Muro de Berlim afunda em Disney da Guerra Fria

Em semana que marca 50º aniversário da construção da barreira que dividiu ao meio a capital alemã, recordações kitsch e sérias com frequência estão lado a lado

Frank Hornig, Der Spiegel, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2011 | 00h00

André Prager já vendeu muitas coisas na vida. Primeiro, ele tentou frutas e legumes, mais tarde passou a oferecer doces como vendedor de uma empresa italiana de chocolate. Depois, descobriu o Muro de Berlim e sua potencialidade comercial. Sentado em seu escritório, Prager, de 39 anos, exibe um sorriso de orelha a orelha, os "Trabi Safaris" de sua empresa fazem um enorme sucesso, com turistas de todo o mundo fazendo o itinerário do famoso Muro de Berlim em Trabants, carros fabricados na Alemanha Oriental.

Com suas mudanças de marcha incômodas e a fumaça fedorenta do escapamento, os 120 Trabants da frota de Prager provocam gargalhadas já no começo do tour. Os participantes do "safári" são submetidos a inspeções de trânsito por homens fardados como os guardas da antiga força policial alemã oriental. E eles são obrigados a trocar seus euros por marcos alemães orientais, que só podem gastar em produtos socialistas.

Negócios não estariam banalizando a história da Alemanha Oriental? Esta semana marca o 50.º aniversário da construção do Muro de Berlim, uma data que a cidade está lembrando em extremos. Empresários criativos e autoridades de alto escalão do governo estão tratando o Muro e suas consequências de maneiras muito distintas - e as recordações kitsch e sérias com frequência estão lado a lado.

Prosperam os negócios de empresários que procuram capitalizar o aniversário. A Alemanha Oriental está renascendo como atração turística. Em alguns locais centrais, sua antiga capital lembra um grande parque de diversões - com o apoio simpático de pessoas que se vestem como Mickey Mouse, chefes indígenas e Darth Vader, da saga Guerra nas Estrelas, e posam rotineiramente para fotos diante do Portão de Brandenburgo.

Os negócios prosperam de tal forma que políticos e conservadores do patrimônio estão discutindo seriamente se Berlim não estará se tornando uma Disneylândia da Guerra Fria.

Durante anos, tudo que a maioria dos berlinenses queria era ver o Muro desaparecer. Eles faziam objeção ao que viam como um símbolo da vergonha, e queriam que a cidade crescesse unida. Estavam mais interessados em começar a reconstrução de um palácio imperial que foi destruído muito tempo atrás do que em preservar mais que alguns pequenos fragmentos de um monumento ainda existente para a história mundial.

Os alemães, fiéis à sua reputação de meticulosidade, removeram 99% das instalações fronteiriças. Com isso, desmantelaram também uma memória concreta dos horrores da divisão alemã.

Assim, o Muro tornou-se, enfim, um muro nas mentes das pessoas, um lugar imaginário que vários atores dos governos estaduais e federal agora tentam ocupar. Alguns preferem enfatizar a vitória da liberdade e da economia de mercado, enquanto outros prefeririam chamar a atenção para a política da détente e o movimento alemão oriental pelos direitos civis. Essas visões divergentes ocasionaram anos de debates intensos sobre as formas adequadas de comemoração. Enquanto isso, empresários e cidadãos privados já cooptaram os locais mais proeminentes da divisão alemã, impondo seus conceitos e ideias comerciais.

Marcos históricos. O Checkpoint Charlie (um importante posto de inspeção dos Aliados) é um caso em questão. Em 1961, tanques soviéticos e americanos ficavam frente a frente no cruzamento da fronteira dos Aliados na Friedrichstrasse. Hoje, artistas fantasiados de soldados aliados sorriem e posam para fotos no local.

O governo da cidade-Estado de Berlim - que é controlado por uma coalizão do Partido Social-Democrata, de centro-esquerda, e o Partido A Esquerda - também quer marcar sua presença no Checkpoint Charlie. Autoridades municipais vislumbram um Centro da Guerra Fria, que reuniria o memorial e os museus em Berlim que se concentram em vários aspectos da divisão alemã e oferecem uma visão abrangente dessa história.

Rainer Klemke, o encarregado de monumentos e memoriais na administração da Secretaria da Cultura de Berlim, faz campanha há anos para o estabelecimento de um Centro da Guerra Fria. "Temos um plano, temos um estudo de viabilidade e temos um investidor que nos está fornecendo espaço em um novo edifício na frente do Checkpoint Charlie."

O político social-democrata Markus Meckel, último ministro das Relações Exteriores da Alemanha Oriental, também apoia um novo museu no Checkpoint Charlie, por sentir que o papel internacional do Muro na história do século 20 em Berlim não está sendo corretamente exposto.

