Ina Fassbender/AFP
Ina Fassbender/AFP

Na Alemanha, sobram leitos e faltam pacientes

Hospitais têm 150 mil vagas desocupadas de um total de meio milhão; das 40 mil de UTI, pelo menos 10 mil estão disponíveis

Redação, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2020 | 05h00

BERLIM - Os hospitais da Alemanha alertam que a pandemia de coronavírus vem causando um problema incomum: em vez da falta de leitos hospitalares e de respiradores, uma queixa de outros lugares do mundo, há escassez de pacientes. Muitos já disseram que pretendem cortar a carga horária das equipes médicas em razão da falta de doentes.

A Alemanha tem quase 140 mil casos confirmados de covid-19, mas registrou muito menos mortes do que os países vizinhos – foram pouco mais de 4 mil óbitos. Em comparação, a França tem 147 mil infectados, um número apenas um pouco maior que o alemão, mas 18,6 mil mortos, quase cinco vezes mais. O Reino Unido tem 110 mil casos confirmados e quase 15 mil mortos

Enquanto os EUA e a maioria dos países da Europa estão com hospitais e UTIs sobrecarregados por pacientes com coronavírus, um programa de testes extensos e outros esforços de mitigação reduziram o peso da pandemia sobre o sistema de saúde alemão. “A Alemanha agiu muito no início da pandemia”, disse Christian Drosten, virologista do hospital Charité, de Berlim.

Antes do surto, a Alemanha já possuía uma das maiores quantidades de leitos de UTI per capita da Europa. Desde então, as autoridades de saúde expandiram ainda mais a capacidade, oferecendo compensação a hospitais  que adiassem cirurgias não essenciais. Com isso, segundo a Associação de Hospitais da Alemanha (DKG, na sigla em alemão), o país tem 150 mil leitos vazios de um total de meio milhão. Das 40 mil vagas de UTI, pelo menos 10 mil estão disponíveis.

A maior preocupação das autoridades é que os números possam dar uma falsa sensação de segurança. Na semana passada, a chanceler alemã, Angela Merkel, disse que um leve aumento na atual taxa de reprodução do coronavírus pode significar que o sistema de saúde da Alemanha entre em colapso no meio do ano. “A curva ficou mais achatada. Mas ainda estamos em uma situação frágil”, disse. 

A DKG, no entanto, é mais otimista e não considera uma sobrecarga provável no curto prazo. “Se a tendência atual continuar, não esperamos sobrecarga de pacientes nas próximas duas ou três semanas”, afirmou Joachim Odenbach, porta-voz da associação. “Agora, devemos retomar cuidadosamente as cirurgias que foram colocadas em espera.”

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O sucesso da Alemanha passa por um programa metódico de testagem. O nível de testes no país chega a 20 mil para cada milhão de habitantes – no Brasil, não chega a 300 por milhão de pessoas. Ao lado dos exames caminha um processo de monitoramento rigoroso dos infectados. 

Além dos testes, a Alemanha já apresentava números consistentes antes da pandemia. O país gasta € 5,2 mil per capita com saúde (cerca de R$ 26 mil) – no Brasil, o gasto per capita é de R$ 1,2 mil. Os investimentos em pesquisa científica também deram resultados. O epidemiologista Olfert Landt, de 54 anos, desenvolveu o primeiro teste para identificar a covid-19, aprovado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em janeiro, uma semana antes de os chineses começarem a testar em massa na cidade de Wuhan. / W. POST

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