Na academia de boxe, o retrato do desemprego

Jovens sem perspectivas frequentam o mesmo lugar onde Mandela treinava, nos anos 50, e são o reflexo de uma geração sem rumo

RICK LYMAN , THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2013 | 02h04

SOWETO, ÁFRICA DO SUL- Tumelo Mabitle, mudou o peso do corpo, de um pé para outro, e soltou alguns jabs vigorosos no saco de areia. Mabitle, de 20 anos, sabe que foi nesta mesma academia de Soweto que Nelson Mandela havia um dia treinado boxe nos anos 50. Para Mabitle, pugilista amador, saber que Mandela treinou ali é motivo de "confiança", embora ele desejasse algo mais do líder antiapartheid que morreu na quinta-feira.

"Gostaria que ele viesse aqui", disse Mabitle, estudante recém-formado do segundo grau e desempregado, falando antes da morte de Mandela. "Gostaria de lhe dizer como nós precisamos de mais empregos e mais moradias para as pessoas - e mais lugares como este para mantê-las ocupadas e dar-lhes alguma coisa para fazer."

Quando Mandela treinava em Soweto - que ele dizia fazer para se manter em forma e tirar da cabeça a luta aparentemente interminável pela libertação - o prédio era conhecido como Centro Comunitário Donaldson Orlando, em homenagem ao tenente-coronel James Donaldson, que, em 1936, criou o primeiro fundo privado para o desenvolvimento social dos negros na África do Sul.

Hoje, ele também é conhecido como Soweto YMCA, estendendo-se ao longo da poeirenta Rua Rathebe, do Açougue Pick & Save, até o posto policial na seção Orlando East, de Soweto, cerca de 1,5 quilômetro de onde Mandela vivia na época.

Mabitle disse que gostaria de trabalhar em uma academia algum dia ou como treinador de uma equipe esportiva, mas esses empregos eram difíceis de conseguir na Africa do Sul hoje em dia.

Desemprego. Não longe dali, Siyabulela Mbongwana, de 33 anos, observava um amigo fazer flexões. Mbongwana disse que vinha à academia para manter a forma e ocupar seus dias. Ele afirmou que quando havia começado, não tinha a menor ideia de que Mandela havia treinado ali um dia.

"Você vai a todos esses museus Mandela em Soweto e aprende tudo a seu respeito", disse Mbongwana, especulando sobre por que não havia nenhuma foto de Mandela na academia na época. Ele fez uma pausa antes de voltar a seu treinamento. "Sabe de alguém que precisa de um leão de chácara? Estou procurando um trabalho."

"A academia foi reformada no ano passado", disse Musa Mbatha, de 22 anos, um estudante de engenharia que disse que a frequentava algumas vezes por semana para se manter em forma. Quatro ventiladores estavam apoiados em plataformas no alto da sala de exercício, agitando o ar poeirento à luz de lâmpadas penduradas no teto. O equipamento novo estava reluzente e um novo piso emborrachado ajudava a absorver o castigo de uma malhação prolongada.

Uma percussão pulsante - a música ambiente que era amplamente popular na África do Sul - ecoava de um par de pequenos alto-falantes em um canto. "Favor não comer na academia", dizia um cartaz numa parede, Na entrada da academia, outros cartazes informavam o preço e a data da cobrança da mensalidade - pouco menos de US$ 10.

Orgulho. A verdade, disse Mbatha, é que esta já não era mais uma academia de boxe de verdade. Ela era usada, principalmente, por gente como ele, que simplesmente queria se manter em forma. No entanto, todos tinham orgulho de quando ali era uma academia de boxe, Mandela foi seu membro mais famoso.

Mbatha saiu da sala e foi até um pátio empoeirado, onde uma fileira de velhos equipamentos de ginástica enferrujava ao sol do meio-dia, seus enchimentos reduzidos a quase nada.

"Este é o equipamento antigo que Mandela teria usado em seu tempo", disse Mbatha. "Nós o deslocamos para cá quando o novo equipamento chegou no ano passado. Gostaria que Mandela pudesse vir aqui para ver como estamos cuidando bem do lugar." (Tradução de Celso Paciornick)

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