Na África do Sul, ninguém ameaça o reinado do CNA

Eleição de quarta-feira servirá apenas para confirmar Jacob Zuma como líder do país mais rico do continente

Cristiano Dias, O Estadao de S.Paulo

18 de abril de 2009 | 00h00

Na quarta-feira, cerca de dois terços dos 23 milhões de eleitores da África do Sul devem votar mais uma vez no Congresso Nacional Africano (CNA), partido que está no poder há 15 anos e ainda colhe os frutos da luta contra o apartheid. Essa avalanche de votos faz com que seja só uma questão de tempo para que Jacob Zuma, líder do CNA, se torne o homem mais poderoso da África.A votação na África do Sul é indireta: os eleitores elegem o Parlamento, que escolhe o presidente. No entanto, tudo parece mera formalidade para oficializar o nome de Zuma. Com quase 90% da população negra, o CNA tem uma fatia cativa de 65% do eleitorado.Com a fundação do Congresso do Povo (Cope) por dissidentes do CNA, no início do ano, a grande dúvida era saber se o partido governista manteria a mesma votação. Fundado por aliados do ex-presidente Thabo Mbeki, o partido não decolou em razão da falta de dinheiro e da forte identificação com o ex-líder, bastante impopular. Sem concorrentes à altura, a questão é saber se o CNA elege ou não mais de dois terços do Parlamento, o que lhe permitiria fazer o que quiser com a Constituição. "O país tem hoje muita dificuldade para romper o esquema de partido único", disse ao Estado, por telefone, Roland Henwood, do Centro de Estudos Políticos da Universidade de Pretória.Como presidente, Zuma vai controlar mais de um terço do PIB africano e o único país do continente membro do G-20, grupo de nações mais influentes do mundo. Com instituições fortes, eleições livres, imprensa atuante e sociedade civil organizada, o país não se encaixa no estereótipo da África que não deu certo. Contudo, a linha entre sucesso e fracasso é tênue. Em 15 anos de governo, o CNA não cumpriu a promessa de tirar 30 milhões de negros da pobreza. A tensão racial diminuiu, mas as desigualdades aumentaram, apesar do surgimento de uma tímida classe média negra de 2,6 milhões de pessoas - 5% da população -, responsáveis por 30% do poder aquisitivo do país. Alguns problemas são estruturais. Apenas 5% dos negros chegam à universidade e as falhas no sistema educacional privam o país de mão de obra qualificada. De acordo com dados oficiais, a taxa de desemprego é de 22%, embora economistas estimem que 40% dos sul-africanos não têm trabalho.A África do Sul tem 5,5 milhões de aidéticos - 12% da população -, o maior número de soropositivos do mundo. A inépcia do CNA transformou a aids em epidemia: são 500 mil novos infectados por ano, incluindo 100 mil crianças, e mil mortes por dia.A violência é outro problema crônico. Todos os anos, uma média de 28 mil pessoas são assassinadas no país. São 59 homicídios a cada 100 mil habitantes - o dobro da taxa brasileira. Nos últimos dois anos, foram registrados 14 mil roubos de carro e 36 mil estupros, mas organizações de direitos humanos dizem que a criminalidade é muito maior, já que muitos casos não são denunciados.

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