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Na Austrália, o tempo das cinzas

Os incêndios monstruosos que devoravam a Austrália e os fogos de artifício que iluminaram as noites australianas parecem ter diminuído sua fúria

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2020 | 07h00

Os incêndios monstruosos que devoravam a Austrália e os fogos de artifício que iluminaram as noites australianas parecem ter diminuído sua fúria. Em vastas áreas onde o flagelo se prolongou, os dez tons de verde que pintavam as florestas foram apagados e substituídos pelo cinza de ruínas e morte. No céu, ainda paira a fumaça venenosa que, mesmo em plena luz do dia, revela cenários de guerra ou cemitério.

É o fim do horror ou essa hidra de chamas acordará e retomará o trabalho de demolição? De qualquer forma, podemos tirar proveito dessa pausa para questionar os australianos sobre os rumos desse inferno.

Primeiro, o incêndio destruiu mais de 12 milhões de hectares e matou pelo fogo 1 bilhão de animais, muitos dos quais pertencem a espécies raras. Enquanto isso, em Sydney, a maior cidade do país, e em Melbourne, centenas de milhares de pessoas se reuniram para exigir medidas extremas contra esses desastres sempre repetidos.

A dificuldade, que chega quase ao ridículo, é que o primeiro-ministro Scott Morrisson, como Donald Trump e provavelmente Jair Bolsonaro, são céticos quanto ao clima, pessoas indiferentes ao massacre das florestas. Certamente, Morrison parece ter notado que estava muito quente esta temporada, mas ele se recusa a ver nessas temperaturas sem precedentes o menor perigo e menos ainda a responsabilidade dos homens, a dos empresários (australianos, é claro, mas também europeus, e ainda os asiáticos). 

E ele mantém essas alegações, mesmo que a Austrália seja o maior exportador de carvão do planeta, mesmo que esteja entre os dez países que mais destroem florestas, mesmo que detenha o recorde mundial de assassinos de mamíferos. Em 2017, Scott Morrison foi à Câmara dos Deputados, com um pedaço de antracito (variedade compacta e dura de carvão) na mão, antes de fazer um elogio surreal ao carbono.

Nesta escaldante Austrália, os fabricantes de informações falsas estão se divertindo. Uma das mais apreciadas é a seguinte: esses dois meses de horror são fruto de uma conspiração secreta com o objetivo de enviar as pistolas sinalizadoras às nuvens para que caia a chuva. 

Outro complô: o calor atual seria devido aos Verdes que proibiram a queimada controlada, técnica que pretende controlar incêndios, queimando sem freio ou discernimento todas as ervas secas. (Rumores ainda mais estúpidos são que os ambientalistas têm apenas um membro entre os 151 que compõem o Parlamento). 

Outra expressão da teoria da conspiração é “Na Austrália, as mudanças climáticas permitiriam aos conservadores atrair as preferências dos trabalhadores das indústrias que votaram no Partido Trabalhista e temiam que a transição ecológica lhes custasse seus empregos e seu futuro". Outra tentativa de se recuperar da desordem climática pela política: “A caça aos culpados pelo clima é orquestrada pela esquerda australiana que não se recuperou de sua derrota eleitoral”.

“Fácil demais", diz um grande jornal, “acusar o aquecimento global!”. Ao falar apenas sobre o aquecimento global, estamos fazendo uma simplificação grosseira dos incêndios florestais, cujas causas são tão complexas quanto sua recorrência é previsível. A Austrália atravessa um período de seca habitual. Quanto à causa imediata do início dos incêndios, pode ser uma faísca produzida por um raio ou por certas ferramentas elétricas. 

No entanto, o único discurso que ouvimos no mundo todo sobre esse desastre questiona unicamente o aquecimento global causado pelo homem e é particularmente voltado contra o primeiro-ministro Morrison. No entanto, conclui o jornal, a Austrália não é responsável: responde por apenas 1/77 do dióxido de carbono produzido pela humanidade, o que coloca o país na décima quinta posição no ranking dos que produzem mais CO². 

O país pode muito bem ser desindustrializado totalmente, que o termostato planetário não se mexeria. Este é um bom artigo, com argumentos. Mas qual jornal publicou? O Wall Street Journal. E quem é o autor? É um australiano. Duas razões para afirmar que este arrazoado pode não ser muito objetivo.

Vamos passar a palavra ao acusado. O primeiro-ministro australiano que falou em uma rádio de Sydney dia 10 de janeiro: “Não queremos metas que arruínam a economia e não mudam nada. O fato é que sempre haverá tantos incêndios florestais na Austrália.” / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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