Jabin Botsford/W. Post
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Muro de Trump na fronteira com o México ameaça sítios arqueológicos 

Relatório aponta risco de destruição de até 22 locais ainda inexplorados na fronteira 

Juliet Eilperin e Nick Miroff / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2019 | 07h00

Os tratores e escavadeiras que estão sendo usados em ritmo acelerado para instalar a cerca do presidente Donald Trump na fronteira com o México podem danificar ou destruir até 22 sítios arqueológicos dentro do Monumento Nacional Organ Cactus Pipe do Arizona nos próximos meses, de acordo com um relatório interno do Serviço Nacional de Parques obtido pelo Washington Post.

O relatório de 123 páginas, concluído em julho e obtido por meio da Lei de Liberdade de Informação, indica que o plano do governo de construir uma barreira para veículos de um metro e meio de altura em um edifício de aço de mais de nove metros de altura pode causar danos irreparáveis a seções não escavadas de antigos povos do Deserto de Sonora

Especialistas identificaram tais riscos ao mesmo tempo em que a Alfândega e o serviço de Proteção de Fronteiras dos EUA buscam acelerar o ritmo da construção para cumprir a promessa da campanha de Trump de completar 800 quilômetros de barreira até a eleição do próximo ano. As novas construções começaram no mês passado dentro da reserva de biosfera reconhecida internacionalmente um monumento nacional a sudoeste de Phoenix com quase 330 mil acres de área selvagem selecionada pelo Congresso. O trabalho faz parte de uma extensão de quase 70 quilômetros de cercas que também atravessa o Refúgio Nacional da Vida Selvagem Cabeza Prieta.

Com o presidente cobrando atualizações semanais sobre o progresso da construção e tuitando imagens de novas cercas pelo deserto, autoridades do governo disseram estar sob pressão extraordinária para cumprir as metas de construção de Trump. O Departamento de Segurança Interna aproveitou uma lei de 2005 para renunciar a vários requisitos federais que poderiam ter abrandado e possivelmente interrompido o avanço da barreira no trecho no Arizona, incluindo a Lei de Proteção de Recursos Arqueológicos, a Lei Nacional de Preservação Histórica e a Lei de Espécies Ameaçadas de Extinção.

Algumas características arqueológicas ao longo da fronteira já sofreram danos, pois os agentes da Patrulha de Fronteira cruzam o deserto em busca de migrantes e contrabandistas em veículos especiais para terrenos difíceis (all-terrain), de acordo com autoridades federais e dois especialistas que realizaram pesquisas na região.

Grupos ambientalistas lutaram sem sucesso para suspender a construção nas áreas protegidas, argumentando que barreiras mais imponentes poderiam atrapalhar também os corredores naturais de migração da fauna silvestre e ameaçar a sobrevivência de espécies ameaçadas. Mas, até o momento, houve pouca menção aos potenciais danos a sítios arqueológicos, onde ferramentas de pedra, fragmentos de cerâmica e outros artefatos pré-colombianos são extremamente bem preservados no ambiente árido. 

Os povos que habitam o deserto povoam a área há pelo menos 16 mil anos, particularmente na área ao redor do oásis de Quitobaquito Springs no monumento nacional, um dos poucos lugares onde o filhote de Quitobaquito e a tartaruga Sonoyta, em risco de extinção, ainda vivem em estado selvagem. O oásis fazia parte de uma rota comercial pré-histórica, a Old Salt Trail, onde as mercadorias do norte do México, incluindo sal, obsidiana, um tipo de rocha e conchas do mar eram abundantes, segundo o Serviço de Parques. Os comerciantes foram seguidos por missionários espanhóis, colonos ocidentais e outros viajantes e nômades que vinham à fontes de água.

As nascentes e as áreas úmidas do deserto estão a apenas 60 metros da fronteira, para onde as equipes planejam levar equipamentos pesados de terraplenagem a fim de instalar as gigantescas barreiras de aço. Os cientistas também levantaram preocupações de que as fontes possam secar se as equipes bombearem água subterrânea da área para a base de concreto da barreira.

As autoridades da agência de Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP) disseram que a agência examinou “a maioria” dos sítios arqueológicos identificados no relatório do Serviço de Parques e encontrou apenas cinco que estão dentro da faixa de 18 metros de largura no lado americano da fronteira, onde o governo erguerá a estrutura, uma área de terra federal conhecida como Reserva Roosevelt, que foi reservada ao longo da fronteira na Califórnia, Arizona e Novo México. Desses cinco, disseram as autoridades, um tinha uma restos de ferramentas de pedra e outros artefatos culturalmente relevantes.

As equipes de construção ainda não têm um plano para começar a trabalhar naquele local, disseram funcionários da CBP, observando que a agência teve discussões com o Serviço de Parques sobre a coleta e análise de fragmentos de importância histórica daquele local. “Estamos trabalhando em estreita colaboração com o Serviço de Parques”, disse um funcionário da CBP que falou sob condição de anonimato, para discutir o plano do governo de construir perto de sítios arqueológicos ao longo da fronteira. As autoridades disseram que não atrasaram ou alteraram seus planos de construção para realizar pesquisas ou escavações mais detalhadas na área.

Autoridades disseram que equipes com equipamentos de terraplenagem começaram a instalar barreiras em uma seção de três quilômetros a leste da fronteira em Lukeville, Arizona, um trecho particularmente movimentado para travessias ilegais.

Uma dúzia de tribos nativas americanas reivindicam conexão com terras

Pelo menos uma dúzia de tribos nativas americanas reivindicam uma conexão com as terras dentro do Monumento Nacional Organ Pipe Cactus, especialmente perto de Quitobaquito. O grupo inclui a nação Tohono O’odham, que costumava habitar uma grande faixa do deserto de Sonora e cuja reserva fica ao norte dos limites do parque. Membros da Nação - que reviveram a prática de seguir a Antiga Trilha de Sal - protestaram contra a ideia de qualquer nova construção em uma área habitada por seus ancestrais, os Hohokam, que moravam na área entre 200 e 1.400 d.C.

O chefe da nação de Tohono O’odham Ned Norris Jr. disse que sua tribo continua sendo contrária a qualquer construção de uma nova cerca na fronteira. “Vivemos historicamente nesta área desde tempos imemoriais”, disse ele. “Sentimos com muita veemência que esse muro em particular profanará essa área para sempre. Eu compararia isso com a construção de um muro sobre os cemitérios de seus pais. Teria o mesmo efeito."

Rick Martynec, um arqueólogo que realiza pesquisas voluntárias em locais dentro do Refúgio Nacional da Vida Selvagem de Cabeza Prieta, juntamente com sua mulher, Sandy, disse que os pesquisadores não tiveram tempo de avaliar adequadamente a área agora destinada à construção. “Quitobaquito, como a conhecemos, pode ser destruída antes que alguém tenha a chance de avaliar as consequências das ações atuais”, disse Martynec. “Qual é a pressa?”.

O porta-voz do Serviço Nacional de Parques, Jeremy Barnum, disse que a missão da agência “é preservar os recursos e valores naturais e culturais do Sistema Nacional de Parques para o desfrute, a educação e a inspiração desta e das futuras gerações”. Mas ele observou que alguns dos parques ao longo da fronteira EUA-México foram submetidos a “atividades ilegais transfronteiriças” e a agência tem um trabalho coordenado com a Segurança Interna para resolver a questão. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

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