Musharraf garante eleições e promete deixar o Exército

Presidente responde pressões de EUA e Reino Unido, que se disseram preocupados com estado de emergência

Agências internacionais

05 de novembro de 2007 | 13h28

O presidente do Paquistão, o general Pervez Musharraf, assegurou nesta segunda-feira, 5, que manterá seu compromisso de convocar eleições parlamentares em janeiro, apesar de ter decretado estado de emergência no último sábado.  Veja também:Após protesto, 350 são detidos no PaquistãoMusharraf deve adiar eleiçõesSob estado de exceção, Paquistão detém 500Presidente paquistanês suspende Constituição Musharraf nomeia presidente da Suprema Corte Crise política no Paquistão atinge sua pior fase   A informação foi confirmada à Reuters pelo secretário da Justiça paquistanês, Malik Abdul Qayyum. Segundo ele, país realizará eleições gerais em meados de janeiro, e, para isso, as assembléias nacional e regionais serão dissolvidas em dez dias, afirmou.  "Foi decidido que não haverá nenhum atraso na eleição e em 15 de novembro estas assembléias serão dissolvidas, e a eleição será realizada nos próximos 60 dias", disse Qayyum à Reuters.  A decisão parece ser uma resposta às críticas internacionais desencadeadas pela manobra do presidente e chefe do Exército paquistanês, que está com a popularidade em baixa e enfrenta uma disputa política com a Suprema Corte do país. Apesar de reeleito presidente em outubro, Musharraf não tem como certo sua permanência no governo, pois o tribunal avalia a constitucionalidade de sua acumulação de cargos no executivo e no Exército. O presidente, no entanto, disse estar determinado a abandonar seu cargo como chefe do Exército e tornar-se um presidente civil, após crescente pressão dos Estados Unidos.  "Estou determinado a executar totalmente este terceiro estágio de transição, e estou determinado a remover meu uniforme uma vez que corrigirmos estes pilares no Judiciário, no Executivo e no Parlamento", disse o presidente a diplomatas estrangeiros, em comentários transmitidos pela estatal Pakistan Television.  O presidente citou como justificativas para o estado de emergência a atividade crescente de militantes e a ação de juízes supostamente hostis ao governo. Ele também impôs limites à liberdade de imprensa com vistas a evitar que a insatisfação generalizada chegue às ruas.  Falando numa coletiva de imprensa na Cisjordânia nesta segunda-feira, a secretária de Estado americana Condoleezza Rice, disse esperar que Musharraf cumpra o que havia prometido antes das eleições e deixe a chefia do Exército. "Nós acreditamos que o melhor caminho para o Paquistão é o retorno ao caminho constitucional e a realização de eleições", disse Rice. Apesar da pressão de Rice, o secretário de Defesa americano, Robert Gates, deu sinais nesta segunda-feira que os EUA continuarão a cooperar com as forças de segurança paquistanesas no combate a militantes da Al-Qaeda e do Taleban escondidos nas regiões tribais do norte do país.  Segundo Gates, os Estados Unidos irão reavaliar os programas, mas não pretendem cancelar a parceria, iniciada após o 11 de Setembro.  "Nós estamos revendo todos os nossos programas de assistência, mas não pretendemos fazer qualquer coisa que possa prejudicar os esforças de contraterrorismo", disse ele. O Reino Unido também deu um aviso ao Paquistão.  "Estamos avaliando as implicações disso para nossos programas de ajuda e desenvolvimento no Paquistão", afirmou um porta-voz do primeiro-ministro britânico, Gordon Brown.  Eleições Musharraf, por sua vez, reuniu-se nesta segunda com o corpo diplomático de Islamabad. Durante o encontro, ele garantiu que as eleições serão celebradas no começo de janeiro de 2008, embora não tenha apresentado uma data concreta. Durante a reunião, os representantes dos Estados Unidos e do Reino Unido expuseram sua preocupação quanto ao não cumprimento de um acordo alcançado entre ele e a ex-premiê e líder opositora paquistanesa Benazir Bhutto.  O pacto, que permitiu a Bhutto regressar do exílio, previa a saída de Musharraf da chefia do Exército em troca do apoio do partido da ex-premiê ao presidente em seu pleito à reeleição.  A agência de notícias estatal Associated Press of Pakistan disse que Musharraf havia garantido a enviados aos estrangeiros a realização das eleições convocadas para consolidar a transição do país para uma democracia liderada por um civil.  O primeiro-ministro paquistanês, Shaukat Aziz, garantiu que o país terá eleições nacionais como agendado. "Nossa idéia sobre as eleições é que elas irão acontecer de acordo com o planejado", disse Aziz a jornalistas nesta segunda-feira, sem especificar se o pleito seria em janeiro.  Repressão Também nesta segunda-feira, a polícia paquistanesa deteve centenas de advogados que protestavam contra Musharraf.  À medida que aumentava a pressão internacional sobre Musharraf, um movimento de advogados foi às ruas de várias cidades do Paquistão. A polícia investiu contra os manifestantes, dispersando-os.  "Não temos medo dessas prisões. Continuaremos lutando", disse o advogado Abdul Hafeez, de Karachi, um dos vários detidos na segunda-feira.  Para muitos paquistaneses, Musharraf, com a imposição do estado de emergência, pretende esvaziar antecipadamente o julgamento da Suprema Corte do país sobre se ele poderia ter sido reeleito no mês passado pelo Parlamento, como ocorreu.  Na segunda-feira, vários juízes eram mantidos isolados dentro de suas casas por recusarem-se a apoiar o estado de emergência.  As forças de Musharraf também prenderam vários ativistas políticos.  O nível de insegurança aumentou muito no Paquistão país desde julho, quando forças do governo invadiram a Mesquita Vermelha, em Islamabad, para acabar com um grupo militante armado. Desde então, quase 800 pessoas foram mortas em episódios de violência ligados a militantes. Metade delas perdeu a vida em atentados suicidas.

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