Musharraf tenta explicar sua posição aos paquistaneses

O presidente do Paquistão, general Pervez Musharraf, disse, nesta quarta-feira, a seu país que os Estados Unidos estão perseguindo o suposto terrorista Osama bin Laden e não o Islã ou o povo do Afeganistão.Ele também afirmou que os EUA ainda não completaram seu plano operacional para um ataque contra o Afeganistão e que detalhes sobre a cooperação do Paquistão ainda estavam sendo discutidos."Em nenhum lugar os termos Islã ou nação afegã foram mencionados" nas conversações entre o Paquistão e os Estados Unidos sobre a cooperação nos esforços contra o terrorismo, disse Musharraf, que vestia uniforme militar e falava em sua nativa urdu.Como esperado, o discurso foi claramente um esforço para dar garantias a uma nação islâmica que reage com fúria e temor à decisão do governo de cooperar em propostos ataques dos EUA contra o Afeganistão.Musharraf advertiu que os sangrentos ataques terroristas contra os Estados Unidos em 11 de setembro e a decisão do Paquistão de ajudar a descobrir e encontrar os perpetradores, colocaram seu país na pior crise desde a última guerra contra a vizinha Índia, em 1971."O Paquistão está passando por um momento muito sério", afirmou. "Nossa decisão de hoje terá impacto em nosso futuro", disse Musharraf, pontuando seu discurso com citações do Corão, o livro sagrado do Islã.Ele afirmou que os EUA querem a ajuda do Paquistão nos campos de inteligência e logística, assim como permissão para o uso de seu espaço aéreo.Cooperar com os Estados Unidos e ficar junto com a comunidade internacional irá garantir que o pobre país do sul da Ásia surja como um "responsável e digno Paquistão", avaliou.Musharraf também lançou uma advertência à vizinha Índia, seu inimigo em três guerras nos últimos 50 anos, para não tirar vantagem da crise que o Paquistão atualmente enfrenta."Nossa Força Aérea está em alto alerta e pronta para uma missão de vida ou morte", garantiu.Musharraf disse que os EUA estão com espírito de "tristeza, ódio e vingança" devido aos ataques suicidas contra o World Trade Center e o Pentágono.Os alvos dos EUA são Bin Laden, sua organização al-Qaida, acusada por Washington de operar campos terroristas no Afeganistão, e o Taleban, que deu refúgio a eles, afirmou Musharraf.O presidente não mencionou a exigência feita pelos EUA e o Paquistão ao Taleban para extraditar Bin Laden, ou a ameaça da milícia governista de lançar uma guerra santa caso os Estados Unidos ataquem o Afeganistão.Os Estados Unidos estão formando uma coalizão internacional para combater o terrorismo e têm o respaldo de resoluções das Nações Unidas, disse Musharraf."A luta é contra o terrorismo, o que tem o apoio de todos os países islâmicos", acrescentou.Militantes muçulmanos no Paquistão, um país de 140 milhões de habitantes, têm reagido com revolta à posição assumida por Islamabad em suas conversações com Washington.Nesta quarta-feira, Maulana Sami-ul Haq, presidente do Conselho de Defesa do Paquistão, que agrupa 35 organizações islâmicas, afirmou que seus seguidores terão de responder a um chamado do Taleban para uma guerra santa contra os Estados Unidos, caso suas forças ataquem o Afeganistão.Numa entrevista coletiva em Rawalpindi, uma cidade nas proximidades de Islamabad, ele também afirmou que seu país pode afundar-se numa guerra civil caso o Afeganistão seja atacado.Manifestantes queimaram bandeiras americanas e bonecos representando Musharraf e o presidente dos EUA, George W. Bush, na cidade sulista de Karachi e em Peshawar, a capital da província Fronteira Noroeste, que é um bastião de apoio a Bin Laden e ao Taleban.Musharraf, que tomou o poder num golpe de Estado incruento em 1999, está pressionado entre as exigências dos EUA e da oposição interna.Apesar de a maioria dos paquistaneses criticar os ataques terroristas contra os EUA, muitos têm Bin Laden como um herói. O Paquistão é um dos três países que reconhecem oficialmente o governo do Taleban. Os outros dois são as nações muçulmanas Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.No início desta semana, uma delegação paquistanesa reuniu-se com líderes do Taleban em Kandahar para pedir a entrega de Bin Laden. Musharraf disse nesta quarta-feira que informou o líder do Taleban em uma carta sobre "a gravidade da situação"."Todos os meus esforços estão sendo no sentido de encontrar uma solução para esta grave situação, para que o Afeganistão e o Taleban não sofram. Isto é o que eu tenho tentado fazer e o que continuarei tentando", afirmou Musharraf.O líder paquistanês também disse que solicitou aos Estados Unidos evidências contra Bin Laden. "Fomos longe o bastante até mesmo para dizer aos Estados Unidos para tomarem qualquer atitude que desejarem, mas com tolerância e equilíbrio, e sobre a questão de Bin Laden, solicitamos a eles as provas disponíveis", afirmou.

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