Mutilação feminina preocupa países europeus

Só na França, 60 mil mulheres foram submetidas à tradição, que é combatida como crime pela ONU

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2010 | 00h00

Aos 8 anos, Diaryatou Bah enfrentou seu primeiro rito de passagem. Conduzida por quatro mulheres a um bosque em Guiné, na África, a jovem recebeu a orientação de deitar-se no chão, foi presa pelos braços e pernas e, com um curto golpe de faca artesanal, sem anestesia, sem esterilização, teve o clitóris extraído. Então, tornou-se "como as outras": mulher, pronta para o casamento e destinada à fidelidade, como reza o costume de 25 séculos.

Pelos oito anos que se seguiriam antes de sua chegada à Holanda, Diaryatou não entendeu que o ritual pelo qual passara, a excisão, nada mais era do que uma mutilação genital feminina, um crime combatido pela Organização das Nações Unidas (ONU), mas ainda praticado contra 3 milhões de mulheres por ano na África, no Oriente Médio, no sul da Ásia e, acredite, na Europa.

Juntamente com o crescimento da imigração, a partir dos anos 90, o drama humano recorrente em 28 países africanos é cada vez mais denunciado em países europeus. De acordo com vítimas e militantes de ONGs de proteção dos direitos da mulher ouvidas pelo Estado, em Paris, Roma, Amsterdã, Estocolmo, Manchester, Londres ou Berlim a mutilação ilegal ainda é praticada em casas sujas ou até mesmo em consultórios médicos clandestinos "especializados". A esses casos, soma-se um verdadeiro fluxo de turismo de imigrantes radicados nas principais capitais europeias em direção a seus países de origem, onde pais levam suas filhas para a excisão.

As viagens têm dois objetivos: fugir do risco de perseguição legal - a mutilação é proibida na Europa - e cumprir o rito cultural que em países como Guiné é o destino comum a 85% das mulheres. O resultado: segundo levantamento do Instituto Nacional de Estudos Demográficos (Ined), entre 53 mil e 60 mil mulheres vítimas da mutilação vivem na França - onde não mais de 20 processos foram abertos na Justiça nas últimas décadas para perseguir os culpados.

Crescimento. O caso francês não é uma exceção na Europa: na Grã-Bretanha, outras 65 mil mulheres, adolescentes e crianças, passaram pela excisão, que computa 20 mil vítimas na Alemanha.

E a dimensão do crime cresce a cada ano, alertam especialistas como a socióloga Isabelle Gillette-Faye, diretora da ONG Gams, de Paris. Em um país como a França, entre 10 mil e 20 mil meninas de origem africana estariam expostas ao risco de excisão todo ano.

"As informações que temos indicam que a excisão continua sendo realizada em clínicas privadas na Europa, embora seja, geralmente, um assunto de família, realizada antes da imigração ou durante viagens ao país natal", explica.

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