Elizabeth Frantz/Reuters
Elizabeth Frantz/Reuters

Na Carolina do Norte, democratas apostam no eleitorado negro

Estado vinha votando em republicanos desde Ronald Reagan até a candidatura de Barack Obama, em 2008; mas em 2012 não repetiu o resultado e, em 2016, elegeu Donald Trump com 49% dos votos

Beatriz Bulla / Enviada Especial, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2020 | 14h23

CHARLOTTE, EUA - Joe Biden terminou a SuperTerça, em março, como grande vitorioso na disputa pela nomeação do Partido Democrata do candidato à presidência e não foi só em razão da vitória acachapante sobre Bernie Sanders. O símbolo do sucesso do ex-vice-presidente foi a votação da Carolina do Norte - o único Estado-chave dos 14 Estados que fizeram primárias naquela data.  

O Estado vinha votando em republicanos desde Ronald Reagan até a candidatura de Barack Obama. Em 2008, a Carolina do Norte votou azul, cor dos democratas, mas não repetiu o resultado em 2012 e, em 2016, elegeu Donald Trump com 49% dos votos. Em 2020, Trump e Biden disputam os 15 delegados do Estado.

A esperança dos democratas no Estado está em um eleitorado bem diferente daqueles que ajudaram Trump a vencer no Meio-Oeste. Para virar a Carolina do Norte, os democratas precisam levar às urnas o eleitorado negro e os jovens.

A Carolina do Norte tem uma proporção de moradores negros maior do que a média nacional. Dos 10 milhões que vivem no Estado, 22,2% são negros. No país todo, 13% são negros. Os democratas historicamente conquistam a maior parcela do voto dos negros, mas eles não se animaram para votar em Hillary Clinton.

A retórica de Trump, hesitante em condenar supremacistas brancos em 2017 e com críticas aos protestos antirracismo de 2020, tem ajudado Biden no Estado. Se depender de Robert J. DeLawrence, músico e morador de Charlotte, na Carolina do Norte, Biden será presidente.

"Essa é uma campanha de vida ou morte", afirma DeLawrence, que é negro. "O racismo que sempre esteve nos porões foi exposto. Trump expôs o racismo. Nós lidamos com isso por toda a nossa vida e vemos isso nele. É hora de nos unirmos como cidadãos americanos. Nós só queremos o mesmo tratamento, todo mundo está trabalhando duro", afirma o músico."Joe Biden já se provou. Nós sabemos seu histórico. Não estou dizendo que ele é perfeito, mas pelo menos sabemos que ele é apaixonado pelas pessoas."

A segregação racial é parte da história da Carolina do Norte, que foi um dos Estados Confederados - que defenderam a escravidão na época da Guerra Civil americana (1861-1865). Leis conhecidas como Jim Crow, que institucionalizaram a discriminação com base na raça, também ficaram vigentes no Estado até a década de 70. Bem no centro de Charlotte, próximo de restaurantes disputados, o museu que retrata a história de discriminação no Estado traz réplicas de ambientes onde negros não eram aceitos, como ônibus escolares e lanchonetes.

Leticia Wallace, que trabalha como consultora na mesma cidade, espera que Biden seja capaz de reunificar a sociedade. "Trump não governa para todo mundo, mas para as pessoas como ele. Precisamos de alguém que trabalhe por todos", afirma. 

Dívida estudantil

Morador de Charlotte, Barry Dixon tem 30 anos, graduação e especialização em marketing. Como um a cada três jovens americanos de até 30 anos, Dixon tem uma dívida estudantil que carrega desde 2013 e não sabe quando irá conseguir pagar. "Eles nos ensinam que se tirarmos boas notas teremos um bom trabalho. Mas não dizem que você se forma com US$ 120 mil de dívida e precisará começar a ganhar um bom dinheiro imediatamente", afirma. 

