Lourival Sant'Anna /ESTADAO
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Muro em Gaza separa seleção de 'Cristiano Ronaldo palestino'

Atletas palestinos são confinados no território por um bloqueio imposto por Egito e Israel

Lourival Sant'Anna, ENVIADO ESPECIAL / GAZA, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2017 | 17h26

GAZA - Quando o Al-Sadaqah entra em campo, a torcida grita muitos nomes: Ronaldo, Al-Manara (A Torre), Al-Mudamer (Destruidor), Al-Sahab (Nuvens). Mas todos se referem ao mesmo homem: Mohamed Balah, o artilheiro do time. Foi um fã espanhol quem pela primeira vez o chamou de Ronaldo (o Cristiano), pelo Facebook. Com 300 mil seguidores no Instagram, a fama de Balah cruzou as fronteiras e se espalhou não só pelo mundo árabe, mas também pela Europa. Mas ele próprio está confinado na Faixa de Gaza.

A seleção palestina já convocou Balah quatro vezes. Em nenhuma delas, o Shin Bet, o serviço de inteligência israelense, permitiu sua saída para a Cisjordânia, o outro território palestino, separado da Faixa de Gaza por 80 quilômetros que correspondem à largura de Israel nesse trecho. Normalmente, um agente do Shin Bet liga para a Federação Árabe Palestina de Esportes e comunica se a permissão foi concedida ou negada. Há um ano, depois de sua quarta tentativa, Balah recebeu uma ligação: “Nunca vamos lhe dar permissão”, disse o agente, em árabe. “É por prevenção ao terrorismo.”

Mustafa Nejel, técnico do time egípcio Zamalek, treinou o Sadaqah na temporada 2015-2016 e disse ao diretor do clube, Said Ghora, que Balah é o melhor jogador palestino, que se pudesse sair de Gaza se tornaria um atleta de nível mundial. Nejel também o comparou a Cristiano Ronaldo, por sua força física e pela capacidade de chutar com os dois pés. 

Sempre que tinha o pedido negado, o jogador, hoje com 23 anos, subia num ponto alto da praia de Gaza, mirava na última linha do Mar Mediterrâneo e se perguntava: “Por que não posso sair de Gaza? Meu sonho não será realizado. Estou ficando velho.” Desta última vez, simplesmente foi para seu quarto e chorou sozinho. Balah não entende por que Israel não o deixa sair: “Sou só um jogador. Nunca me envolvi em militância política, nem eu nem meus parentes”.

No entanto, seu caso não é único. Khalil Helo, também de 23 anos, é atacante do time de vôlei Jabalia Shabab. Ele foi convocado pela seleção palestina para disputar os Jogos da Solidariedade Islâmica, no Azerbaijão, em maio. Para sair de Gaza, primeiro os palestinos fazem o pedido no Comitê Palestino de Assuntos Civis (CPAC), do Ministério do Interior da Autoridade Palestina, que o encaminha para o Shin Bet. Se tiverem a permissão, eles prosseguem então para a entrevista no posto de fronteira de Erez. 

O posto de fronteira de Erez tem controle minucioso das bagagens na entrada a Israel. Segundo o CPAC, passaram por Erez em abril 1.975 pacientes e acompanhantes, 1.273 comerciantes e 1.429 “outros”. Os números vêm caindo desde agosto, quando foram 2.689, 7.786 e 2.972, respectivamente. 

Veto interno. Depois de ter seu pedido recusado três vezes, Helo conseguiu passar de fase. Entretanto, no dia 30 de março, data da entrevista, foi o Hamas que não permitiu sua ida. Seis dias antes, Mazen Fugaha, um dos líderes das Brigadas Izzedin Qassam, braço armado do movimento, havia sido assassinado. O Hamas bloqueou por vários dias a saída de Gaza, enquanto investigava a autoria do assassinato.

Antes disso, em 2015, todo o time do Sadaqah (Amizade, em árabe), no qual Helo jogava, foi impedido por Israel de participar de uma partida em Túnis. No ano seguinte, ele foi incluído em um grupo de oito atletas para jogar na Cisjordânia e na Jordânia. O Shin Bet só aprovou a saída de um deles, que se negou a ir sozinho. 

No mesmo ano, o time todo ia disputar o campeonato árabe de vôlei, no Egito. Para aumentar as chances de ser aprovada, a equipe foi dividida em duas: 7 pediram para entrar por Erez e os outros 7 por Rafah, fronteira controlada pelo Egito. Tanto o Shin Bet quanto a Mukhabarat (polícia secreta) egípcia negaram os pedidos. Depois da derrubada do governo da Irmandade Muçulmana, aliada do Hamas, e da ascensão do general Abdel Fattah al-Sissi, em 2013, o Egito também impôs um bloqueio à Faixa de Gaza.

“Sinto que meus sonhos estão tolhidos”, diz Helo, que traz em seu celular muitos vídeos de partidas da seleção brasileira de vôlei e é fã de Wallace, do vôlei, e de David Luiz, do futebol. “É impossível para mim desenvolver minhas habilidades.” 

Para se profissionalizar, ele precisaria jogar na seleção palestina, mas ela treina na Cisjordânia. “Só quero uma chance para sair de Gaza e realizar meus sonhos”, diz o jogador. Helo nasceu no Catar, mas quando ele tinha 3 anos seu pai quis ficar próximo da família. Três anos depois, em 2000, eclodiu a Segunda Intifada, levante palestino nos territórios ocupados. Israel enrijeceu o controle para evitar ataques contra sua população. A família, com exceção da mãe, que tem passaporte jordaniano, ficou confinada em Gaza. Sua história mostra o bloqueio a que a Faixa de Gaza está submetida: de Israel, do Egito e, às vezes, do próprio Hamas.

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