AP Photo/Dmitri Lovetsky
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'Na Bielo-Rússia, Lukashenko virou o presidente da polícia e de alguns burocratas'

Líder da 'última ditadura da Europa' está no comando do país há 26 anos, mas vê protestos massivos contra eleições consideradas fraudadas e população pedindo sua renúncia

Entrevista com

Vadim Mojeiko, pesquisador do Instituto Bielo-Russo de Estudos Estratégicos

Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2020 | 14h00

Com protestos ininterruptos desde 9 de agosto contra eleições consideradas fraudadas e forte repressão policial, o presidente bielo-russo Alexander Lukashenko, há 26 anos no poder, vê seu apoio minguar até mesmo em setores que eram seu reduto eleitoral no passado, como trabalhadores de fábricas estatais e mineradores.

"A maior parte da sociedade bielo-russa está contra Lukashenko e a população está encontrando diferentes formas de demonstrar isso", explica Vadim Mojeiko, pesquisador do Instituto Bielo-Russo de Estudos Estratégicos e professor associado da Universidade Estatal da Bielo-Rússia.

Nos últimos dias, figuras públicas como medalhistas olímpicos, blogueiros e pessoas que no passado apoiaram Lukashenko manifestaram sua revolta contra a repressão. "Depois dos relatos de mortes e de torturas nas cadeias, tem ficado cada vez mais tóxico estar próximo de Lukashenko. Todo mundo está se levantando contra o governo, o que não é muito bom para um líder autoritário que quer ser 'o presidente do povo'. Agora parece que ele só é o presidente da polícia e de alguns burocratas". 

Ao pedir uma transição para a democracia, os protestos também criam uma disputa geopolítica entre a Rússia, aliada histórica da Bielo-Rússia, e o Ocidente. Países europeus não reconhecem o resultado da eleição e falam em apoio à oposição, enquanto a Rússia diz que não deve haver interferência externa, embora tenha oferecido apoio militar a Lukashenko. 

Qual o significado das declarações da União Europeia ao não reconhecer a legitimidade de Lukashenko e dizer que as eleições não foram livres e nem justas?

É de um simbolismo muito importante para os bielo-russos e para os outros países que acompanham o que a União Europeia diz. A Comissão Europeia também planeja fornecer apoio financeiro para os trabalhadores que perderam emprego porque se manifestaram. Mas é preciso olhar para os próximos passos do que faz a União Europeia. 

A quais próximos passos o senhor se refere?

Os sinais que a União Europeia envia para a Rússia são muito importantes. É preciso deixar claro que uma invasão russa na Bielo-Rússia seria cruzar uma linha vermelha. Há uma pequena probabilidade, mas é perigoso e é preciso pensar nisso. Esse é um assunto interno da Bielo-Rússia que não pode ser influenciado por forças militares do exterior. 

Como você vê a influência da Rússia hoje no cenário político da Bielo-Rússia? 

Formalmente, a Rússia apoia Lukashenko, mas isso são apenas palavras. A Rússia pode apoiar qualquer um que realmente assuma o país. O principal ponto é que o poder não seja contra a Rússia e nem tão pró-OTAN e pró-Europa. Lukashenko sempre mostrou para a Rússia que ele podia até não ser muito bom, mas era a melhor opção. E agora está claro que existem muitos outros políticos que poderiam ser bons líderes e que não seriam contra a Rússia. 

Após dias de protestos ininterruptos, quais as chances reais de Lukashenko cair? 

Como qualquer ditador, ele quer manter seu poder pelo máximo de tempo possível. O povo tem encontrado formas diferentes de se manifestar: milhares tomando as ruas, mulheres em todo o país com roupa branca e flores em atos pacíficos, depois houve a mobilização de meio milhão de pessoas no domingo (16 de agosto ) em todo o país. Agora há greves em fábricas estatais.

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A maior parte da sociedade bielo-russa está contra Lukashenko e a população está encontrando diferentes formas de demonstrar isso. 
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O aparato de segurança continua apoiando Lukashenko. Esse é o fator decisivo? 

Está claro que uma parte das forças especiais, do aparato de segurança e da polícia apoia Lukashenko, não é contra ele e não vai apoiar a oposição. Mas vemos muito deles descontentes com as ordens para enfrentar a população bielo-russa nas ruas, especialmente em protestos pacíficos. Muitos pensam:  'não vou para as ruas bater na minha própria população'. Houve mais de sete mil detenções desde o início dos protestos. 

Como vê a criação do comitê para a transição de governo? 

Essa rede de contatos criada por políticos e a sociedade civil tem apenas uma missão: organizar uma transição de poder. É muito importante porque agora há um espaço para negociação. Não dá para negociar com a multidão das ruas. Então, com essa nova organização, ainda que haja críticas a ela, há uma interlocução. Há ali pessoas que integraram o governo e agora estão fora do sistema.

Eles também servem de exemplo para aqueles que querem escapar do Lukashenko ao mostrar que isso não é perigoso, que eles terão apoio e que será possível encontrar um novo espaço em uma nova Bielo-Rússia. 

Qual o papel de figuras públicas nos protestos da Bielo-Rússia?  

Esse tema é muito importante. Depois dos relatos de mortes e de torturas nas cadeias, tem ficado cada vez mais tóxico estar próximo de Lukashenko. É por isso que muitas pessoas públicas têm ido ao Instagram, ao Facebook, para dizer que apoiam mudanças e que estão contra esse sistema. Que são contra falsificação nas eleições, contra a repressão.

Funcionários da televisão estatal também se demitiram, alguns programas sem ir ao ar porque não havia equipe. Então, está difícil para as autoridades encontrar uma pessoa pública para apoiá-las. Todo mundo está se levantando contra o governo, o que não é muito bom para um líder autoritário que quer ser 'o presidente do povo'. Agora parece que ele só é o presidente da polícia e de alguns burocratas. 

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