The Washington Post / Rami Neffeti
The Washington Post / Rami Neffeti

Na Arábia Saudita, mulheres aprendem a andar de moto

Afrouxamento de rígidas regras sociais por príncipe herdeiro do trono saudita, Mohammed bin Salman, provoca mudanças profundas no país

O Estado de S.Paulo

04 Maio 2018 | 20h40

Desde que se tornou o governante de facto da Arábia Saudita, no ano passado, o príncipe herdeiro, Mohamed bin Salman, tem feito incontáveis investidas para modernizar o país, conhecido por suas severas restrições à participação feminina na sociedade. “Não éramos assim. Queremos voltar a ser um Islã moderado”, disse Salman, no ano passado. 

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Na sexta-feira, dia 4, Salman deu um dos mais radicais passos nesta direção. Ele lançou um programa que prevê o fim da separação entre gêneros nos lugares públicos. Na Arábia Saudita, homens e mulheres ficam em lugares separados e só dividem espaços comuns em casa.

O programa de reformas, chamado “Qualidade de Vida 2020”, tem 234 páginas e propõe acabar com a separação das famílias em lugares de lazer “para promover a coesão social e melhorar o estilo de vida dos indivíduos e das famílias”.

Uma das principais mudanças começa em junho: as mulheres vão poder dirigir após décadas de proibição. Elas terão permissão para dirigir motos, vans e caminhões, além de carros. 

É um passo histórico, dizem ativistas do sexo feminino, mas destacam que a Arábia Saudita continua sendo um dos países mais restritivos do mundo para as mulheres. Sob um sistema conhecido como “tutela”, as mulheres não podem se casar ou viajar sem a permissão de um parente do sexo masculino.

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Muitas afirmam que sofrem intimidação de autoridades sauditas em razão da campanha que fizeram pelo direito de dirigir. Além disso, faltam escolas de direção para mulheres e o alto custo das aulas impede que muitas possam dirigir. 

Em Riad, a capital saudita, Hanan Abdulrahman é uma das primeiras a fazer aulas de moto. Quando a noite cai, ela sobe em sua motocicleta Suzuki preta nos arredores de Riad e faz um ziguezague entre cones de trânsito no circuito montado para treinar aspirantes a motociclistas. A mulher de 31 anos tem uma palavra para isso: “Liberdade”.

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Na pista, Abdulrahman e a colega, Leen Tinawi, uma jordaniana de 19 anos nascida e criada na Arábia Saudita, estão focadas na tarefa. “Meus amigos acham que sou louca”, disse Abdulrahman. As duas mulheres usam equipamento de proteção e camisetas da Harley Davidson. Neste espaço privado, elas estão livres para se vestir como quiserem, mas ninguém tem certeza de qual será a exigência nas ruas sauditas. 

Na escola de motociclismo, cerca de 70 mulheres se inscreveram para as aulas, mas apenas três apareceram. Algumas pagaram a taxa de 1.500 riads (US$ 400), mas não compareceram. “Talvez suas famílias sejam contra”, disse a ucraniana Elena Bukaryeva Bukaryeva, instrutora e esposa do dono da escola. Abdulrahman disse que sua família tem apoiado, mas ela não fala sobre dirigir, muito menos andar de moto, com os colegas de trabalho. /W.POST e EFE

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