Musharraf deve renunciar ou enfrentar impeachment em 2 dias

Presidente paquistanês tenta evitar destituição do cargo por violações constitucionais e má conduta

Agência Estado e Associated Press,

16 de agosto de 2008 | 16h13

O presidente do Paquistão, Pervez Musharraf, deve renunciar em dois dias ou se preparar para enfrentar um processo de impeachment, de acordo com informações de um membro do alto escalão do partido governista neste sábado, 16. As declarações foram feitas enquanto autoridades discutem a elaboração de um esboço de acusações contra o combatido líder paquistanês.   Comentários feitos pelo ministro de Relações Exteriores, Shah Mahmood Qureshi, se somaram às crescentes pressões que pairam sobre o ex-chefe do Exército, mas aliados de Musharraf insistiam que o presidente não pretendia renunciar e que estava se preparando para combater as acusações que podem levá-lo ao impeachment, que, segundo ele, são absurdas. As idas e voltas ampliaram as incertezas em relação à situação já instável do Paquistão, um país que os EUA consideram vital para garantir o sucesso de sua guerra contra o terrorismo.   Aliados e opositores do presidente afirmaram que conversas de bastidores estavam em andamento para evitar o processo de impeachment que poderia abalar ainda mais a moral pública. A coalizão governista está pressionando Musharraf para que renuncie. Mas seus defensores querem que seja dada proteção a ele no caso de uma renúncia, enquanto sugerem que poderão usar o caminho da Justiça para contestar o impeachment.   Segundo informações transmitidas pela imprensa local, representantes da Arábia Saudita estão tentando mediar o impasse, mas essa interferência não foi confirmada. No entanto, autoridades afirmaram que diplomatas de países ocidentais e muçulmanos estão se encontrando nos últimos dias para discutir o assunto.   O processo de impeachment contra Musharraf deve incluir acusações de violações constitucionais e má conduta. Integrantes da coalizão não revelavam as especificidades do processo, embora tenham afirmado que a sua decisão de destituir juízes e impor uma lei de emergência no ano passado poderia ser as bases dessas acusações.   Eles afirmaram que o esboço do documento de acusações ainda dependia de uma aprovação final, mas que o texto poderia chegar ao Parlamento no início da próxima semana. "Musharraf está correndo contra o relógio", disse Qureshi, membro do Partido do Povo do Paquistão, um dos grupos da coalizão. "Se ele não se decidir pela renúncia nos próximos dois dias, o processo de impeachment deve seguir seu curso."   Tariq Azim, um membro sênior do principal partido de apoio de Musharraf, disse que o presidente não deveria renunciar. "O presidente Musharraf está confiante quanto à possibilidade de se defender no Parlamento e derrotar as acusações facilmente porque o que quer ele tenha feito, ele o fez atendendo aos interesses do país e pela nação", declarou Azim, neste sábado. Na sexta-feira, Mushahid Hussain, outro aliado de Musharraf, declarou que o presidente deve se apoiar na Justiça para evitar o impeachment. Mas Raza Rabbani, membro do Partido do Povo, alertou Musharraf sobre a possibilidade de ele estar iludido em relação às suas chances na Justiça.   "Essa questão não pode ser mudada", declarou Rabbani. "Deve ficar claro para todo mundo que o impeachment é um assunto constitucional e deve ser resolvido por intermédio do Parlamento."   A decisão de saída de Musharraf depende do que os seus oponentes se mostrarem dispostos a lhe oferecer em troca - particularmente, se lhe darão imunidade legal contra processos futuros e se vão deixá-lo permanecer no país. Há divergências na coalizão governista sobre esses pontos.   Sadiqul Farooq, porta-voz do partido do ex-premiê na Nawaz Sharif - deposto em um golpe liderado por Musharraf em 1999 - reiterou que está fora de questão a idéia de dar garantias legais. O partido de Sharif é o segundo maior da coalizão e disse que Musharraf poderia ser acusado de traição, o que pode levá-lo a ser punido com a pena de morte. "Será do interesse do país e da nação torná-lo um exemplo de conformidade com a Constituição e a lei", declarou Farooq.   O Partido do Povo adotou um discurso mais ameno. O ministro das Informações, Sherry Rehman, disse que o partido "nunca se curvou à política da vingança, uma vez que deseja um Paquistão estável e uma democracia sustentável no país." Musharraf dominou o Paquistão durante anos, após tomar o poder por um golpe militar sangrento, ganhando o apoio dos EUA depois de apoiar os norte-americanos em sua luta contra o Taleban e o Al-Qaeda. Ele abandonou seu papel duplo como chefe do Exército no ano passado, quando viu sua impopularidade crescer.   Vários paquistaneses atribuem o aumento da violência no país à sua aliança com os EUA. A sua popularidade atingiu mínimas em 2007, quando ele demitiu juízes e decretou uma lei de emergência. Os opositores de Musharraf chegaram ao poder após as eleições parlamentares de fevereiro, deixando-o, totalmente, de lado. Os EUA optaram por uma linha publicamente neutra desde que a coalizão declarou seus planos de impeachment na semana passada, em uma ação endossada pelo Exército, ex-base de apoio de Musharraf.   Se Musharraf renunciar, há dúvidas sobre se ele ficaria seguro no Paquistão. Desprezado pelos militantes islâmicos, ele já sobreviveu a diversas tentativas de assassinato. Observadores afirmam que um acordo de exílio poderia levá-lo para a Turquia, onde ele passou a infância, embora alternativas como os EUA e o Reino Unido também estejam descartadas. Azim disse que não importa o que ocorrer, Musharraf gostaria de permanecer no Paquistão.

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