Federico Rios/The New York Times
Federico Rios/The New York Times

Na capital colombiana, a estratégia é homens em um dia, mulheres no outro 

Conforme o vírus avança pela América Latina, países tentam diferentes abordagens para manter as pessoas fora das ruas. Em Bogotá, homens e mulheres só podem sair em dias alternados

Julie Turkewitz / The New York Time, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2020 | 05h00

BOGOTÁ - Homens por toda parte. Homens na padaria, homens de bicicleta, homens nos parques, homens nos corredores do supermercado. “É estranho", disse a enfermeira Adriana Pérez, de jaleco, esperando no banco. Ela é a única mulher à vista. “Mas está funcionando.”

Bogotá, capital da Colômbia e maior cidade do país, juntou-se ao Panamá essa semana ao instituir uma medida de prevenção do coronavírus com base no gênero para limitar o número de pessoas nas ruas. Nos dias ímpares, os homens podem sair de casa para tarefas essenciais. Nos pares, é a vez das mulheres.

A medida é adotada em um momento em que cidades de toda a América Latina enfrentam dificuldade para tirar as pessoas das ruas, apesar da quarentena que foi ordenada já há semanas na maioria dos países.

O vírus tem atingido a região mais lentamente, mas seus efeitos começam a ser sentidos com força brutal em alguns lugares, em especial o Equador, onde centenas morreram nas semanas mais recentes, especialmente em Guayaquil, epicentro da pandemia no país.

A Colômbia tem cerca de 3 mil dos mais de 60 mil casos da América Latina, a maioria deles concentrada em Bogotá. Para deter a disseminação do vírus, alguns países da região começaram a prender aqueles que violam a quarentena. Outros instituíram toques de recolher. A capital da Colômbia tenta a separação entre os gêneros.

São feitas exceções para aqueles que trabalham nas indústrias essenciais, como a de alimentos e a de saúde, e outras isenções para casos especiais. Passeadores de cachorro de qualquer gênero podem sair por 20 minutos. Mas, fora isso, quem for flagrado violando a regra recebe multa de US$ 240, o equivalente a um mês de salário mínimo na Colômbia.

A prefeita de Bogotá, Claudia López, primeira mulher a liderar a cidade e também a primeira política declaradamente gay a fazê-lo, disse que as pessoas transgênero podem seguir a regra de acordo com o gênero com o qual se identificam. A ordem da saúde diz que as autoridades devem respeitar “diferentes manifestações de gênero". A prefeita descreveu a medida como a maneira mais fácil de dividir a população de acordo com critérios que a polícia pode fiscalizar.

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Durante os dois primeiros dias da medida, a polícia repreendeu 104 mulheres e 610 homens por terem violado a lei, de acordo com a prefeita López. Os infratores devem pagar a multa em um prazo de até cinco dias, ou podem ser levados ao tribunal.

O Peru tinha adotado uma medida parecida, mas o presidente Martín Vizcarra a cancelou depois de críticas terem apontado para a discriminação contra pessoas transgênero.

No início do mês, a Human Rights Watch criticou a política de separação de gêneros adotada no Panamá, dizendo que a polícia usou a regra para deter e multar uma mulher transgênero que saiu de casa no dia designado para as mulheres. De acordo com o grupo, a polícia a deteve “porque a informação apontando o gênero ‘masculino’ no documento dela não condizia com sua aparência".

A medida adotada na Colômbia lembra a mais conhecida medida de trânsito de Bogotá, que institui o rodízio de veículos de acordo com o último número da placa.

 

Bogotá, cidade de 8 milhões de habitantes, costuma ter um dos piores problemas de congestionamento do mundo, e o rodízio de veículos é uma das características que define sua vida urbana em momentos de normalidade.

O país já está em quarentena há quase um mês, e a medida limitando o deslocamento tem sido particularmente difícil para os trabalhadores informais, que dependem do rendimento do dia ou da semana para sustentar suas famílias.

Na quarta feira, Yesica Benavides estava entre os homens em uma calçada de Bogotá tentando vender doces. Ela não tinha luvas nem proteção para o rosto, pois deu a única máscara à filha de 3 anos, Nicole. “Saímos todos os dias", disse ela, com Nicole ao seu lado. As duas dormem em um motel, e pagam diariamente pelo quarto. “Se não sairmos, não teremos o que comer", lamentou Yesica.

Mas a medida foi elogiada por muitos na cidade. No bairro de classe média de El Recuerdo, a polícia deteve mulheres para perguntar por que tinham saído. Homens faziam fila no supermercado, tentando manter entre si uma distância de 1,8m. “Quanto menos pessoas nas ruas, melhor", disse o engenheiro William Legizamón ao sair de um mercado.

O chef Jorge Chacón, que saía de um mercadinho, disse ter reparado que as ruas estavam mais cheias, e defendeu medidas de isolamento mais rigorosas. “Precisamos de medidas ainda mais drásticas", sugeriu ele, “pois as pessoas continuam saindo”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

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