Começar a carreira profissional como iniciante não era suficiente para pagar as contas - e o empréstimo que fez para estudar e ele se cadastrou na Uber para complementar a renda, apesar de não ter imaginado isso quando entrou na faculdade. "Estou cansado de votar apenas porque tenho direito de votar. Eu quero saber o que vou conseguir pessoalmente com meu voto", afirma Dixon.

O americano é um dos jovens que via a solução no senador Sanders, que propôs o cancelamento de toda a dívida estudantil de todos os estudantes. Para derrotar Trump e unificar o eleitorado democrata, Biden decidiu se unir à equipe de Sanders. Em julho, os dois anunciaram um plano comum, criado por assessores do senador progressista e do ex-vice-presidente moderado. Biden já tinha proposto um programa de redução da dívida estudantil, mas aprofundou a promessa ao estabelecer a parceria com Sanders.

Nicole Potts, de 48 anos, veste com frequência um moletom da Belmont Abbey College. Mas o orgulho da faculdade que cursou acaba aí. "Foi o pior erro da minha vida", diz. Ela tem 48 anos e uma filha de 31, a qual criou sozinha. As duas foram para a universidade ao mesmo tempo e hoje ela tem uma dívida de US$ 80 mil para pagar. 

Cerca de 45 milhões de americanos têm dívida estudantil, que chega a US$ 1,6 trilhão de dólares (R$ 7,2 trilhões). A maioria (70%) dos estudantes recorre a empréstimos para bancar os estudos universitários, mas não consegue pagar depois com o acúmulo dos juros.

A taxa para estudar em universidades americanas varia de acordo com a instituição de ensino e com o curso. Na Belmont Abbey College, uma faculdade católica da Carolina do Norte, a graduação custa US$ 32 mil por ano. Um mestrado em instituições de ensino de elite, como Harvard passa de US$ 50 mil anuais.

"Eu não consigo um trabalho que pague o que eu preciso para quitar esse empréstimo estudantil", afirma. Nem ela e nem a filha seguiram carreira no ramo escolhido na faculdade: "Nos pagam US$ 90 a hora para uma função que exige mestrado, como fazer? Ter diploma não basta", desabafa. 

Vírus

O coronavírus tornou-se central na disputa da Carolina do Norte. O senador republicano Thom Tillis, que tenta garantir a reeleição em 3 novembro, chegou a apoiar as medidas do governador democrata para determinar fechamento do comércio e do isolamento social. “Ainda não eliminamos o vírus. A última coisa que podemos fazer é baixar a guarda agora”, afirmou o senador, em desacordo com outros líderes republicanos. 

A vitória do republicano foi apertada na última eleição, com menos de 2 pontos porcentuais de diferença do rival democrata. O concorrente pelo lado democrata, o veterano Cal Cunningham, acusa o senador de não pressionar o governo federal o suficiente para distribuir ao Estado equipamentos de proteção aos profissionais de saúde. Na reta final da campanha, no entanto, Tillis foi infectado por covid-19 após participar de evento na Casa Branca e Cunningham se envolveu em um escândalo sexual, o que tumultuou a disputa pelo Senado na Carolina do Norte.

Até então, o tema das campanhas para o Senado fora o fracasso das respostas ao coronavírus e a proximidade com Trump já não é mais um trunfo para candidatos republicanos. Uma reunião por telefone do grupo Mulheres Por Trump, em maio, jogou luz sobre o problema. O que era para ser uma conversa de praxe entre ativistas e um senador republicano mostrou que os republicanos podem perder a maioria no Senado na eleição de 2020.

Além do presidente, os eleitores decidirão quem vai ocupar 36 das 100 cadeiras no Senado. Hoje, a divisão é de 53 republicanos e 47 democratas ou independentes que votam com democratas. Além de manter as vagas que já possuem, os democratas precisam ganhar 3 ou 4 novos assentos para ter a maioria na casa.

Para se reeleger, Trump precisará dos votos dos delegados da Carolina do Norte. Para garantir a governabilidade de um eventual segundo mandato, precisa também garantir que o Partido Republicano não perca a cadeira do Estado no Senado.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.