Andrei Netto/Estadao
Andrei Netto/Estadao

‘Na Al-Qaeda, maioria era contra o 11 de Setembro’

Jornalista mauritano diz que Abu Hafs, mentor espiritual de Bin Laden, tentou convencê-lo a não lançar ataques

Entrevista com

Lemine Ould M. Salem, autor de ‘A História Secreta da Jihad’

Andrei Netto, correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

29 Janeiro 2018 | 05h00

Ao longo dos anos 90, quando já desafiava a maior potência política, econômica e militar do planeta, os EUA, o saudita Osama bin Laden contou com um amigo e conselheiro religioso, seu cúmplice de luta: o terrorista mauritano Mohamed Mahfoudh Ould el-Waled, mais conhecido como Abu Hafs. Por anos, ele foi considerado pelos serviços secretos do Ocidente como um dos mais altos membros do comando da Al-Qaeda. Esse é o personagem central do livro A História Secreta da Jihad (em tradução livre), que acaba de ser publicado na França pelo jornalista Lemine Ould M. Salem.  

Com base nas memórias do terrorista, com quem ele estabeleceu o primeiro contato em 2015, o livro traz revelações sobre a vida de Bin Laden e sobre o jogo ambíguo que diferentes países desempenharam ao longo dos anos de perseguição. A seguir, os principais trechos da entrevista ao Estado

Como vive Abu Hafs, que foi um dos mais altos membros da Al-Qaeda?

Abu Hafs vive em uma casa bem confortável, em um bairro chique da capital da Mauritânia (Nouakchott). Ele dá a impressão de gozar de plena liberdade. Mas creio que seja muito vigiado. Sei que não tem documentos, nem passaporte.

Hafs viveu por quase uma década com Bin Laden, mas você o define como moderado. Por que?

Na verdade, Hafs se define como um moderado, partidário do diálogo entre civilizações e religiões. Ele não nega suas convicções islamistas. É alguém que ainda sonha que o mundo muçulmano seja governado por um governo islâmico. É partidário da sharia – a lei islâmica – e do princípio do califado, embora com condições. Mas não é apoiador do Estado Islâmico. Creio que ainda tenha ambições políticas ou morais na galáxia islamista. Por isso, ainda é muito ouvido no mundo muçulmano. Hoje, é consultado por americanos ou europeus e participa de um programa suíço de luta contra a radicalização.

Quais eram os vínculos entre Hafs e Bin Laden?

Eram amigos. Hafs era seu mentor espiritual, seu confidente. Foi também mestre de toda a família Bin Laden quando ela partiu para o exílio no Irã. Os dois se conheceram em 1991, no Paquistão, e se encontraram no ano seguinte no Sudão, onde ouviu de Bin Laden, cercado dos chefes da Al-Qaeda, que deveria ficar a seu lado. 

+ Al-Qaeda age na África desde os anos 1990

Nos anos 90, a rede de Bin Laden já havia cometido atentados graves. Hafs estava de acordo com a estratégia da Al-Qaeda

Não, ele sempre julgou que colocar em jogo a vida de inocentes era contraproducente, pois provocaria uma invasão dos países muçulmanos pelos EUA. No fim dos anos 90, segundo Hafs, surgiram as primeiras reclamações sobre a forma como Bin Laden gerenciava a Al-Qaeda. Ele tomava decisões importantes sem consultar ninguém. Hafs alertara Bin Laden que ele provocaria uma catástrofe para os muçulmanos com o 11 de Setembro. 

Por que Hafs não foi ouvido?

Bin Laden acreditava que provocaria um novo Vietnã para os americanos. O grupo contrário ao 11 de Setembro era majoritário na Al-Qaeda. Mas, ainda assim, alguns acabariam participando do atentado. Isso revela o peso de Bin Laden.

Foi o perfil moderado que evitou que Hafs fosse preso e enviado a Guantánamo pelos EUA?

O que evitou sua prisão foi o fato de que ele se opôs ao 11 de Setembro. Os americanos souberam por meio de presos de Guantánamo que Hafs havia tentado convencer Bin Laden a não cometer os atentados nos EUA.

Qual a importância da fortuna de Bin Laden para a existência da causa jihadista?

Bin Laden não financiava apenas a Al-Qaeda, mas todos os grupos jihadistas próximos da Al-Qaeda. Creio que se Bin Laden não tivesse sido tão rico, a Al-Qaeda jamais teria sido o que ela foi, nem teria tido a importância que teve.

Hafs e Bin Laden passaram pela Irmandade Muçulmana. Ela é uma escola do radicalismo?

De fato, eles passaram pela Irmandade Muçulmana. Mas, em algum momento, julgaram que o movimento não era radical o suficiente, e deram o salto rumo a mais radicalismo. No seu caso, Hafs retornou. É um caso raro.

Hafs e Bin Laden conviveram com Abu Musab al-Zarqawi, fundador do Estado Islâmico. Quais são suas impressões a respeito desse terrorista?

Hafs descreve Zarqawi como um ex-ladrãozinho convertido ao Islã. Quando o conheceu, diz Hafs, já era alguém crente, correto, muito polido, embora radical, já impregnado da ideologia da guerra santa.

Muito já se falou sobre a ambiguidade do Paquistão na perseguição a Bin Laden...

Em determinado momento o chefe do serviço de inteligência do Paquistão encontrou-se com mulá Omar. Ele o informou que os EUA queriam que Bin Laden lhes fosse entregue. Após transmitir a mensagem, disse: “Era meu trabalho transmitir o recado. Mas, como muçulmano, lhe digo: não o faça”. Bin Laden jamais foi entregue pelos paquistaneses.

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