Muro estimula migração palestina

Moradores de bairros árabes de Jerusalém Oriental mudam-se para zonas mistas para não perder benefícios

Linda Gradstein, O Estadao de S.Paulo

13 de dezembro de 2008 | 00h00

Samih Bashir, advogado palestino, pretende mudar no início do próximo ano para uma ampla casa com duas salas, três banheiros e um grande quintal onde seus quatro filhos poderão brincar. Ela fica num bairro de Jerusalém chamado French Hill - uma área nobre da cidade que, segundo Israel, jamais fará parte de um Estado palestino.Bashir está preocupado que o atual bairro onde mora, Beit Hanina, passe para o controle palestino se as duas partes um dia chegarem a um acordo de paz.Sob alguns aspectos, essa mudança é psicológica. Não existe nenhuma diferença jurídica entre Beit Hanina e French Hill. Os dois bairros fazem parte de Jerusalém Oriental, que Israel ocupou durante a Guerra dos Seis Dias, em 1967, e logo depois anexou unilateralmente, uma situação não reconhecida pela comunidade internacional. Mas French Hill é um bairro predominantemente de judeus e Beit Hanin é de maioria árabe."Eles falam em devolver esta área para os palestinos e então ficaremos presos aqui", disse Bashir, que possui cidadania israelense, a respeito de Beit Hanina. "Minha mulher trabalha na municipalidade de Jerusalém como assistente social. Como vai conseguir manter o emprego se este bairro se tornar palestino?"Muitos dos 2.500 palestinos que moram em Jerusalém Oriental e não são cidadãos israelenses também estão preocupados com a perda de acesso a serviços oferecidos pelos israelenses, como assistência médica e ajuda social, se as comunidades onde vivem passarem a ser parte de um Estado palestino. Um número cada vez maior deles vem se transferindo para bairros predominantemente de judeus como French Hill e Pisgat Zeev - que, para as autoridades palestinas, são assentamentos israelenses ilegais.De acordo com o agente imobiliário palestino Jamal Natshe, milhares de famílias de Jerusalém Oriental, Cisjordânia e até Jordânia mudaram-se para bairros judaicos nos últimos dois anos. A principal preocupação dessas pessoas é o muro de concreto de mais de sete metros de altura que Israel construiu para separar as áreas da cidade sob seu controle das palestinas. Fora das áreas urbanas, no geral, as barreiras erguidas são cercas, algumas de arame farpado, e as estradas, usadas pelas forças de segurança. Israel diz que a barreira é uma medida de segurança para impedir ataques; os palestinos dizem que ela equivale a um confisco unilateral de aproximadamente 8% da Cisjordânia.Os postos de controle foram instalados para facilitar o acesso dos palestinos com permissão para entrar em Israel, incluindo os 250 mil que possuem carteira de identidade israelense, que indica quem tem direito de residir em Jerusalém.Segundo Jamal Natshe, alguns palestinos estão mudando porque não querem perder os benefícios israelenses. "Se Israel comprovar que alguém está vivendo fora de Jerusalém, essa pessoa perde o cartão de identidade", disse ele. "Esta é uma ameaça para muitas famílias por causa da situação econômica. Elas dependem do sistema israelense."As autoridades palestinas querem que os palestinos se mudem para bairros de maioria judaica. "Encorajamos as pessoas a comprar um imóvel nos assentamentos, pois entendemos que tudo é Palestina", disse Hatem Abdul Qader, membro do Parlamento palestino. "As pessoas estão em pânico, com medo de perder suas carteiras de identidade. Temem ficar isoladas por causa do muro. Se as pessoas puderem manter sua existência em Jerusalém e na Palestina vivendo nos assentamentos, espero que façam isso."Para Jamal Natshe, muitas dessas famílias gostariam de morar em bairros essencialmente árabes como Beit Hanina, que possui 26 mil moradores, ou então Shuafat, com 36 mil, ambos do lado israelense do muro, exceto um pedaço de Shuafat. Mas não há moradias disponíveis nessas áreas. Os preços das casas estão tão altos que é mais barato alugar ou comprar um imóvel em Pisgat Zeev, onde um apartamento de três quartos pode ser alugado por cerca de US$ 1 mil por mês. Um apartamento similar em Beit Hanina custa no mínimo US$ 1,4 mil.Yusuf Majlatun, um empreiteiro palestino, mudou-se para lá sete anos atrás com a mulher e três filhos. Ele diz que tem um relacionamento correto, mas não muito amistoso, com seus vizinhos. Logo depois de se mudar, ele convidou vários vizinhos para visitá-lo e tomar arak, um licor árabe. Eles beberam e conversaram até as 2 horas da madrugada, mas nunca retribuíram o convite, disse Majlatun. A tensão vem crescendo em Pisgat Zeev. No começo do ano, dezenas de jovens judeus atacaram dois jovens palestinos num centro comercial próximo, ferindo um deles seriamente. E há pouco tempo, num centro comercial de três andares, grande parte dos clientes era árabe e algumas pessoas mostraram seu descontentamento com as mudanças demográficas que vêm ocorrendo."Todo o centro comercial está repleto de árabes e acho isso asqueroso", disse uma mulher que circulava por uma livraria e não quis se identificar. "Vivemos em Israel, um Estado judaico, e não quero ver essa gente aqui. São nossos inimigos. Eles nos odeiam, e sempre odiarão."Alguns moradores dizem que não querem os palestinos no bairro e não venderiam suas casas para eles.Israelenses que apóiam a criação de um Estado palestino dizem não acreditar que os próprios palestinos ajudem nessa causa.Segundo Daniel Seidemann, advogado que se opõe abertamente ao muro, desde o fim das Cruzadas judeus e árabes têm preferido viver em áreas separadas. As tensões na cidade aumentaram depois que, em três incidentes separados, palestinos de Jerusalém Oriental atacaram grupos de israelenses com tratores de terraplenagem. Em um dos ataques, três israelenses foram mortos."Nunca, desde 1967, essa distinção entre bairros judaicos e árabes esteve tão pouco nítida como agora", disse Seidemann. "Os palestinos não podem aceitar ficar presos do lado palestino do muro para mergulhar na pobreza. Eles estão cultural, política e religiosamente ligados à Cisjordânia, mas economicamente conectados a Israel."

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