Na Argentina, a festa acabou

Bonança econômica vivida pelo país nos últimos anos dá sinais de que está no fim e o governo de Cristina, em vez de poupar, gastou muito com empregos públicos e subsídios

É COLUNISTA, GANHADOR DO , PRÊMIO PULITZER, ANDRES, OPPENHEIMER, MIAMI HERALD, É COLUNISTA, GANHADOR DO , PRÊMIO PULITZER, ANDRES, OPPENHEIMER, MIAMI HERALD, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2012 | 03h04

Para um visitante de volta para a Argentina após dez meses de ausência, é espantosa a rapidez com que as coisas mudaram: a maior bonança econômica da história recente do país transformou-se, subitamente, numa forte retração, e o otimismo cedeu lugar a uma ansiedade, se não um pânico, geral. A festa que já durava oito anos na Argentina, acabou.

A despeito dos discursos apaixonados da presidente Cristina Kirchner afirmando que seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner, que morreu em 2010, descobriu um novo modelo econômico nacionalista que trouxe taxas de crescimento anuais recordes de 8% durante boa parte da última década - um crescimento que a maioria dos economistas atribui, contudo, a fatores externos, como as compras em massa das exportações de grãos do país pela China - há sinais de fim do boom por toda parte.

O índice de popularidade de Cristina Kirchner caiu de 63% após ser reeleita em outubro para 39% agora.

O mais ameaçador para o governo de Cristina é que a maior central sindical do país - a CGT, até recentemente uma firme aliada do governo - começou a recrudescer seus protestos e está pedindo um reajuste salarial de 30%. Organizações de trabalhadores agrícolas também estão ameaçando realizar greves.

O assunto do dia em Buenos Aires é onde comprar dólares americanos no mercado negro, e a que taxa de câmbio. A inflação, oficialmente em 9%, já é quase unanimemente estimada em 25%.

Após muitos anos durante os quais Kirchner bravateou que a Argentina era uma das economias que mais rapidamente cresciam no mundo enquanto os Estados Unidos e a Europa desmoronavam, as projeções são de que a economia argentina vai desacelerar de quase 9% no ano passado para 2,2% neste ano, segundo as estimativas mais recentes do Banco Mundial. Muitos economistas independentes dizem que mesmo essa projeção é otimista e o país pode terminar este ano em recessão.

"Nós acreditamos que a história terminará com uma grande desvalorização mais cedo ou mais tarde", diz um relatório do economista Javier Kulesz do banco UBS. Ele acrescenta que isso viria com grande aumento dos preços dos serviços públicos, aumento das tensões sociais e crescimento baixo, se não negativo.

Por que a economia argentina deu essa súbita guinada para baixo? A China não parou de adquirir commodities argentinas, não houve nenhum tsunami ou terremoto que destruísse a infraestrutura do país, tampouco alguma crise econômica internacional que prejudicasse mais a Argentina do que os outros países. Pelo contrário, o ambiente internacional continua favorável a esse país já que os preços das commodities continuam relativamente altos e muitos investidores internacionais, desiludidos com a recessão na Europa, estão olhando cada vez mais para a América Latina como uma opção.

A julgar por dezenas de entrevistas aqui na semana passada, há apenas uma razão para o atual declínio da Argentina - e é a usual. A política, claro. O governo populista de Cristina distribuiu amplos subsídios para vencer eleições, como fez Hugo Chávez na Venezuela.

Embora os subsídios sempre crescentes funcionem enquanto as exportações de commodities continuarem crescendo, eles podem levar o país à bancarrota quando os preços mundiais das commodities pararem de subir.

Enquanto o vizinho Chile poupou tanto em governos de centro-esquerda quanto de centro-direita nos anos bons para manter seus programas sociais nos anos ruins, a Argentina fez exatamente o oposto. Ela desperdiçou concedendo empregos públicos a seguidores, subsídios em dinheiro a milhões de pessoas e subsídios ao transporte e à energia.

Ressurreição. Roberto Lavagna - o ex-ministro da Economia no governo de Néstor Kirchner, a quem se credita a ressurreição da economia argentina após o país ter dado um calote na sua dívida externa em 2001 - estima que os subsídios governamentais para transporte e energia cresceram de US$ 1,2 bilhão no final de 2005 para US$ 19 bilhões no ano passado.

Embora o senso comum sugira que Cristina começaria a diminuir os gastos públicos à luz da retração econômica, ela parece estar dobrando suas apostas. Na semana passada, ela anunciou um plano para conceder 400 mil hipotecas a juros baixos e construir 400 mil moradias nos próximos quatro anos.

De onde virá o dinheiro? Ele será emprestado do Sistema de Seguridade Social do país. O governo diz que o plano criará 100 mil empregos na construção, e ajudará a reativar a economia. Os céticos dizem que o dinheiro desaparecerá nas mãos de autoridades corruptas, como tantas vezes antes, e aposentados futuros não verão um centavo de suas pensões.

"Eles têm uma visão de economia de muito curto prazo, estritamente política", disse Lavagna. Minha opinião: todos os indícios são de que Cristina colocará a culpa no mundo exterior - a mídia, Grécia ou Washington - pela retração causada por sua farra econômica irresponsável. Ela imprimirá cada vez mais dinheiro para comprar votos para vencer as eleições legislativas de outubro de 201 e rezará por uma nova alta nos preços mundiais das commodities para salvar as contas do país.

No processo, dilapidará a melhor oportunidade da Argentina em um século de usar seu bom momento com as commodities para melhorar os padrões educacionais, atrair investimentos para criar novas indústrias, e tirar milhões de pessoas da pobreza.

Espero estar errado nisso, e que no restante de seu mandato, Cristina adote uma visão de mais longo prazo e menos ideológica do que é melhor para o seu país. Mas não ouvi nada para me convencer de que ela fará alguma coisa para salvar a Argentina de sua crise autoinfligida. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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