Ronald Reagan, ao gastar mais que o Bloco Oriental na corrida armamentista, teria forçado a quebra dos comunistas, que tentavam se equiparar.

O então presidente americano teria também deixado o líder soviético Mikhail Gorbachev sem outra escolha a não ser obedecer as palavras que proferiu diante do Portão de Brandemburgo: "Sr. Gorbachev, derrube esse muro"? Ou a política de détente do político alemão ocidental Egon Bahr já teria aplainado o caminho para a reunificação? Ou os ativistas pelos direitos civis alemães orientais provocaram o fim? Finalmente, que papel o Muro jogou para outros europeus, e para russos, chineses, americanos e seus filhos que, neste momento, afluem aos montes para passar suas férias em Berlim?

Líderes mundiais - como o ex-presidente checo Vaclav Havel, o ex-secretário de Estado americano James Baker e o ex-chanceler francês Roland Dumas - assinaram um documento pedindo a criação do novo museu. O único problema é que Meckel não está fazendo progressos com o governo alemão. O ministro de Estado da Cultura, Bernd Neumann, ouviu seu pedido, mas não houve reação até agora.

Algumas coisas ficaram claras nos últimos meses: a disputa em curso sobre muitos monumentos de Berlim não provocou exatamente um interesse entusiasmado da principal autoridade cultural da chanceler Angela Merkel.

Há muitas armadilhas a serem evitadas. "Acho extremamente desconcertante ver os planos para o centro sendo promovidos", diz Hubertus Knabe, o polêmico diretor do memorial na antiga prisão de Hohenschönhausen, dirigida pela temida polícia alemã oriental, a Stasi. "Afinal, o Muro não foi construído pela Guerra Fria, mas pelo Partido Comunista da Alemanha Oriental."

Knabe quer que as vítimas da ditadura alemã oriental sejam mais respeitadas, mesmo na rua. "Guardas de fronteiras fardados no centro de Berlim são um tapa na cara das vítimas."

Reconstrução. Provavelmente nunca houve tanto interesse pela história contemporânea em Berlim como parece haver neste momento. Com base no número de pernoites, Berlim superou Roma no ano passado e é hoje o terceiro destino turístico mais popular da Europa.

"Os berlinenses não perceberam muito bem que estão jogando na mesma divisão que Londres e Paris", diz Burkhard Kieker, diretor de turismo da cidade. Os visitantes ficam especialmente interessados na divisão da Alemanha. Muitos prefeririam ver o Muro de Berlim em seu estado original, completo, com todos os detalhes estruturais dos horrores a ele associados. Kieker está ciente de como seria politicamente explosiva uma seção reconstruída do Muro. No entanto, diz ele, "esse tipo de coisa seria uma atração fabulosa".

O diretor da prisão da Stasi, Knabe, acha até que já passou da hora para isso. "As instalações de fronteira, com toda sua monstruosidade, deviam ser reconstruídas ao menos em um local."

Tecnicamente, não seria muito problemático reconstruir o Muro. Alguns de seus velhos elementos ainda estão em uso, como paredes de uma instalação de reciclagem da cidade, enquanto outros podem ser encontrados numa fábrica de cimento de Berlim e em antigas cooperativas agrícolas alemãs orientais. Talvez seja apenas uma questão de tempo para empresários fazerem uma tentativa de reconstrução.

A 2 quilômetros do Portão de Brandemburgo, Axel Klausmeier dirige o Memorial do Muro de Berlim na Bernauer Strasse. É a seção mais bem preservada da antiga instalação de fronteira. O Muro em si, uma cerca de sinalização, um muro secundário e uma torre de vigia continuam preservados em condições relativamente boas.

O programa ali é a antítese da "Disneyficação". Ele mostra o muro com todas as feridas do tempo. "É precisamente nessa condição comprometida que ele se torna um monumento histórico", diz Klausmeier.

Quando jovens trajando uniformes alemães orientais entraram recentemente na antiga "faixa da morte", ele os expulsou. "Este é um memorial para as vítimas."

Klausmeier caminhou muitas vezes pelas antigas fronteiras internas e externas de Berlim Ocidental. No processo, ele catalogou 1.800 relíquias da antiga fronteira, muitas delas hoje quase irreconhecíveis enquanto tais.

Agora, ele quer que os restos do Muro sejam declarados Sítio do Patrimônio Mundial da Unesco. Todas as condições foram preenchidas, segundo confirmou um estudo. Mas os líderes de Berlim relutam em fazer o pedido. "Provavelmente a questão é política demais." / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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