Na briga pelo poder na Argentina, Duhalde pode vencer

Há agora uma luta aberta no Partido Justicialista (peronista) pela sucessão presidencial, com atores bem definidos. O governador da província de Buenos Aires, Carlos Ruckauf, respaldado por amplo setor dos justicialistas, propõe Eduardo Duhalde para presidente, acompanhado de um gabinete de unidade que continue até 2003. Duhalde - ex-presidente da Argentina e ex-governador da província de Buenos Aires, assumiria no bojo de um amplo acordo, que incluiria o cancelamento das eleições previstas para 3 de março próximo.No entanto, outros líderes peronistas fortes, como José Manuel de la Sota, governador de Córdoba, Néstor Kirchner (governador de Santa Cruz) e Ruben Marín (governador de La Pampa) querem eleições o mais rápido possível e se opõem a um governo de salvação nacional.Se a atual crise política argentina possui protagonistas, estes são os caciques do Partido Justicialista (Peronista). O partido domina confortavelmente o Senado, é o principal partido na Câmara de Deputados e, de quebra, controla 14 do total de 24 províncias do país.Além disso, das províncias que controla, as três principais da Argentina (Buenos Aires, Córdoba e Santa Fe) estão em suas mãos. No total, 80% dos argentinos vivem sob controle direto da administração peronista.No entanto, sem contar ainda com um presidente eleito pelo povo, o peronismo encontra-se em um estado de guerra interna. Somente um novo presidente eleito poderia assumir o cargo de caudilho e, assim, colocar todos os integrantes do partido sob estrita disciplina.?Isto é como um reino onde não há imperador, e todos os senhores feudais querem o poder. Para isso, matam-se uns aos outros. Mas na hora que um imperador for designado, todos passam a obedecê-lo cegamente?, analisou em off ao Estado um ex?secretário do governo do ex?presidente Carlos Menem (1989-99).Mas, ao contrário de uma novela, onde há poucos protagonistas e muitos coadjuvantes, a atual crise política possui muitos aspirantes aos papéis principais e poucos resignados a uma interpretação de segunda magnitude. A saber:Eduardo Camaño: é um dos raros resignados a um segundo plano no cenário político. Presidente da Câmara de Deputados, depois da renúncia do presidente do Senado, Ramón Puerta, Camaño será temporariamente o presidente dos argentinos até que possivelmente nesta terça-feira seja substituído por um novo presidente, interino ou permanente. Presidente por 48 horas, é um ?duhaldista? confesso.Eduardo Duhalde: ex-vice-presidente da República (1989-1991), ex?governador da província de Buenos Aires (1991-1999) e atual senador (2001), Duhalde é um dos nomes cotados para ocupar a presidência do país até 2003.Peronista à moda antiga, cultiva um perfil populista que construiu nas últimas três décadas, graças a seu curral eleitoral na Grande Buenos Aires, o decadente e empobrecido cordão industrial da capital argentina. Homem temido pelos mercados, já em 1999 pregava a suspensão do pagamento da dívida externa pública.Desde a queda do presidente Fernando De la Rúa, há duas semanas, posicionou-se como virtual candidato à sucessão presidencial, mas sem ostentação. Nos últimos dias de Rodríguez Saá, criticou o presidente e alertou para o risco de ?guerra civil?.Duhalde controla mais de 40 deputados de um total de 112 que o peronismo possui na Câmara. No entanto, seu poder fora de sua província é limitado pelo histórico rechaço que existe em outras províncias do interior a um caudilho proveniente de Buenos Aires. Não é considerado um ?líder nacional?.Em relação a seu antigo chefe, o ex?presidente Menem, Duhalde possui uma posição de extremo confronto. Ele nunca esqueceu que sua derrota como candidato peronista às eleições presidenciais de 1999 foi causada em grande parte pela falta de apoio de Menem, que, na época era presidente.José Manuel de la Sota: governador da província de Córdoba, De la Sota tornou-se famoso em 1999, ao decretar a redução dos impostos provinciais em 30% e ter reduzido o número de parlamentares estaduais drasticamente. De la Sota aspira à presidência do país e é um dos governadores do grupo das três províncias ?grandes? (Buenos Aires, Córdoba e Santa Fe).Na noite deste domingo, foi acusado pelo ex?presidente Adolfo Rodríguez Saá de ter causado sua queda mediante a remoção total de apoio partidário. De la Sota é um dos que querem eleições presidenciais em março, ou em fevereiro, se possível. Conta com o apoio de algumas províncias do interior e tem pouco rechaço na cidade de Buenos Aires.Tem boas relações com o establishment, ao contrário de Duhalde. Foi um dos diversos artífices da queda de Rodríguez Saá, mas foi escolhido pelo ex?presidente como alvo de suas críticas.Carlos Ruckauf: vice-presidente da República durante o segundo mandato presidencial de Menem (1995-99), Ruckauf tornou-se em 1999 governador da província de Buenos Aires, colocando-se automaticamente na categoria de presidenciável. Ruckauf, homem de amplo e permanente sorriso, controla o forte aparato do peronismo de Buenos Aires.A província produz um terço do PIB, e ali habita um terço dos eleitores argentinos. Ruckauf teria limitações se fosse candidato em uma eventual eleição em março. Como foi parte da chapa presidencial que governou entre 1995 e 1999, se for eleito agora, não poderá reeleger-se nas eleições de 2003.Por este motivo, e porque não pretenderia arriscar-se a um governo cujo sucesso econômico e social é incerto, passou a apoiar a designação de Duhalde, seu relativo aliado em Buenos Aires.Carlos Reutemann: ex?piloto de Fórmula 1, é governador da província de Santa Fe. Taciturno e arisco a comportamentos populistas, é o único governador ?grande? que não possui denúncias de casos de corrupção. Reutemann possui aspirações presidenciais declaradas, mas sempre foi cauteloso. Evita os confrontos com seus dois tradicionais rivais, Ruckauf e De la Sota. Com Menem possui uma relação distante, mas de ocasionais aproximações. Também colaborou para a queda de Rodríguez Saá.Néstor Kirchner: constantemente rebelde, ao longo de dez anos de governo do ex?presidente Carlos Menem (1989-99) manteve permanente confronto com o governo federal, atitude que manteve posteriormente com o governo do ex?presidente Fernando De la Rúa (1999-2001).Kirchner é o governador da província patagônica de Santa Cruz, uma das que ostentam um dos menores índices de desemprego de todo o país. Com fama de autêntico e de honesto (características escassas no peronismo), Kirchner possui boa fama. Mas é pouco conhecido e domina somente uma pequena porção do aparato partidário do peronismo.Depois da saída de Adolfo Rodríguez Saá da disputa presidencial, Kirchner torna-se no porta-voz informal do grupo de governadores das onze províncias ?pequenas? controladas pelo peronismo.Carlos Menem: ex?presidente da República (1989-95 e 1995-1999), controlou o peronismo com mão de ferro enquanto esteve na presidência do país.Mas desde que deixou a Casa Rosada, a sede do governo, só foi manchete dos jornais na ocasião de seu casamento com a ex?miss Universo, a chilena Cecília Bolocco, e durante sua prisão, ocorrida em junho, quando foi acusado de ter sido o chefe de uma organização mafiosa que contrabandeou armas para a Croácia e o Equador entre 1991 e 1995.De um total de 112 deputados peronistas, somente controla 12. Depois de declarar seu total apoio a Rodríguez Saá na quinta-feira (?ele deveria permanecer até 2003?), no sábado já o estava criticando rispidamente.Leia o especial

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