Na China, a culpa é do Ocidente

Do Occupy Central ao Tibete, Pequim enxerga influência de 'forças estrangeiras hostis' em grupos de oposição

PETER, FORD, THE CHRISTIAN SCIENCE MONITOR, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2014 | 02h02

À medida que as manifestações pró-democracia em Hong Kong entram no segundo mês, o governo chinês não tem dúvida quanto a quem está por trás delas: "forças estrangeiras hostis" lideradas pelos EUA. E não só em Hong Kong. A mídia oficial chinesa recentemente tem aumentado as acusações, às vezes beirando a xenofobia, culpando os conspiradores subversivos ocidentais.

O jornal porta-voz do Partido Comunista no poder, Diário do Povo, publicou 42 artigos este ano responsabilizando forças hostis ocidentais, ou apenas estrangeiras, pelas dificuldades que a China atravessa. E todos são repetidas em vários outros jornais, websites e canais de TV oficiais.

A denúncia persistente dá a impressão de que o presidente Xi Jinping deu as costas para um dos princípios que orientaram a política externa pós-maoísta da China - de um envolvimento maior com antigos adversários como Grã-Bretanha e EUA. "Estamos observando uma inversão de 35 anos de história chinesa", disse Zhang Jian, professor da Universidade de Pequim.

A tendência é "inquietante", disse Susan Shirk, que atuou no governo de Bill Clinton na área de políticas para a China. "Parece que Xi Jinping está lançando a China e EUA numa nova Guerra Fria".

Uma série de problemas teria surgido por culpa de forças estrangeiras hostis, a começar pelos protestos do Occupy Central, em Hong Kong, com os manifestantes exigindo mais direitos democráticos do que Pequim está disposta a conceder. Distúrbios no Tibete, propagação de "valores universais" em oposição aos valores socialistas, e a crescente violência na Província muçulmana de Xinjiang estão entre os desafios atribuídos aos inimigos externos.

Por trás dessas queixas, segundo a professora Susan, está o desejo do presidente Xi de "tentar criar um conflito ideológico entre valores do Partido Comunista e valores estrangeiros (...) para mobilizar a lealdade em relação ao partido". A mídia chinesa não oferece muitos detalhes sobre a maneira que "forças estrangeiras hostis" vêm conspirando para corroer o regime.

De maneira mais ampla, as autoridades caracterizam todos os informes estrangeiros da China como motivados pelo seu objetivo de mudar o regime. Mais recentemente, um artigo elaborado pela Academia Chinesa de Ciências Sociais e publicada no Diário do Povo acusou "forças ocidentais hostis" de exagerar o número de pessoas que morreram durante o "Grande Salto para a Frente", com o fim de "negar a legitimidade" do Partido Comunista. Mais de 30 milhões de pessoas teriam morrido de fome durante a desastrosa tentativa de Mao Tsé-tung de industrializar a China no fim da década de 50, embora as autoridades chinesas jamais tenham oferecido uma explicação oficial da tragédia.

Talvez a explicação mais definitiva e oficial da ameaça de tais forças hostis externas tenha partido de Han Qingxiang, vice-presidente da Escola do Partido Central, guardiã da ortodoxia do Partido Comunista. "Forças estrangeiras hostis que lutam contra nós assumem, em geral, a forma de penetração cultural e difusão do pensamento social ocidental, usando "liberdade, democracia e direitos humanos como temas alvo", escreveu. O próprio Xi teria usado a frase "forças estrangeiras hostis" em pelo menos duas ocasiões.

Acusar forças hostis ocidentais ou estrangeiras é um reflexo que remonta à revolução de 1949 que levou Mao ao poder na China. Era comum, mas depois saiu de moda, disse Qian Gang, bolsista do China Media Project, da Universidade de Hong-Kong, que tem estudado a tendência. A frase, segundo ele, é exemplo de uma linguagem "profundamente vermelha" e seu uso pela mídia oficial revela a atmosfera política que predomina e chegou ao seu pico depois dos protestos na Praça Tiananmen e a repressão política em 1989, por exemplo.

Segundo Susan, isso é "problemático" porque vai contra o desejo de Pequim de melhorar relações com os EUA. À medida que o governo adota um tom cada vez mais ríspido em questões que vão desde disputas territoriais até a perspectiva de um rejuvenescimento nacional como potência mundial, no entanto, ele vem usando o nacionalismo para inflamar os sentimentos dos cidadãos. "Para isso eles precisam de inimigos externos", disse Zhang. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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