Musharraf anuncia retorno e novo partido

Ex-presidente do Paquistão, que renunciou em 2008, promete voltar ao país antes das eleições nacionais de 2013

JOHN F. BURNS, O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2010 | 00h00

O ex-governante militar do Paquistão, Pervez Musharraf, usou uma reunião em um dos clubes mais tradicionais de Londres para anunciar a criação de um novo partido político, a Liga Muçulmana Paquistanesa, e renovar sua promessa de voltar ao Paquistão antes das eleições nacionais de 2013 - hoje, ele vive no exílio na Grã-Bretanha.

Musharraf, general reformado, de 67 anos, que chegou ao poder por meio de um golpe militar, em 1999, optou por fazer seu anúncio no Clube Liberal Nacional, uma instituição às margens do Tâmisa que foi fundada na época áurea de William Gladstone e outros pioneiros da tradição parlamentar britânica do século 19.

A ocasião foi uma rara aparição pública de Musharraf, que disse ter sido alertado pelas agências britânicas de espionagem que havia o risco de ele ser assassinado por terroristas islâmicos. Apesar da embalagem parlamentar, os comentários feitos por ele indicaram pouca mudança na sua mentalidade desde que ele renunciou, em 2008.

Numa extensa entrevista à rádio BBC, seu principal argumento é o de que o Exército seria a única instituição capaz de salvar o país da corrupção generalizada do governo atual e da violência do Taleban. Seu raciocínio pareceu sustentar a ideia de outro golpe militar, ou ao menos o retorno de alguma forma de "democracia tutelada" na qual o Exército teria o poder final de decisão.

"Há muito desalento entre os paquistaneses e o povo só pode recorrer ao Exército", disse Musharraf. "Não há mais ninguém que possa ajudá-los com seus problemas. No Paquistão, o povo procura o quartel-general do Exército, o líder do Exército, eles vão atrás dessa autoridade e pedem que ela aja. As pessoas não confiam nos políticos."

Musharraf falou ainda sobre a importância do Paquistão. "Não podemos permitir que o país se desintegre. Isto não pode ocorrer e nenhum paquistanês vai permitir. Quem pode salvar esse povo? O Exército. Há mais alguém capacitado para fazê-lo? Não." Ao escolher o nome de seu partido político, Musharraf seguiu a antiga tradição dos aspirantes a políticos paquistaneses e buscou uma forma de associação com o homem que é considerado o fundador do país, Mohamed Ali Jinnah, cuja Liga Muçulmana liderou o movimento que culminou na independência do Paquistão.

Antes da ascensão de Musharraf, o último líder militar paquistanês havia sido o general Mohamad Zia ul-Haq, que fundou sua própria facção dentro da Liga Muçulmana. Outros tentaram algo parecido. Para provar que conta com apoio político no Paquistão, contrariando comentaristas políticos que afirmam que seus partidários são pouquíssimos e se concentram na elite urbana e economicamente privilegiada, Musharraf disse que tem 300 mil seguidores em sua página do Facebook, cuja maioria seria composta por jovens.

Erros. No entanto, ele reconheceu também que alienou muitos paquistaneses com as decisões que tomou ao longo de seus nove anos à frente do governo, entre elas as que envolveram brigas com o Judiciário paquistanês.

No Clube Liberal, ele fez um pedido de desculpas. "Peço sinceramente o perdão de todo o país", disse Musharraf, referindo-se ao que chamou de "repercussões negativas" das decisões já mencionadas. Ele prometeu mobilizar a população assim que chegar ao Paquistão e travar "uma jihad contra a pobreza, a fome, o analfabetismo e o atraso". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É GANHADOR DE DOIS PRÊMIOS PULITZER

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