Gonzalo Fuentes/Pool Photo via AP
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Na Assembleia da ONU, Biden e Macron vão conversar sobre crise de compra de submarinos

Austrália nega ter mentido sobre acordo de defesa que França considerou traição

Redação, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2021 | 20h00
Atualizado 20 de setembro de 2021 | 20h00

Os presidentes da França e dos EUA irão conversar nos próximos dias a respeito da crise entre os dois países desencadeada por um contrato de compra de submarinos pela Austrália que foi considerado por Paris uma traição de seus aliados americanos. Joe Biden solicitou a reunião com Emmanuel Macron, informou neste domingo, 19, o governo francês.

Macron pedirá a Biden "um esclarecimento" e "explicações" sobre o que "parece ser uma grande quebra de confiança", afirmou neste domingo o porta-voz do governo francês, Gabriel Attal, à rede BFMTV.

"Haverá uma conversa telefônica nos próximos dias" entre os dois presidentes, por iniciativa de Biden, acrescentou o porta-voz.

Estados Unidos, Austrália e Reino Unido anunciaram na última quarta-feira, 15, uma associação estratégica para contra-atacar a China, que inclui o fornecimento de submarinos nucleares americanos a Camberra, o que deixou os franceses fora do jogo. A França ficou furiosa com a decisão da Austrália de se retirar de um acordo de US$ 50 bilhões com o país e convocou para consulta os embaixadores em Washington e em Camberra na sexta, 17.

Enfurecida com o cancelamento da venda de submarinos no valor de US$ 65 bilhões, que descreveu como uma "apunhalada nas costas", a França convocou seus embaixadores em Camberra e Washington para consultas, definindo o momento como uma "grave crise" entre aliados. A convocação de embaixadores é uma medida sem precedentes entre países não rivais.

Mais cedo neste domingo, o governo da Austrália rejeitou as acusações da França de que mentiu sobre seus planos de cancelar um contrato de compra de submarinos franceses em favor de navios americanos.

Paris convocou, na sexta-feira, seus embaixadores nos Estados Unidos e Austrália para consultas, acusando este último país de "mentir" sobre a ruptura do contrato, uma decisão sem precedentes entre aliados.

Poucas horas antes, o primeiro-ministro australiano, Scott Morrison, rejeitou as acusações francesas de ter mentido sobre esse contrato de compra de submarinos.

"Acredito que tinham todas as razões para saber que tínhamos profundas e graves reservas sobre o fato de as capacidades do submarino de classe Attack não responderem aos nossos interesses estratégicos e deixamos muito claro que tomaríamos uma decisão em função de nosso interesse estratégico nacional", declarou Morrison em coletiva de imprensa em Sydney.

Morrison afirmou que entendia a "decepção" do governo francês, mas acrescentou que encontrou problemas no acordo "há alguns meses", assim como outros ministros do governo australiano.

Para o líder, teria sido uma "negligência" seguir adiante com o contrato, mesmo quando os serviços de inteligência e de defesa da Austrália sugeriam que ele estaria indo contra os interesses estratégicos do país.

"Não me arrependo da decisão de colocar o interesse nacional da Austrália em primeiro lugar. Nunca me arrependerei", afirmou.

O ministro australiano da Defesa, Peter Dutton, disse neste domingo que seu governo foi "franco, aberto e honesto" com a França sobre suas preocupações com o acordo, que estava acima do orçamento e com anos de atraso.

Por sua vez, a nova ministra britânica das Relações Exteriores, Liz Truss, defendeu neste domingo a posição de Londres no acordo de defesa com os Estados Unidos e a Austrália.

O acordo mostra o preparo do Reino Unido em "demonstrar firmeza na defesa de nossos interesses" e "nosso compromisso com a segurança e a estabilidade da região indo-pacífica", escreveu Truss no Telegraph.

Paris considerou inútil convocar sua embaixadora em Londres para consultas e ironizou, por meio de seu ministro das Relações Exteriores, Jean-Yves Le Drian, o "oportunismo permanente" do Reino Unido, classificando este país como "quinta roda do carro".

Em seu artigo, a ministra britânica não faz referência às tensões com a França, mas destaca o slogan "Global Britain" sobre o lugar do Reino Unido pós-Brexit no mundo, defendido pelo primeiro-ministro Boris Johnson.

No sábado à noite, em declarações à televisão France 2, Jean-Yves Le Drian afirmou que o caso dos submarinos desencadeou uma "crise grave".

"Houve mentira (...), uma ambiguidade (...), uma grande quebra de confiança" e um "desprezo" por parte dos aliados da França, afirmou o ministro francês.

Le Drian também estimou que esta crise vai influenciar na definição do novo conceito estratégico da Otan, sem mencionar, porém, uma saída da Aliança Atlântica.

"A Otan iniciou uma reflexão, a pedido do presidente da República, sobre seus fundamentos. Haverá, na próxima cúpula da Otan em Madri, a conclusão do novo conceito estratégico. Obviamente, o que acaba de acontecer terá influência nesta definição", disse Le Drian.

Por outro lado, o almirante Rob Bauer, presidente do comitê militar da Otan, afirmou que essa disputa não terá impacto na "cooperação militar" da aliança.

Tecnologia para bombas

Embora a Austrália tenha afirmado que manterá sua política de não proliferação e não detenção de armas nucleares, na prática a construção do submarino movido a combustível atômico lhe dá acesso à tecnologia para a construção de bombas. Atualmente, apenas seis países têm submarinos nucleares, e o Brasil está construindo o seu primeiro, com tecnologia própria e parceria com a França.

Assim, o acordo elevará a Austrália a um clube de elite das poucas nações que operam submarinos impulsionados por energia atômica, que podem viajar longas distâncias sem precisar reabastecer. A estratégia complementa os planos dos EUA, do Reino Unido e de outras nações aliadas para deter as reivindicações territoriais chinesas no Mar do Sul da China e a expansão do poderio naval de Pequim.

A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) tem a tarefa de rastrear todos os materiais nucleares em países que, como a Austrália, ratificaram o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP), para garantir que nenhum deles seja desviado para uso em uma bomba nuclear. Para produzir um submarino a propulsão nuclear, os EUA e o Reino usam urânio enriquecido a 90%, a mesma taxa usada para a fabricação de armas atômicas— por isso, a AIEA deve acompanhar a iniciativa.

Dos seis países que têm hoje submarinos nucleares operantes, cinco são potências atômicas reconhecidas pelo TNP — Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido. A Índia, o sexto, não assinou o TNP e desenvolveu seu arsenal atômico à margem do tratado de não proliferação.

O histórico de cooperação em segurança entre os três países que anunciaram o acordo é longo, e passa por dezenas de conflitos armados, incluindo as duas guerras mundiais. Um exemplo, é a chamada iniciativa Cinco Olhos, em que Reino Unido, Estados Unidos e Austrália, somados a Canadá e Nova Zelândia, compartilham informações cruciais de inteligência desde 1946. / AFP, REUTERS E AP

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