Museu no Cairo celebra 'vitória' do Egito sobre Israel

Erguido por Mubarak, memorial à guerra de 1973 apresenta visão alternativa da história recente do Oriente Médio

ROBERTO SIMON, ENVIADO ESPECIAL / CAIRO, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2012 | 03h07

Um museu cor de areia de Heliópolis, bairro residencial do Cairo, preserva duas raridades em seu acervo. A primeira é a imagem do ex-ditador Hosni Mubarak no hall de entrada - talvez a única livre de pichações que restou no Egito. A segunda é uma interpretação, digamos, incomum da história do Oriente Médio: o museu é sobre a "gloriosa vitória" do Egito na Guerra de Outubro de 1973, que em Israel leva o nome de Guerra do Yom Kippur.

Em tempos de revolução e de eleições, um dos poucos pontos de consenso que sobraram na política do Cairo é a oposição a Israel. A hostilidade estende-se aos livros de história e, no Egito, ao contrário da versão no Ocidente, os israelenses é que foram derrotados em 1973 na luta contra forças de Anwar Sadat, o antecessor de Mubarak, e da Síria.

Questionado sobre a diferença entre as duas narrativas, Sayed Salah, funcionário do museu que orienta os visitantes, retruca com outra pergunta: "E a Península do Sinai hoje está nas mãos de quem?"

Yom Kippur. Forças árabes avançaram sobre território controlado por Israel em um ataque-surpresa no dia 6 de outubro de 1974, quando judeus celebravam seu mais importante feriado, o Yom Kippur (Dia do Perdão). Após dias de combates, porém, egípcios e sírios foram repelidos. Os lados em conflito finalmente aceitaram uma proposta de paz da ONU que restabelecia o desenho das fronteiras de antes do dia 6.

Ocupado desde 1967, a Península do Sinai - a que se refere Salah - foi devolvido por Israel em 1979 ao governo Sadat. Em contrapartida, o Egito tornou-se o primeiro país árabe a reconhecer o Estado judeu.

Na parte externa do museu estão armas soviéticas que foram usadas pelas forças egípcias em 1973. Quando o Estado visitou o local, crianças de um orfanato do Cairo penduravam-se em canhões de tanques, escalavam peças de artilharia antiaérea e posavam para fotos diante de jatos MiGs-19 enferrujados.

"Israel quer capturar toda nossa terra e precisamos unir o Egito para impedir isso", afirmou o diretor do orfanato, Mohsen Ali. "Devemos nos lembrar das lições de Sadat, de nunca desistir diante do inimigo."

Traços norte-coreanos. O museu foi construído em 1989, durante o governo de Mubarak. Um mural de ladrilhos na entrada mostra o ex-ditador aconselhando Sadat, ambos debruçados sobre um mapa. Em 1973, Mubarak era o chefe da aviação egípcia.

A principal atração do memorial, porém, é o enorme painel, pintado a mão, que conta a história do ataque egípcio à Linha Bar-Lev, a trincheira fortificada que Israel construíra em 1967. Os desenhos, detalhados quase à perfeição, foram feitos por artistas norte-coreanos e a influência da estética realista de Pyongyang é evidente.

Ataque. Os painéis ficam em uma ampla sala escura e circular. Visitantes sentam-se em cadeiras sobre uma plataforma que gira lentamente, passando pelo painel de 360.º, enquanto um narrador explica como foi o início do ataque-surpresa desferido por Mubarak no Sinai.

Uma das imagens mais marcantes mostra um soldado israelense de joelhos, clamando por piedade a um oficial egípcio de farda bem alinhada. Em outra, tropas do Egito avançam entre chamas sobre uma colina dominada pelo inimigo. Ao fundo, a bandeira vermelha, branca e preta do Cairo é erguida ao melhor estilo Iwo Jima.

"Ninguém quer mais uma guerra contra Israel", afirma Salah. O diretor do orfanato, que escutava a conversa, concorda, balançando a cabeça. "No entanto, o museu serve para nos lembrar de quem está do outro lado da fronteira."

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