Muro israelense motivou primeiras reações não violentas

Vila de Budrus conseguiu mudar traçado da barreira israelense que passava sobre escola e cemitério palestinos

Gustavo Chacra, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2010 | 00h00

O movimento de resistência civil palestina conquistou sua primeira vitória em Budrus. Os pouco mais de mil palestinos dessa vila, na fronteira da Cisjordânia com Israel, aliados a ativistas de 35 países e dezenas de israelenses, conseguiram forçar a alteração do traçado do muro que separa os dois territórios em uma série de manifestações e atos iniciados em 2003.

Da forma como estava, a barreira, erguida pelos israelenses por questões de segurança, deixaria Budrus e outras cinco vilas em uma espécie de ilha. Seus habitantes também ficariam separados de suas oliveiras, que é a base da economia da vila há séculos. Em um trecho, o muro passaria diante da escola da cidade e, em outro, atravessaria um cemitério.

O responsável direto pela vitória é o líder do movimento de resistência civil palestino Ayed Morrar, que se tornou um mito na Cisjordânia. O muro na área de Budrus está hoje praticamente sobre a linha verde, reconhecida internacionalmente como a divisa de Israel com o território palestino.

Em Nova York para a exibição do documentário Budrus, sobre sua luta, Morrar criticou em conversa com o Estado as ações armadas dos palestinos. "Temos de seguir lutando, mas de uma forma pacífica, com nossas mentes abertas. Não podemos continuar apenas reclamando que os EUA apoiam Israel. Precisamos persuadir a comunidade internacional a estar ao nosso lado. Não contra a gente. Também temos de convencer os israelenses de que somos apenas contra a ocupação, não contra eles."

Com cinco passagens por prisões em Israel, Morrar foi um dos líderes da Primeira Intifada. "Era uma liderança local", afirma a brasileira Julia Bacha, que dirigiu o documentário sobre Budrus . Nesse primeiro levante, no fim dos anos 80, a tática era atirar pedras contra os israelenses. Na época, não havia ocorrido nenhum atentado suicida cometido por um palestino em toda a história.

Morrar, idealizador do movimento, explica que hoje os palestinos possuem duas vias - uma ligada ao Hamas e outra, ao Fatah. Ambas têm fracassado, de acordo com ele. "O Hamas conseguiu construir um cemitério, em vez de um Estado independente", afirma o palestino. "O Fatah e a Autoridade Palestina não atingiram nada e estão construindo uma ditadura."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.