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Na Bielo-Rússia, manifestantes limpam as ruas e respeitam o sinal vermelho

Cidades ficam imaculadas mesmo depois de enormes protestos; natureza polida tem sido uma defesa eficiente contra a retórica de Lukashenko, que afirma que os participantes são 'criminosos'

Isabelle Khurshudyan, The Washington Post

23 de setembro de 2020 | 03h00

MOSCOU – Enquanto a multidão crescia, chegando a mais de 100 mil pessoas em um protesto contra o governo na capital da Bielo-Rússia, no mês passado, Ekaterina Danyeko observou que as latas de lixo estavam ficando cheias. Fazia calor, e a maioria dos manifestantes carregava garrafas de água que acabariam jogando fora.

Então comprou grandes sacos de lixo na loja mais próxima para ajudar na limpeza. Horas mais tarde, se deu conta de que outras pessoas colocavam sacos de lixo cheios em seus carros para levá-los a um depósito. “Muitas pessoas estavam fazendo a mesma coisa”, disse Ekaterina, de 25 anos.

As manifestações em Minsk e em outras cidades para pedir a saída do presidente bielo-russo, Alexander Lukashenko, que afirma ter conseguido a reeleição no mês passado, apesar de supostas fraudes eleitorais, entram na sétima semana. Os comícios representam o maior desafio para Lukashenko, que está no poder há 26 anos, mas em vez de provocar prejuízos, como muitas outras revoluções fizeram, a da Bielo-Rússia é particularmente comportada

As ruas ficam imaculadas, mesmo depois de enormes protestos. Manifestantes foram vistos tirando o sapato antes de subir nos bancos públicos, para não sujá-los. Se o trânsito não é bloqueado e uma multidão está avançando pela rua, as pessoas param e obedecem ao sinal vermelho.

Mas é possível que isto comece a mudar. Como se criou um impasse entre o governo de Lukashenko e a oposição, alguns bielo-russos começaram a aderir a uma posição expressa em um comentario do Atlantic Council, no mês passado: “a revolução bielo-russa está exagerando demais no veludo para ser bem-sucedida.”

“Alguém escreveu em um tuíte que viu manifestantes atravessarem a rua no sinal vermelho, o que significa que nós ganharemos definitivamente – e que os nossos cérebros estão se dando conta de que, às vezes, se pode atravessar no vermelho”, afirmou Ekaterina. “Para muitos aqui, atravessar no sinal vermelho ou caminhar pela ciclovia é um grande feito. É como se estivessem rompendo com o sistema”.

Entretanto, a natureza polida dos protestos tem sido uma defesa eficiente contra a retórica de Lukashenko, que afirma que os participantes são “criminosos” e “desempregados”. Nas manifestações imediatamente depois da eleição de 9 de agosto, quando os choques entre a polícia e os manifestantes foram os mais violentos, imagens de multidões dispersadas brutalmente com granadas de efeito moral e balas de borracha convenceram outros bielo-russos a unir-se ao movimento de oposição.

No fim de agosto, o presidente russo Vladimir Putin anunciou que um contingente policial estava de prontidão para intervir nos protestos em favor de Lukashenko se a situação “fugisse do controle”, referindo-se especificamente aos saques. A unidade foi retirada na semana passada.

“Meus amigos estrangeiros me perguntam: ‘Como é possível que vocês não tenham quebrado ainda nenhuma janela das lojas em todo este tempo?'”, disse Ekaterina.

Ao contrário, desde o início os manifestantes adotaram outra forma de resistência, entrelaçando os braços em longas correntes para a polícia ter mais dificuldade para prendê-los. Em alguns protestos em agosto, as mulheres entregaram flores aos policiais. Mas como as forças de segurança intensificaram a repressão nas últimas semanas, as táticas mudaram.

As mulheres, que têm menos probabilidade de ser espancadas do que os homens, estão arrancando a balaclava de policiais não identificados, fazendo com que alguns deles prefiram fugir.

No fim de semana, o canal de notícias da oposição, Nexta Live, vazou no aplicativo de mensagens Telegram os dados pessoais de mil policiais bielo-russos. Cerca de 900 manifestantes foram detidos em comícios no sábado e no domingo.

“Evidentemente, é difícil quando a polícia nos agride, mesmo que a gente tente agir dentro da lei”, disse a manifestante Marina El Fadel, de 37. “Mas nós não estamos tentando enfrentar a força com a força. A única maneira de enfrentá-la é com a polidez”.

Marina comprou pão e café para os manifestantes que estavam ao seu lado durante os protestos. Victoria, que não quis ser identificada temendo pela segurança da família, viu uma mensagem no Facebook pedindo a voluntários que dessem carona aos manifestantes soltos do centro de detenção de Minsk. Quando ela chegou lá, 15 minutos mais tarde, ficou pasma ao ver que apareceram muita outras pessoas.

“Uma vez, vi uma mensagem no Telegram que dizia: 'Precisamos de gente para ajudar a limpar as ruas depois de um protesto'. Eu não tinha nada para fazer e, como tenho um carro, pensei: ‘por que não?'”. “Acho que todos sabem que o que fizermos de errado será usado contra nós. Se começarmos a largar a sujeira no chão, (o governo) vai dizer: ‘Olhem só para eles, não farão nada de bom por este país porque nem limpam a própria sujeira’”.

Hanna Liubakova, jornalista de Minsk e pesquisadora do Atlantic Council, disse que Lukashenko se gabou tantas vezes da limpeza da capital ao longo dos anos, que se tornou um meme – e um hábito tão entranhado que os bielo-russos acharão difícil abandonar. Ela lembrou que, no ano passado, em um comício contra uma maior integração com a Rússia, manifestantes que haviam rasgado uma foto de Putin mais tarde recolheram os pedaços e os depositaram em uma lata de lixo. “As pessoas são tão organizadas e disciplinadas que parece até uma valorização da ordem”, disse Liubakova. “Eu me pergunto se não será a decorrência de todos estes anos de um regime autoritário”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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