvido com o escândalo.

Yates admitiu que ele e Wallis eram amigos, mas disse que não ficavam "o tempo todo na casa um do outro".BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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